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Émile Bréhier - La théorie des incorporels dans l´ancien Stoïcisme. Alduisio M. de Souza Transdução comentada: A teoria dos incorpóreos no antigo estoicismo 1 λεσηον EXPRIMÍVEL TRANSDUÇÃO COMENTADA DE: A TEORIA DOS INCORPORAIS NO ANTIGO ESTOICISMOde Émile BRÉHIER. Alduisio M. de Souza

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mile Brhier - La thorie des incorporels dans lancien Stocisme. Alduisio M. de Souza Transduo comentada: A teoria dos incorpreos no antigo estoicismo

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EXPRIMVEL

TRANSDUO COMENTADA DE: A TEORIA DOS INCORPORAIS NO ANTIGO ESTOICISMO de mile BRHIER.

Alduisio M. de Souza

mile Brhier - La thorie des incorporels dans lancien Stocisme. Alduisio M. de Souza Transduo comentada: A teoria dos incorpreos no antigo estoicismo

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SUMRIOPrembulo...............................................................................................................................3 Introduo...............................................................................................................................5

CAPTULO PRIMEIRO DO INCORPOREO EM GERAL I A crtica das idias...........................................................................................................6 II A noo de fato na fsica................................................................................................10

CAPTULO SEGUNDO O INCORPREO NA LGICA E NA TEORIA DOS EXPRIMVEIS I Do exprimvel em geral...................................................................................................14 II Do exprimvel na teoria do julgamento e do raciocnio.................................................19 III A definio e a semiologia............................................................................................23 IV A semiologia e o destino...............................................................................................25 CAPTULO TERCEIRO A TEORIA DO LUGAR E DO VAZIO I A teoria do lugar..............................................................................................................27 II O vazio...........................................................................................................................30 III O espao........................................................................................................................33

CAPTULO QUARTO TEORIA DO TEMPO

Teoria do tempo...................................................................................................................37 Concluso.............................................................................................................................40 Bibliografia...........................................................................................................................42

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PREMBULO DA TRANSDUO Estamos completando um sculo que este grande homem de cultura, mile Brhier trouxe para a cultura na linhagem francfona o estudo dos Esticos, um privilgio at ento dos Anglos Saxes na compilao de suas fontes: Arnim, Diels, Pohlenz, Jaeger etc. sem, no entanto ter ali produzido em conseqncia uma renovao da filosofia, permanecendo um trabalho essencialmente acadmico, exceo de Heidegger, que renovou as interrogaes sobre o ser agregando-lhe a dimenso do tempo, ponto de partida de Badiou em seu mega projeto de renovao filosfica do O ser e o evento, mas mesmo assim mais estudado, e gerou mais efeitos fora do que na Alemanha. Devemos a mile Brhier a renovao da filosofia na Frana pela abrangncia de suas fontes gregas com esprito crtico e corajoso, estando dado que, como membro da Academia o estudo da filosofia antiga se bastava em Plato e Aristteles. E concretamente, tal como considero, o estudo dos Esticos permitiu uma aerao do pensamento e o surgimento de uma escola francesa de filosofia com Gilles Deleuze, Michel Foucault, Alain Badiou e outros, com amplas repercusses em vrios campos do saber, inclusive no que nos concerne de perto: a Psicanlise atravs de Jacques Lacan. No ensino Estico encontramos a principal fonte filosfica de Lacan, serializada com Leibniz, Espinosa, Pearce e Frege, no somente terica, mas inclusive de conceitos que se tornaram pelo fazer lacaniano em conceitos radicais de clnica como expus no ltimo texto que estudamos, Notas de leituras sobre os incorpreos esticos no ensino de Lacan: o Significante; o Semblante; o Objeto a; o Lugar; a Posio do Analista como Semblante do Objeto; o Significante Puro como um Acontecimento Estico e mesmo sobre a Transferncia e a Interpretao. Foi propriamente um dom, um bem, que Lacan soube acolher, assim como Deleuze para sua retomada crtica e corajosa da filosofia, no enfrentamento de debate com o hegelianismo e a dialtica marxista de Althusser. No final de sua vida Deleuze diz jamais ter abandonado o marxismo, o que ele abandonou, e soube muito bem tirar proveito foi o sectarismo e o dogmatismo marxista que, com o surgimento do primarismo maosta conduziu a uma leitura pobre e mecnica da dialtica e da lgica. A filosofia maosta se resume a dois trabalhos de Mao Ts Tung: Sobre a Contradio, numa leitura realmente genial da dialtica marxista; e Da prtica, mais um resumo do A propsito da dialtica de Lnin, e Materialismo histrico e materialismo dialtico de Stalin, texto recusado pelos prprios marxistas por ser simplrio e mecanicista. O maosmo foi um marxismo de circunstncia e s tomou corpo pela importncia poltica de uma alternativa ao revisionismo sovitico, no por seus mritos de uma filosofia, pois que muito mais se resumia num grande tratado de estratgia, a sim genial. Mas mesmo assim desembocou num dos maiores desastres polticos com a chamada Revoluo Cultural Proletria de 1966 a 1975. Na psicanlise entrou tambm pelo vis de uma alternativa IPA e um retorno s fontes. Os marxistas da E.N.S. [cole Normale Suprieure] eram todos maostas num sentido libertrio, formados por Althusser e foram os primeiros a reconhecer a genialidade de Lacan e lhe apoiar no mbito do ensino. Eles lhe abriram as portas quando tantas outras se fecharam e ao final de dois anos aderiram ao lacanismo no lugar do maosmo primrio e anrquico na poca com a liderana de Alain Geismar e Jacques-Alain Miller, militantes e dirigentes do principal grupo maosta Francs, La Cause du Peuple [A Causa do Povo] que se fizeram discpulo e porta-voz autorizado. Diz Marx, no 18 Brumrio, citando a Hegel que, quando da primeira vez tragdia e da segunda farsa. Como Riobaldo, eu preservo meu talvez!

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O texto sinttico sobre A teoria dos incorporais (incorpreos), escrito em 1908, por Brhier e editado em 1927 pela VRIN, foi a base do que Foucault chamou de O livro dos livros, ou seja, o livro Lgica do sentido de Gilles Deleuze, mas j se encontrava dispersa, sobretudo no trabalho magnfico de divulgao da lgica de Crsipo e inclusive de sua leitura das modalidades de Aristteles, insupervel at hoje. Acostumado com a obra portentosa de mile Brhier, de milhares e milhares de pginas brilhantes e abrangentes fiquei fascinado com o aspecto sinttico dessa obra aqui e resolvi traduzi-la com alguns comentrios [DIGRESSES], que estaro sempre entre colchetes ([ ]). Esta transduo para uso de amigos, alunos e colegas, de modo que ela circular entre pequenos grupos sem nenhum interesse comercial, unicamente como um dom para o estudo da Filosofia, sobretudo entre os psicanalistas, pois temos a a origem do conceito lacaniano de Significante. A transduo foi feita a partir da nona edio da Librairie Philososopique J. VRIN de 1997. ISBN 2-7116-0088-2. Ela carece das notas de rodap, pois as referncias muitas delas no existem em tradues e so de origem alem e dado o interesse restrito dessa traduo no me dispus a reproduzi-las. S o farei a pedido de algum estudioso ou de uma editora que se interesse pela traduo que ser graciosa, sem nenhum custo para tal. Acrescentei no final uma Pequena Bibliografia No Pontual, inspirada em parte pela obra de Emile Brhier, Histria da Filosofia, Volume I (Da Antiguidade Idade Mdia), 5 Edio de 1989. P.U.F. Atenciosamente Alduisio

A TEORIA DOS INCORPREOS NO ANTIGO ESTOICISMO mile BrhierINTRODUO

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Um trao caracterstico das filosofias que nasceram aps a de Aristteles, o de ter rejeitado para a explicao dos seres qualquer causa inteligvel e incorporal. Plato e Aristteles buscaram o princpio das coisas nos seres intelectuais. Por este ponto de vista suas doutrinas derivam por deduo da doutrina socrtica dos conceitos e das filosofias como as de Pitgoras e Anaxgora que teriam fundado o princpio das coisas nos elementos tangveis para o pensamento claro. Foi o contrrio o procedimento dos Esticos e Epicuristas, que viam nos corpos, as nicas realidades, aquela que age e aquela que sofre a ao. Isto , que age e agida pela ao, ou seja, que afetada e que afeta. Por uma espcie de ritmo, sua fsica reproduz aquela dos fsicos anteriores a Scrates e no deixam de nos observar que na Alexandria renascia o idealismo platnico que preserva unicamente o nico modo de atividade considerado como a de um ser inteligvel. Para encontrar as razes dessa evoluo do platonismo ao estoicismo seria interessante, parece-nos, de buscar qual o lugar no sistema que ocupa a idia do incorporal. Este termo designa para os Esticos, segundo Sexto Emprico, as seguintes coisas: o exprimvel (), o vazio, o lugar, o tempo. O prprio termo de incorporal foi pouco utilizado nas doutrinas precedentes. Plato quase nunca se serviu para indicar as Idias. O encontramos por duas vezes quando quer opor sua teoria de Antstenes que tambm no admitia a existncia dos corpos. Encontramos o termo ainda em Plato para designar uma idia tomada de emprstimo do pitagorismo, esta da harmonia entre os seres, seja no Filebo, da harmonia das partes do bem, ou ainda em Fdon, esta da harmonia entre as partes do corpo que segundo os Pitagricos constitui a alma. Aristteles emprega o termo incorporal, no para designar seu Deus separado, mas para caracterizar a idia de lugar, em uma teoria que inclusive ele no admite. Os Alexandrinos ao contrrio empregam o termo de maneira habitual para designar os seres que ultrapassam o mundo sensvel. Parece ento ter sido os Esticos que introduziram a expresso na linguagem corrente da filosofia, mesmo que em seguida ela serviu como elemento de combate de suas prprias idias. Segundo o uso que faz Plato, no impossvel que o termo venha de Antstenes, que, antes dos Esticos teria rejeitado os incorpreos ao no-ser como tambm a noo de lugar e de tempo. mesmo a que se situa o sentido geral da teoria dos Esticos sobre os incorpreos. Identificando o ser com o corpo so, no entanto forados a admitir, mesmo como simples existentes, pelo menos as coisas definindo o espao e o tempo. para estes nadas [nants] de existncia que eles criaram a categoria dos incorpreos. As fontes que iremos utilizar nesse estudo, para alm dos copiladores ou doxgrafos (Estobeu, Digenes Larcio, Acio), so, sobretudo, os contraditores dos Esticos: os Acadmicos, os Cticos (Ccero nos Acadmicos e Sexto Emprico) os comentadores de Aristteles (Ammnios, Alexandre de Afrodise, Simplcio) e os platnicos (Plutarco, Nemsios, Proclos). Pela sua natureza, as anotaes no contm em geral que as indicaes gerais, sucintas, sobre as doutrinas e teremos s vezes dificuldades de compreender e de completar as informaes que nos so dadas. mile Brhier

CAPTULO PRIMEIRODO INCORPREO EM GERAL I Uma definio matemtica capaz de engendrar por si s uma multiplicidade indefinidas de seres: todos os que seguem a lei exprimida na definio. H entre estes seres e seu modelo uma espcie de relao de causalidade: do caso particular com a lei e da imitao ao seu modelo. Se for assim ento que Plato se representava o lao entre a Idia e

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as coisas sensveis determinadas por ela, no iremos certificar aqui. possvel que ele tenha buscado introduzir nas suas Idias mais atividade e vida do que h numa frmula matemtica. Mas o que certo que o representante o mais considervel do antigo estoicismo, Crsipo, no se representava de maneira diferente a doutrina platnica. Temos sobre este ponto o testemunho de Geminos, um matemtico do primeiro sculo A.C. que ficou por ns conhecido como Proclos. Segundo um teorema elementar, os paralelogramos que tm uma mesma base e nos quais os lados so contidos entre as mesmas paralelas so iguais. Podemos atravs desse teorema construir em limites definidos uma infinidade de figuras iguais. Da mesma forma, as Idias, segundo Crsipo compreendem () a gnese dos seres indefinidos em limite determinados. A noo de limite ento essencial para os seres: a Idia somente indica os limites aos quais se devem satisfazer um ser para existir sem determinar mais apuradamente a natureza deste ser: ele pode ser o que quiser nos limites e assim no somente um ser que determinado, mas uma multiplicidade sem fim de seres. Compreendemos assim o que Proclos, reprovando os Esticos de terem abandonado as Idias, lhes censurava por ter rejeitado para fora da realidade os limites dos seres. ..................................................................................................................................................DIGRESSO I [O teorema do paralelogramo referido, de Proclus, foi reelaborado muito mais tarde, sculo XIX, por Emile Flix Edouard Justin (1871 1956) e ficou do ponto de vista da histria da matemtica conhecido como: Axioma de Borel-Lebesgue enunciado da seguinte maneira: Dizemos que um espao topolgico E verifica o axioma de BoreslLebesgue se todo recobrimento aberto de E podemos extrair um recobrimento finito]. [Quando tratado como um conjunto fechado ns temos a origem do que em matemtica gerou o conceito de tribo: famlia de subconjuntos em que as operaes de complementao e unio numervel so fechadas. In Dicionrio de Matemticas de Franois Lionnais P.U.F.].

[Podemos tambm enunci-lo de forma ingnua da seguinte maneira: uma figura geomtrica assim como um raciocnio conceitual desde que guarde suas propriedades, quando agregarmos um atributo ele conservar seus princpios iniciais que so dados pelos predicados da natureza do objeto. Confiram o mtodo Geomtrico de Espinosa e em Particular sua tica. Percebamos a importncia do enunciado para o trabalho com transformaes topolgicas de um objeto. Confiram como exemplar a construo do torotrique a partir de um toro comum].

................................................................................................................................................... Mas, com efeito, a esta concepo mesma da causalidade que os Esticos processam e a noo de ser que da deriva. A natureza de uma causa determinada pela natureza das coisas ou dos fatos que esta causa tem por misso explicar. Ora, os Esticos querem explicar outra coisa e se colocam num ponto de vista outro que este de Plato e Aristteles. Para eles, Plato e Aristteles, o problema era de explicar nos seres o permanente, o estvel, o que poderia oferecer um ponto de apoio slido para o pensamento de conceitos. Tambm a causa, fosse ela da Idia ou do motor imvel, o buscado era o permanente como uma noo geomtrica. Para o movimento, o devir, a corrupo dos seres, o que eles tm de perpetuamente instvel, devia-se no a uma causa ativa, mas a uma limitao desta causa escapando por sua natureza a toda determinao e a todo pensamento. O que desperta a ateno num ser primeiramente o elemento pelo qual ele se parece com outros e que permite classific-lo.

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Mas, outro ponto de vista consiste em considerar este ser nele mesmo em sua histria e sua evoluo desde seu surgimento at seu desaparecimento. O ser ento no ser considerado nele mesmo no como parte de uma unidade mais elevada, mas sendo unidade e o centro de todas as partes que constitui sua substncia e de todos os eventos que constitui sua vida. Ele ser o desdobramento no tempo e no espao desta vida com seus movimentos contnuos. a que se situa para os Esticos o problema das causas. Eis como nos diz Sexto Emprico de alguns fatos pelos quais eles concluram que havia causas: a semente e o desenvolvimento de um grmen; o desenvolvimento de uma planta; a vida e a morte; o governo do mundo; o devir da corrupo; a gerao do semelhante pelo semelhante. Os exemplos so quase todos concernentes ao seres vivos. Mesmo no caso contrrio os outros seres so no pensamento ntimo dos Esticos assimilados aos vivos. A coisa sendo por demais conhecida para com ela insistir demais: o mundo todo com sua organizao e a hierarquia de suas partes, sua evoluo que vai de uma conflagrao a outra um ser vivo. O mineral ele mesmo com a coeso de suas partes possui uma unidade anloga do ser vivo. Assim o dado a ser explicado a mudana do ser sempre anloga evoluo de um vivente. Qual a natureza desta unidade do vivente, unidade sem cessar mvel, unidade de um continente? Como as partes do ser so elas mesmas juntas de forma que persistam? Seria como no vivente, por uma fora interna que os retm, o que chamamos de [(consistncia, solidez)] nos minerais, natureza nas plantas ou de alma para os animais. Em todos os casos indispensvel que ela seja ligada ao ser para o qual ela constitui causa, como a vida que s existe no vivente. Ela determina a forma exterior do ser, seus limites, no maneira de um escultor que faz uma esttua, mas como um grmen que se desenvolve suas capacidades latentes at certo ponto do espao. A unidade da causa e do princpio se traduz na unidade do corpo que ela produz. Este princpio verdadeiro para todos da qual a unidade se prova, segundo Crsipo, pela unidade de seu princpio e por qualquer dos seres particulares. Mesmo nas matemticas, que parecem ser o triunfo do platonismo, as figuras so consideradas no mais como provenientes de uma definio que permitiu lhes construir, mas como a extenso no espao de uma fora interna que se desdobra: a reta a linha estendida at uma extremidade. A causa ento verdadeiramente a essncia do ser, no como um modelo ideal que o ser se esfora para imitar, mas a causa produtora que age nele, que vive nele e o faz viver, mais semelhante essncia particularis affirmativa de Espinosa, que a Idia platnica, segundo uma comparao de Octave Hamelin [1856-1907]. ...................................................................................................................................................DIGRESSO II [A filosofia de Espinosa, seu alcance e excelncia pode ser medida pelo absurdo de sua Excomunho da Sinagoga KHEREM, ele, homem pio, dedicado a construir algo que pudesse significar a alegria e a felicidade do filosofar: Assim disse o chefe do rabinato da Amsterdam: Pela deciso dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Espinosa... Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai assim maldito seja quando regressa... Ordenamos que ningum mantenha com ele comunicao oral ou escrita, que ningum lhe preste favor algum, que ningum permanea com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas (+ 400 metros), que ningum leia algo escrito ou transcrito por ele; qual foi seu crime aos 24 anos segundo a comunidade judaica de Amsterdam em 27 de junho de 1656? Ter construdo uma filosofia de desmistificao no somente da crena religiosa, mas dos princpios existenciais que a sustentava: prazer honra e riquezas]. A essncia particularis affirmativa aquela que admite a distino radical entre f e conhecimento da verdade: a definio s verdadeira e legtima do particular, procedendo pelo mtodo geomtrico. A f ns obedecemos verdade buscamos conhec-la. A f existe quando Deus transformado em asilo da ignorncia e vestido ridiculamente com as invenes mais delirantes dos homens. A f no consiste em nada alm de preconceitos,

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preconceitos que reduzem os homens ao estado de bestas, que cegam a razo, que afastam o esprito de si mesmo, que parecem inventadas para apagar toda a luz do entendimento. [(In: Espinosa de Andr Scala. Estao Liberdade)]. Espinosa era um marrano sobrevivente da Inquisio catlica e foi vtima da inquisio judaica. Sua viso poltica e ser sempre atual pois uma crtica da superstio em todas as suas formas: religiosa, poltica e filosfica[(Marilena Chau)]. Ele dizia que: Os homens no so supersticiosos porque possui uma idia confusa de Deus, eles tm uma idia confusa de Deus porque so supersticiosos. E uma apreciao muito atual depois que Bento XVI reintegrou aqueles que Joo Paulo II excomungou: As religies se reconciliam pelas costas daqueles que uma delas baniu, e seu nome era: Baruch = Bento. (Id.) Pobre da coincidncia nominal: Era uma vez uma coincidncia que tinha sado para dar um passeio com um pequeno acidente. Enquanto passeavam, encontraram uma explicao, to velha que j estava toda encurvada e encarquilhada, que mais se parecia com uma charada. Lewis Carroll. Sicsicsicsic].

[A filosofia de Espinosa essencialmente alegre. A alegria para ele a acumulao de poder afetar e ser afetado positivamente pelo outro e pelos acontecimentos no caminho da virtude, que implica a alegria e a busca da felicidade].

................................................................................................................................. Sabemos que Plato e Aristteles admitiam com facilidade uma explicao mecanicista da vida. Alfred Victor Espinas [1844-1922] mostrou nas invenes mecnicas que se faziam na Grcia aps o sculo VI A.C. a razo dessa representao mecnica da vida. Torna-se ainda mais surpreendente, apesar dessas impulses que os Esticos tenham retomado o dinamismo que conceberam, segundo a analogia da fora vital para todas as causas do universo. esta mistura ntima da causa com o corpo que a desenvolve e a manifesta que conduz negao de toda forma de ao incorporal e afirmao que devemos agora examinar: Tudo o que existe corpo. Para compreender esta espcie de materialismo, devemos nos lembrar que os Esticos, no mais que qualquer outro antigo, no possua a noo de inrcia da matria, postulado fundamental do materialismo de nossa poca. Por este postulado, toda fora no reside na matria que por emprstimo, pois ela lhe vem do exterior. Por esta razo ns temos dificuldade a no nos representar a fora como algo de imaterial j que no da essncia da matria. Nesse sentido o estoicismo seria to espiritualista que o dinamismo leibniziano que ele teria inclusive influenciado. Em sua longa carreira que ele marcou houve um momento em que o estoicismo, mesmo em sua fsica apresentou um aspecto eminentemente espiritual e favorvel ao surgimento do misticismo: encontramos o meio que pelo recolhimento sobre esta fora interna que constitui o fundo de nosso ser, de se ligar forma compreensiva do universo e sentir que vivemos nela. Tanto que, para todos os antigos, o corpo, como tal, ativo por essncia e nele mesmo. Da mesma forma que a afirmao que todo corpo quer dizer somente que a causa tal como acabamos de definir um corpo e o que sofre a ao desta causa [( )] tambm um corpo, o que no de forma alguma a recusa de reconhecimento que h no universo um princpio espontneo de atividade. ...................................................................................................................................................

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DIGRESSO III [Ns houvemos por bem traduzir a representao compreensiva phantasia katalptik de Zeno e Crsipo por com-preensiva, em nosso texto Notas de leitura sobre os incorpreos esticos no ensino de Lacan fazendo jogar uma polifonia que induz uma polissemia, no esprito, o que deduzi do trabalho de mile Brhier. O com a tem o sentido de estar junto, e estar junto com preenso, agarrando o objeto, estar com ele, nele, penetrando e se deixando penetrar por sua intimidade. Esta maneira de conhecimento a aproximao ntima da alma e de seu objeto, com a alma e objeto daquele que lhe apreende, por sua parte hegemnica, quer dizer, o corao no sentido estico].

.................................................................................................................................................. O incorpreo por natureza no pode afetar ou ser afetado, no sentido que os Esticos tomam a atividade e no sentido que falam de corpo, isto , substituindo uma concepo biolgica da causa por uma concepo matemtica, dotando o corpo ento de uma atividade interna. Houve certamente entre os Esticos uma crtica da atividade dos incorpreos. Encontramos certos princpios nas argumentaes de Cleante [( 331 a 232 A.C.)] e de Crsipo [( 281 a 205 A.C.)] para mostrar que a alma um corpo e isso foi conservado por Nemsios que se esfora para reabilitar contra a crtica a ao do incorpreo. No temos muito a sacar para complementar os argumentos conservados em grande abundncia pelos quais os Esticos buscava demonstrar que toda qualidade um corpo; pois suporia bem precisamente que o corpo o nico agente. Mas, devemos nos lembrar que, desde a poca de Plato uma vigorosa crtica da atividade, das Idias de Antstenes, [( 444 a 365 A.C.)] o verdadeiro precursor dos Esticos tanto para a moral quanto para a teoria do conhecimento. Antstenes tambm afirmava escandalizando Plato que tudo era corpo, e os Esticos nada mais fazem que sustentar e manter o seu princpio quando desafiava Plato que dizia: eles no ousaro sustentar que a prudncia e as virtudes nada sejam ou que sejam corpos, ao que os Esticos respondiam que justamente que as virtudes so corpos. Conhecemos os argumentos de Cleante contra a incorporeidade da alma: primeiramente a criana se parece com seus pais no somente por seu corpo, mas pela alma; ora a semelhana (o que parece) ou a dessemelhana (que no parece) pertence ao corpo, no aos incorpreos: a alma ento corpo. O segundo argumento o seguinte: Nenhum incorpreo afetado como corpo nem um corpo como um incorpreo; ora a alma padece por ser afetada pelo corpo, quando est doente ou lesado, e o corpo com a alma na ruborizao da vergonha ou palidez do medo. A estes dois argumentos, Crsipo acrescenta o seguinte: A morte a separao da alma e do corpo, mas nenhum incorpreo no separado de um corpo, pois os incorpreos no tocam o corpo. Evidentemente os trs princpios destes trs argumentos ultrapassam a questo da natureza da alma: eles so destinados a mostrar que em geral o incorpreo no pode ser agente ou paciente em relao ao corpo. O primeiro destes princpios o mais obscuro: , , ou como diz Tertuliano [(Septimius Florens Tertulianus 155 a 225 D.C.)]: a alma corpo, pois ela est sujeita semelhana e a dessemelhana. Crsipo nos d um exemplo de um incorpreo particular, a superfcie geomtrica, que poder ao menos precisar a dificuldade: Demcrito [( 460 a 370 A.C.)] formulou da seguinte maneira a questo do contnuo espacial: Se considerarmos em um cone, seces cnicas circulares vizinhas uma das outras, ou estas superfcies sero desiguais e ento a superfcie do cone no lisa e ter asperezas ou ento, sero iguais, e a figura ter ento a propriedade de um cilindro: no ser mais um cone.

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Segundo Plutarco, Crsipo resolvia a questo dizendo que os crculos no eram nem iguais nem desiguais. do ponto de vista de Plutarco um absurdo, pois impossvel de conceber o que no nem igual nem desigual. O absurdo no existiria mais (e a resposta seria mesmo singularmente profunda) se Crsipo quisesse dizer assim que as superfcies no existem. Ora, uma resposta assim que deriva de todas suas outras consideraes sobre o contnuo: ele mostra ento que nenhum limite existe na diviso do espao e que no podemos assim falar do nmero de partes contidas em grandezas diferentes, como o mundo e o dedo de um homem, pois no existe o mais nem o menos no infinito. da mesma maneira que ele mostra o no-ser do Universo como todo [( : isto , o mundo e o vazio que o envolve)], mostrando que ele no nem corpreo nem incorpreo, nem movente nem em repouso, etc. ento provvel que recusando ao incorpreo em geral ao mesmo tempo o predicado de semelhante e dessemelhante, Cleante queira dizer que ele no um ser. Resta ento buscar em que sentido ele entende esta dupla negao. Sabemos que introduzindo nas Ideais o semelhante e o dessemelhante, o mesmo e o outro que Plato pensou poder resolver as dificuldades sobre a relao do sujeito e do predicado, que foi destacado pelos filsofos de Megara*. H na lgica estica numerosos traos da doutrina dos megricos que lhes chagaram atravs Antstenes. ..................................................................................................................................................DIGRESSO IV [Os filsofos da Escola de Megara, fundada por Euclides, o Socrtico, [( 450 a 380 A.C.)] no o Alexandrino um sculo mais novo, exerceu grande influncia sobre os Esticos. Tornou-se clebre por seu argumento dominador, de Diodoro de Cronos que defendia a idia de que tudo que possvel ou ser verdadeiro, donde a necessidade do futuro. Foi chamada de escola erstica, ou seja, amantes e usurios da controvrsia].

................................................................................................................................................... Por outra parte Aristteles deu do semelhante a seguinte definio no captulo IX do Livro IV da Metafsica: So ditos semelhantes s coisas que tem uma propriedade idntica [( )] ou que tem mais propriedades idnticas que diferentes. Ora, as propriedades [()] so corpos para os Esticos; ento impossvel de pensar que uma propriedade em geral pertence aos incorpreos e conseqentemente falar de sua semelhana ou de sua dessemelhana. Se em nenhum lugar encontramos tal prova pelo menos ns temos as conseqncias no estoicismo. O nico incorpreo que subsistente ser no como em Plato a Idia substituda pela qualidade corporal, o vazio, a forma dos seres privados de qualquer ao ou diferena. A propriedade de um ser era em Plato a presena de uma Idia no ser. Os Esticos se esforaram para definir a propriedade de maneira a faz-la surgir da qualidade fundamental do estado, sem a interveno exterior de uma forma. da que deriva em alguns deles esta distino que nos foi dada por Simplcio [( 500 D.C.)] entre o e a . H trs espcies de : no primeiro sentido, a palavra indica tanto as propriedades passageiras (correr, caminhar) quanto s propriedades estveis. No segundo sentido, indica simplesmente os estados (, como o prudente). Num terceiro enfim que coincide inteiramente com aquele de , indica simplesmente as propriedades chegadas a seu estado de perfeio e totalmente permanentes ( ). H totalmente outra coisa que a distino simples de propriedades essenciais e acidentais: a diferena ntima de natureza entre a qualidade que uma realidade corprea e ativa que no tem necessidade de outra coisa para ser explicada, mas que se limita a uma noo de nica, e o do primeiro gnero, que no o primeiro de seus sentidos de ter um resultado sem realidade corprea. atravs desta teoria que no

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temos aqui de seguir aqui o desenvolvimento que eles (os Esticos) privam a Idia incorprea de toda eficcia e de toda propriedade, no encontrando a mais que o vazio absoluto do pensamento e do ser. O segundo princpio o seguinte: , . Este princpio suprimindo toda ao recproca entre o mundo dos corpos e o inteligvel, suprime a necessidade do incorpreo. Temos assim poucas informaes diretas sobre sua demonstrao com tambm do primeiro princpio. Mas, sobre o terceiro princpio, o de Crsipo, esclarece um pouco mostrando em quais condies poderamos conceber a ao dos incorpreos sobre o corpo. O incorpreo, diz Crsipo, no toca ( ) o corpo. Dar-se conta que a ao da alma sobre o corpo s tem lugar por contato, com efeito, tornar impossvel a ao da alma, suposta incorprea por natureza. Os Esticos parecem ter entrevisto aqui a dificuldade das relaes da alma e do corpo que constituir um problema para as escolas cartesianas. Eles resolveram de uma maneira simples admitindo a corporeidade da alma. Era de fato sua prpria concepo de causalidade que estava em jogo. Para que ela subsista, so necessrias duas condies que tornam impossvel toda causalidade ideal: primeiramente que as causas sejam da mesma substncia que os efeitos ( ) entendendo aqui por efeito a coisa efetuada; em seguida que haja uma concepo nica da causa. A primeira condio necessria, pois sem ela no concebemos esta penetrao ntima da fora e do corpo que constitui a causalidade biolgica. A segunda no menos: Simplcio indicando a de fato uma crtica aos Esticos. Ele pensa sem dvida na anlise aristotlica da causa, que teria despedaado esta digamos assim, em diferentes elementos que se ajuntariam para concorrerem para a produo do efeito. Nesta teoria, a causa incorprea, como ao da forma poderia subsistir ao lado da causa material. Que, havendo segundo os Esticos uma nica espcie de causa isso diz o contrrio. que para eles tratava-se de explicar a unidade do indivduo, tanto quanto a unidade do mundo tanto quanto a unidade de uma pedra ou de um animal e no mais esta unidade compreensiva de vrios indivduos que o geral. Assim a causa deve ser uma na intimidade do indivduo. Esta fora interior no pode de maneira alguma conciliar-se com a ao exterior de um ser imaterial. O nominalismo dos Esticos se acha ser menos um postulado da lgica que um resultado da fsica. Se eles consideram somente o real e o ser no indivduo, porque somente nele que se encontra e o centro vital do ser. Portanto de outro ponto de vista, eles fizeram mesmo em sua fsica e na teoria geral das causas um grande lugar para o incorpreo. Simplesmente que, no lugar de colocar o incorpreo na causa doe seres eles os colocam nos efeitos. isso que iremos agora examinar. II Os nicos seres verdadeiros que os Esticos reconhecem so primeiramente a causa ativa ( ), e o ser sobre o qual age esta causa ( ). Devemos ainda acrescentar que os elementos ativos do mundo, o fogo e o ar, do nascimento por transformaes dos elementos passivos; os trs ltimos da conflagrao universal so reabsorvidos eles mesmos no fogo, se bem que o ser primordial o fogo, a razo seminal do mundo. Os outros seres so produzidos por uma menor tenso, uma diminuio do fogo primordial. Eles no so nem efeito nem parte dos seres primitivos, mas antes estados de tenses diferentes desse ser. Entre estes seres ativos encontram-se as qualidades dos corpos; isto so os ares ou sopros () pelos quais a ao se mostra em seus efeitos. H primeiramente as qualidades que pertencem aos elementos: o quente, o frio, o seco o mido, e as outras qualidades sensveis como as cores e os sons. Devemos ter claro que a enumerao destes seres, que so todos seres da natureza, no nos distancia das causas e dos princpios. O mundo dos Esticos composto de

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princpios espontneos, trabalhando em si mesmo a vida e atividade e nenhum deles no pode ser dito propriamente como efeito de outro. A relao de causa e efeito entre dois seres totalmente ausente na doutrina Estica. Se h relao ela de outro gnero: estes princpios so antes momentos ou aspectos da existncia de um nico e mesmo ser, o fogo [fogo criativo ou artstico] do qual a histria a prpria histria do mundo. Os seres reais podem, no entanto entrarem em relao uns com os outros e por meio desta relao se modificar. Eles no so, diz Clemente de Alexandria [(Titus Flvius Clemens 150 a 215 D. C.)] ao expor a teoria Estica, causas uns dos outros, mas causas de algumas coisas para outros. Estas modificaes so elas realidades? Substncias ou qualidades? Nenhuma delas: um corpo no pode dar a outro corpo novas propriedades. Sabemos de que maneira paradoxal os Esticos tiveram de se representar as relaes entre os corpos para evitar esta produo de qualidades uma por outras: eles admitiam uma mistura ( ou ) dos corpos que se penetravam em suas intimidades e tomavam uma extenso comum. Quando o fogo esquenta o ferro avermelha, por exemplo, no podemos dizer que o fogo deu ao ferro uma nova qualidade, mas que o fogo penetrou no ferro para coexistir com ele em todas suas partes. As modificaes que falamos so bem diferentes: no so realidades novas, nem propriedades, mas simplesmente atributos (). Assim quando o escalpo corta a carne, o primeiro corpo produz no segundo no uma propriedade, mas um novo atributo, este de ser cortado. O atributo propriamente falando no designa nenhuma qualidade real; o branco e o preto, por exemplo, no so atributos, nem em geral nenhum epteto. O atributo sempre ao contrrio exprimido por um verbo, o que quer dizer que ele no um ser, mas uma maneira de ser, o que os Esticos chamam nas suas classificaes das categorias de um . Esta maneira de ser de certa forma se encontra no limite, na superfcie do ser e ela no poder mudar sua natureza: ela no verdadeiramente dizendo, nem ativa nem passiva, pois a passividade suporia uma natureza corprea que sofreria uma ao. Ela puramente e simplesmente um resultado, um efeito que no deve ser classificado entre os seres. Estes resultados da ao dos seres que os Esticos foram talvez os primeiros a destacarem sob esta forma o que hoje chamaramos de fatos ou acontecimentos: conceito bastardo que no nem de um ser, nem de nenhuma de suas propriedades, mas o que dito ou afirmado do ser. este carter singular do fato [ou acontecimento] que os Esticos trouxeram luz dizendo que ele era incorpreo, eles excluam assim os seres reais, mas, no entanto, os admitindo em certa medida no esprito. Todo corpo se torna causa para outro corpo (quando age sobre ele) de alguma coisa incorprea. A importncia desta idia para ele se deixa ver pela preocupao que ele tem de exprimir seu efeito de linguagem por um verbo. Assim no devemos dizer que a hipocondria causa da febre, mas causa o fato que faz com que a febre ocorra, e todos os exemplos que seguem as causas jamais so fatos, mas sempre seres expressos por um substantivo: as pedras, o mestre, etc. e os efeitos: ser estvel, fazer progredir, so sempre expressos por verbos. O fato incorpreo est de certa maneira no limite das aes dos corpos. A forma de um ser vivente predeterminada no grmen que se desenvolve e cresce. Mas esta forma exterior no constitui uma parte de sua essncia, ela subordinada como um resultado da ao interna que se estende no espao, e esta, a ao, no determinada pela condio de consumar seu limite. Da mesma maneira que a ao de um corpo, sua fora interna no se esgota nos efeitos que produz: seus efeitos no so um gasto para si e no afeta em nada seu ser. O ato de cortar no acrescenta nada natureza e essncia do escalpo. Os Esticos colocam a fora e em conseqncia toda realidade no nos acontecimentos, mas nos procedimentos mltiplos e diversos que consuma o ser, na unidade que mantm suas partes.

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Num sentido, eles esto muito longe, o mais possvel de uma concepo como as de Hume e Stuart Mill que reduzem o universo a fatos e acontecimentos. Num outro sentido ento, eles tornam possvel tal concepo, separando radicalmente, o que ningum fez antes deles, dois planos dos seres: de uma parte um ser profundo e real, a fora, e de outra parte, o plano dos fatos, que se fazem na superfcie do ser, e que constitui uma multiplicidade sem laos e sem fim de seres incorpreos. Ns iremos mostrar agora que estes incorpreos constituem a matria de toda a lgica Estica, se substituindo assim numa lgica para os gneros e para as espcies da lgica de Aristteles. Foi necessrio de mostrar primeiramente na fsica as razes dessa revoluo da lgica.

CAPTULO SEGUNDOO INCORPREO NA LGICA E A TEORIA DOS EXPRIMVEIS. I A realidade lgica, o elemento primordial da lgica aristotlica o conceito. Este elemento para os Esticos completamente outra coisa, no nem a representao () que a modificao da alma corprea por um corpo exterior, nem a noo () que se formou na alma sob a ao de experincias semelhantes. algo totalmente novo que os Esticos chamam de exprimvel ().

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Vejamos uma dificuldade que segundo Sexto Emprico, indica bem a teoria dos exprimveis e no impossvel que ela no tenha se originado justamente desta dificuldade. Um Grego e um Brbaro escutam a mesma palavra, eles tm a representao da coisa designada pela palavra. O Grego, no entanto ir compreender, mas o Brbaro no. Qual a outra realidade existiria ento se o som e o objeto de um e outro lado? Nenhum. O objeto e o som continuam o mesmo. Mas o objeto para o Grego tem, no diria uma propriedade (pois a essncia continua a mesma nos dois casos), mas um atributo que ele no tem para o Brbaro, ou seja, o de ser significado pela palavra. o atributo do objeto que os Esticos chamam um exprimvel. O objeto significado ( ) difere, segundo o texto de Sexto, do objeto ( ), precisamente pelo atributo que afirmado sem nada mudar da natureza. O foi algo de to novo que um intrprete de Aristteles como Ammonios [(Ammonios Saccas fim do II sculo comeo do III D.C., mestre de Plotino)], teve enorme dificuldade para inclu-lo na classificao peripattica. Para Aristteles, a coisa significada pela palavra era, disse Ammonios, o pensamento (), e, pelo pensamento o objeto (). Os Esticos, acrescenta Ammonios, concebem ainda outra coisa intermediria entre o pensamento e a coisa, que eles chamam de exprimveis. Ammonios no aprova este acrscimo, e, com efeito, a teoria de Aristteles basta a si mesma se o pensamento nele mesmo o objeto designado. Mas, para os Esticos isto no bem assim. Para eles o pensamento era um corpo e o som tambm era um corpo. Um corpo tem sua natureza prpria, independente, sua unidade. O fato de ser significado por uma palavra deve ento lhe ser acrescentado como atributo incorpreo, que no o muda em nada. Esta teoria ento suprimia toda relao intrnseca entre a palavra e a coisa: podemos a sem dvida trazer a viso de Crsipo sobre a anfibologia. Por esta, com efeito, o lao entre a palavra e o pensamento se torna extremamente sutil de forma que um mesmo nome pode significar vrias coisas. ...................................................................................................................................................DIGRESSO V [Aqui podemos inserir uma alegoria que nos remete ao teorema do paralelogramo, e a vrias transformaes topolgicas, ou seja, uma figura, um conceito, um objeto terico e sua extenso. A anfibologia de Crsipo a maneira de falar do equvoco seja ele por uma polissemia (vrias significaes), ou polifonia (vrios sons), ou ainda literal como nas palavras conserto e concerto, cerrado, serrado etc. cujo som o mesmo, a escrita diferente, e a significao e o sentido completamente outro. A topologia surge com Leibniz para dar conta de tudo isso de maneira matemtica: a relao da natureza, da propriedade e do atributo, ao nvel da linguagem. A revoluo lgica dos esticos foi a de postular o atributo como incorpreo verbal, num tempo infinitivo paradoxal].

.................................................................................................................................................. Se a teoria dos exprimveis no tivesse outro alcance, no compreenderamos o papel que ela teve na lgica. Todos os elementos que servem lgica, os atributos, os julgamentos, os laos entre julgamentos so todos exprimveis (). evidente numa primeira abordagem que estes elementos no podero ser reduzidos s coisas significadas por uma palavra: o atributo (), por exemplo, indica o que afirmado de um ser ou de uma propriedade. No encontramos em parte alguma esta idia qual seria difcil de dar um sentido plausvel, pelo fato de que o fato de ser afirmado idntico ao fato de ser significado, que o um . De uma maneira geral, se o significado um exprimvel, no vemos de forma alguma que todo exprimvel seja um significado. Esta interpretao errnea do exprimvel , no entanto sustentada por Arnim [editor Alemo dos Esticos, em 1905, obras que Brhier consulta] na sua edio consagrada aos antigos Esticos intitulando os fragmentos relativos lgica de: . Este erro decorre do que foi feito como uma fuso ntima entre o exprimvel e a linguagem. Segundo Sexto todo exprimvel deve ser exprimido, isto enunciado por um termo significativo do pensamento. Mas, pelo fato de ser exprimido () que um

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predicado de exprimvel no deve de maneira alguma ser confundido com o fato de ser significado ( ) que ele mesmo, por sua vez, um exprimvel e um predicado do objeto. Concluiu-se muito rapidamente que todo exprimvel deveria ser designado por palavras, e que toda sua natureza consistia em ser designado ou significado por palavras. Um erro inverso, mas de mesma natureza foi cometido por um critico antigo do estoicismo, Ammonios, que consiste em identificar os exprimveis com as palavras da linguagem. Este erro, segundo seus termos, se apia inclusive na exposio de Sexto ou numa exposio muito anloga. Os pensamentos, diz Ammonios, podem ser proferidos (). Mas ns no proferimos as palavras, elas so [da ordem dos] exprimveis. Aqui o exprimvel , confundido com o exprimido e proferido (, e, ) isto , a palavra. Temos ento de pesquisar o que realmente o exprimvel. ..................................................................................................................................................DIGRESSO VI [O erro simplificador apontado por Brhier seria grave em suas conseqncias, pois eliminaria por completo a metfora e reduziria a linguagem a sua acepo puramente lxica como de um dicionrio desfazendo seu carter inventivo e criativo da polifonia e por ela, sem nenhum referente de realidade criao de uma polissemia, maneira anloga ao teorema do paralelogramo, e que encontra uma feio consumada com A tica de Espinosa, e seu mtodo geomtrico. Umberto Eco faz em seu livro SEMITICA E FILOSOFIA DA LINGUAGEM uma srie de comentrios sobre os Esticos, e em particular concernindo sua semitica que reproduzimos, pois atualiza o debate: Tambm os Esticos (tanto quanto se pode reconstituir de sua articuladssima semitica) parecem no unir claramente doutrina da linguagem e doutrina dos signos. Quanto linguagem verbal, distinguem com clareza entre expresso, contedo e referente. Parecem reproduzir a trade j sugerida por Plato e Aristteles, trabalham-na com uma figura terica que falta at por muitos dos seus repetidores contemporneos. (...) Da expresso eles s aprofundam a mltipla articulao, mas distinguem a simples voz emitida pela laringe e os msculos articulatrios, que ainda no som articulado, o elemento lingstico articulado e a verdadeira palavra, que apenas subsiste quando relacionada e relacionvel com um contedo. O mesmo dizer saussurianamente que o signo lingstico uma entidade de duas faces: Agostinho, na esteira estica, chamar de dictio ao verbum vocis que no apenas foris sonat, mas percebido e reconhecido enquanto relacionado com um verbum mentis ou cordis. Para os Esticos, o risco em que incorrem os brbaros perceber a voz fsica, mas no a reconhecer como palavra: no porque no tenham na mente uma idia correspondente, mas porque no conhecem a regra de correlao. Nisto os Esticos vo muito mais longe que seus predecessores e estabelecem a natureza provisriae instvel da funo sgnica (o mesmo contedo pode fazer palavra com uma expresso de uma lngua diferente): talvez porque, como sugere Pohlenz, todos de origem fencia, so os primeiros intelectuais no gregos que trabalham em terra grega e so levados a pensar e falar numa lngua diferente da nativa. So os primeiros a superar esse etnocentrismo lingstico que levara Aristteles a identificar categorias lgicas universais atravs dos termos de uma lngua particular. Umberto Eco]. [Cf. Digenes de Babilnia: A arte da voz, in Les Stociens, da La Pliade]...............................................................................................................................................................

O lugar do exprimvel no sistema dos objetos representados no esprito muito difcil de determinar. Por um lado Sexto, confirmado por Diocls nos diz que, o que est na representao racional o exprimvel. Mas, a representao ordinria se produz pelo contato de um corpo que deixa sua marca na parte hegemnica da alma, mas ao contrrio, pois parece que existe mais espontaneidade na representao racional. o pensamento que a constri, ajuntando, aumentando, diminuindo os objetos sensveis que lhe so dados no imediato, os objetos no sendo aqui causa ativa, mas a razo. Diocls enumera assim os diferentes procedimentos pelos quais ele age: a semelhana, a analogia, o deslocamento, a contradio, a transio, a privao. Podemos dizer com Sexto que no caso da alma tem uma representao a propsito dos objetos e no por eles. O seria ento idntico segundo a este primeiro testemunho s noes derivadas da experincia pela razo. Mas, se

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considerarmos o contedo da lgica esta idia no fcil de ser sustentada. Com efeito, em nenhuma parte no vemos interferir noes desse gnero, mesmo sendo o exprimvel seu elemento prprio. Mais ainda, segundo mesmo os textos de Sexto e de Diocls contradiz a interpretao que poderamos, perece-nos, sacar legitimamente: Nos exprimveis, dizem eles, uns so incompletos e outros completos. Os exprimveis incompletos so os atributos dos julgamentos, enunciados pelos verbos sem sujeito: escrever, falar. Os incompletos, considerando os mais simples so os verbos acompanhados de seus sujeitos. Que sejam todos exprimveis, no temos porque duvidar, ser em vo que buscaremos a objetos de representao racionais, noes que acabamos de definir. Os exprimveis se limitam aos atributos s vezes sem sujeito ou s vezes acompanhados de sujeito. Diramos que as noes se encontram precisamente no sujeito dos julgamentos? No vemos isso j que os Esticos admitiram na sua lgica os mesmo elementos da lgica hoje chamada de moderna que so os chamados singulares para os quais o sujeito um indivduo. Na classificao dos julgamentos, julgamentos simples de Sexto, entre as trs espcies de julgamentos, os julgamentos definidos tem por sujeitos um indivduo que ns indicamos e os indefinidos um ser que no indicamos (um homem), mas que continua a ser um indivduo. Verdadeiramente por outras fontes, os exprimveis so citados no como idnticos representao racional, mas como uma espcie dentre elas. O primeiro texto a classificao das noes de Diocls que j citamos, no qual os exprimveis so citados como lugar, como um exemplo de noes obtidas seguindo uma transio ( ). Esta transio implica que o objeto da representao composto e que o pensamento vai de uma parte outra. Se interrogarmos em quais exprimveis este carter aplicvel veremos que no corresponde a todos os casos. Nem nos exprimveis incompletos, nem nos julgamentos simples ns os encontraremos. Ao contrrio, ns os encontramos nos julgamentos hipotticos e raciocnios na passagem de princpio conseqncias que unicamente elas podem explicar a palavra metabase. Ento no exemplo que nos d Diocls ele no quer falar de todos os exprimveis, nem de enfi-los nesta categoria. Em outro texto de Sexto que ope o representado () sensvel ao representado racional, ficamos em dvida se os exprimveis incorpreos que cita numa segunda definio so dados com simples exemplos entre outros ou como o conjunto de todos estes representados. Mas, a oposio dos corpos, presente que so certamente em todos os representados sensveis aos incorpreos, nos faria pender para a segunda alternativa. Apesar destas dificuldades, h razes srias para no confundir o exprimvel com qualquer outro objeto da razo. Diocls classificando as representaes em sensveis e no sensveis distingue nos segundos que ocorrem pelo pensamento esta dos incorpreos e das outras coisas percebidas pela razo. Como os exprimveis devem seguramente ser postos entre os incorpreos, h ainda outros objetos da razo que no so incorpreos: e com efeito as noes racionais no so de forma alguma incorpreos. Elas se originam e so compostas dos traos reais que os corpos sensveis deixam na parte hegemnica da alma. H a uma fisiologia da noo que os Esticos no distinguem em nada da psicologia. Quando Zeno diz que as noes no so nem substncias nem qualidades, parece que ele recusa que haja um corpo, j que os corpos se encontram somente nas categorias de substncias e qualidades. Mas podemos observar na seqncia do texto que deixa entrever que ele se preocupa menos com a substncia nela mesma que sua relao com o objeto que ela representa: nesse sentido que elas so como substncias e como qualidades, ou seja, semelhantes aos corpos que deixaram a sua marca o que no impede que no sejam em si mesmas de natureza corprea: como, sem isso, ento poderamos dizer que a cincia que contm tais objetos de representao um corpo? A arte e a cincia se sustentam sempre sobre a conservao de marcas na memria.

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Compreenderemos assim a distino que se deve fazer entre o exprimvel que incorpreo e os outros objetos da razo que so corpreos. Vemos tambm que Sexto ao qualificar de exprimvel o objeto da representao racional em geral, tomou a espcie pelo gnero. Isto muito bem explicvel, j que, na passagem da questo, h a intenso de falar somente dos objetos da lgica e que estes objetos se reduzem aos exprimveis. Devemos ento primeiramente indicar estas falsas concepes de exprimvel, possveis graas carncia e obscuridade dos textos, para estabelecer o verdadeiro. Fora as substncias e as propriedades que, todas duas, so corpos, no existe nada na natureza. Mas, ns vimos que sua fora interna se manifesta na superfcie e estes aspectos exteriores no so nem corpos, nem partes de corpos, mas atributos () incorpreos. O primeiro gnero de exprimveis que ns encontramos o exprimvel incompleto idntico a este atributo do corpo. Deve-se para bem compreend-los se desfazer dessa idia de que o atributo de uma coisa algo existente fisicamente (o que existe a coisa mesma), e da outra idia de que o atributo sob seu aspecto lgico, como membro de uma proposio alguma coisa existente no pensamento. Com esta condio poderemos conceber que o atributo lgico e o atributo real que, na verdade, so todos dois incorpreos e inexistentes coincidem inteiramente. Os atributos dos seres so exprimidos no por eptetos que indicam as propriedades, mas por verbos que indicam os atos (). Se considerarmos agora a natureza da proposio () na dialtica, encontraremos uma soluo do problema da atribuio que faz coincidir inteiramente o atributo lgico da proposio com o atributo tal como acabamos de definir. Este problema teria sido um das maiores preocupaes das escolas que teriam seguido Scrates, chegou-se a dizer que foi pra resolver as dificuldades que Plato inventou a teoria das idias. Se, em uma proposio, o sujeito e o predicado so considerados como conceitos de mesma natureza e particularmente de conceitos indicando classes de objetos, teremos grande dificuldade em compreender a natureza do lao indicado pela cpula. Se forem de classes diferentes, cada um existe separado, fora do outro e no podem se ligar. Se elas so idnticas seremos reduzidos a julgamentos de identidade. A ligao [lao] que Plato encontrou e esta da incluso que Aristteles utilizava preferencialmente era uma soluo possvel para estas dificuldades. Mas, tais solues, que, para os modernos, s concernem os pensamentos, teriam, para os antigos um alcance metafsico, que no podamos desmembrar. Os termos do julgamento designam, com efeito, no somente pensamentos, mas seres reais. Ora se a realidade se concentra como nos Esticos no indivduo, tal teoria inadmissvel. A partir da sabemos que cada indivduo no somente possui, mas tambm uma idia particular ( ) irredutvel a qualquer outra. Para que estas realidades participem uma da outra ou que seja includa uma na outra, seria necessrio que dois indivduos fossem confundidos um com o outro, ou que um mesmo indivduo pudesse ter nele mais que uma qualidade prpria, o que absurdo. Duas realidades no podem coincidir. Restaria uma soluo, seria de abordar de maneira diferente a natureza do predicado. Sabemos que certos megricos recusavam enunciar os julgamentos sob sua forma habitual, isto , por meios da cpula . No devemos dizer, pensavam eles: A rvore verde, mas A rvore verdeja. Como isso era uma soluo de um problema de predicao, o que Esticos nos apresenta. Quando negligenciamos a cpula e exprimimos o sujeito por um verbo onde o atributo epteto no posto em evidncia, o atributo, considerado inteiramente como verbo, a parece ento no mais como exprimindo um conceito (objeto ou classe de objetos), mas somente um fato ou um acontecimento. A partir de ento a proposio no exige mais a penetrao recproca de dois objetos, impenetrveis por natureza, ela s faz exprimir certo aspecto de um objeto enquanto ele cumpre ou sofre uma ao. Este aspecto no de uma natureza real, um ser que penetra no

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objeto, mas o ato que o resultado mesmo de sua atividade ou da atividade de outro objeto sobre ele. O contedo da proposio, o que significado por ela jamais ser um objeto nem uma relao de objetos. Decorre da que os Esticos somente aceitaro as proposies que contenham um verbo: no verbo se misturam (confundem) para eles o predicado e a cpula. Veremos assim todos os julgamentos que eles excluem, todos aqueles nos quais o atributo indica uma propriedade real do sujeito, e que indiquem uma relao entre conceitos. O que se exprime no julgamento no ser uma propriedade como, por exemplo: um corpo quente, mas um acontecimento como: um corpo se esquenta. Na classificao dos atributos, eles no distinguem como Aristteles pelo modo de ligao com o sujeito, de mais ou menos essencial ou acidental: o que eles querem a distinguir so as diversas maneiras pela quais o acontecimento possa se exprimir. Assim a classificao estica segue de perto e mesmo idntica classificao gramatical dos verbos. distinto primeiramente os , verbos pessoais indicando a ao de um sujeito (Scrates passeia) e os , verbos impessoais ( ). Por outro lado distinguimos os predicados diretos, compostos de um verbo com um complemento que sofre a ao, os predicados passivos, que so os verbos passivos, e com eles os predicados refletidos (verbos refletidos), enfim aquele que no so nem diretos nem passivos (como ). No devemos ver na substituio desta forma verbal pela cpula distinta uma simples subtilidade. Os Esticos querem indicar assim que eles no aceitam outras proposies que as proposies de fato. Sem dvida que o fato pode ser necessrio ou contingente, verdadeiro ou falso, possvel ou impossvel, e assim, as diferentes modalidades so ainda admitidas. Mas , podemos ver, num sentido bem diferente daquele de uma lgica de conceitos onde estas modalidades repousam sobre a ligao essencial ou acidental do sujeito com o atributo. Aqui ns no temos mais que um gnero de ligao, uma ligao que, no sentido da lgica de Aristteles seria acidental (e que os Esticos continuam inclusive a design-la pela palavra ), ou seja, a do acontecimento com seu sujeito. O problema da atribuio ento resolvido retirando dos predicados toda realidade verdadeira. O predicado no nem um indivduo, nem um conceito, ele incorpreo e somente existe no simples pensamento. Seria v nossa busca para saber em que o predicado lgico da proposio poderia diferir dos atributos das coisas, consideradas como resultado de sua ao. Todos dois so designados pela mesma palavra , e encontram sua expresso nos verbos, todos dois so incorpreos e irreais. Pelo lado do real, a realidade do ato tem por assim dizer, sido atenuada em proveito do ser permanente que a produz: pelo lado da lgica, o atributo foi privado de sua dignidade de conceito objeto de pensamento, por no mais conter seno um fato transitrio e acidental. Em sua irrealidade e por ela, o atributo lgico e o atributo das coisas podem ento coincidir. As cincias experimentais e as filosofias cticas ou crticas, num acordo entre elas, nos acostumaram a ter no fato ou acontecimento a verdadeira realidade objetiva e a considerar um objeto como um resultado e uma sntese de um grande nmero de fatos, no lugar de compreender como sujeito da atribuio destes fatos. O centro do real foi por assim dizer deslocado. esta circunstncia que pode tornar a doutrina estica bastante difcil de conceber. Os fatos so os nicos objetos de experincia e o pensamento que busca observ-los e a descobrir suas ligaes permanece estranha a eles. Os Esticos ao contrrio, admitindo que os fatos fossem incorpreos e que s existiam no pensamento, poderia assim fazer, no diremos que faria o objeto, mas a matria de sua dialtica. Com o carter comum no fundo, de todas as lgicas antigas so realistas: jamais os antigos acreditaram que poderamos ter o pensamento de alguma coisa que no existe. Os Esticos, apesar das aparncias, permaneceram fiis a estas tendncias: se o pensamento dialtico no as acolhe mais, na proposio, as realidades, o atributo pensado no em nada

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diferente ao atributo objetivo (lhe idntico). Recusando ao pensamento a realidade tal como a concebem, s poderiam recus-la a seu objeto. Os atributos no so que certa espcie de exprimveis. So os exprimveis incompletos, que se transformar em proposies ou em exprimveis completos respondendo a seguinte questo: Quem o sujeito da ao?. So proposies simples: os outros exprimveis completos sero as proposies compostas que obtemos por uma combinao de proposies simples, que podemos ter um exemplo hoje na proposio hipottica (a dos Esticos). Enfim estas proposies se combinam em raciocnios que no so nunca chamados de exprimveis, mas que so mais uma seguida de exprimveis. O essencial do , pois o atributo ou o acontecimento, seja com o sujeito, seja sem sujeito. interessante de ver que, na exposio de Porfrio, [(234 a 305 D.C.)] a proposio ele mesma chamada de atributo (). Simplesmente um atributo completo (). Toda ateno do dialtico recai sobre o atributo exprimvel. Nos exemplos mais comuns para a dialtica estica: dia , etc. as proposies exprimem fatos sem nenhum sujeito de inerncia. O exprimvel no de qualquer espcie de representao racional, mas unicamente esta do fato ou do acontecimento. Se forma como tal, a matria de toda lgica. Iremos agora tentar de seguir os efeitos desta concepo na teoria do julgamento e do raciocnio. ...................................................................................................................................................DIGRESSO VII [Retomo aqui uma DIGRESSO do meu texto Notas de leitura sobre os incorpreos esticos no ensino de Lacan, pra acentuar a genialidade da teoria estica da linguagem. Digenes Larcio nos d uma aula de lingstica moderna em: Vida e opinies dos filsofos, Livro VII. Eis o que diz Crsipo citado por Ccero Sobre o destino: Se existe um movimento sem causa, toda enunciao que os dialticos chamam de axioma, no seria verdadeira nem falsa; pois aquilo que no tiver causa eficiente no ser verdadeiro nem falso; ora toda enunciao verdadeira ou falsa; portanto o movimento sem causa no existe. (...) Diz Frdrique Ildefonse: ... os esticos propunham paradoxalmente uma teoria da linguagem to sistematicamente elaborada que ela se tornou destacvel de seu lugar filosfico original: esse objetivo iria servir em pouco tempo, de maneira lateral ao aprimoramento de uma nova gramtica. (Cf. La naissance da la grammaire dans lAntiquit grecque F. Ildefonse) in OS ESTICOS de Frderique Ildefonse, p. 124/125].

................................................................................................................................................... II Ns no temos aqui de recomear a exposio sobre a lgica estica, analisada com os desenvolvimentos convenientes nos trabalhos de Brochard e de Hamelin. [(Autores queescreveram com excelncia respectivamente: A lgica dos Esticos em 1902; Sobre a lgica dos Esticos, tambm em 1902)].

Talvez pudssemos a partir de ento, tomando como guia esta concepo do exprimvel incorpreo, esclarecer alguns pontos desta lgica. Possidnio d da dialtica a seguinte definio: a cincia das coisas verdadeiras e falsas e daquelas que no so nem uma nem outra. Esta definio, na medida em que ela difere desta de Crsipo: a cincia que concerne s coisas significantes e significadas, tem por objeto somente de distanciar da dialtica a primeira parte, o estudo da linguagem, e de tornar preciso, mas diminuindo a extenso, o segundo objeto. Pois o designando tudo o que significado por uma palavra mais extensa que a verdade e a falsidade que somente so aplicveis num julgamento. Mas a dialtica assim limitada por Possidnio corresponderia em Crsipo uma nica parte, a teoria do julgamento e do raciocnio. A dialtica como virtude e como cincia, uma realidade, quer dizer, um corpo, ela parece ser idntica verdade que definida quase nos mesmos termos que ela: a cincia

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indicadora de todas as coisas verdadeiras. Mas, seus objetos, isto , o verdadeiro e o falso no so de forma alguma realidades. O julgamento s ele, com efeito, verdadeiro: ora o julgamento um exprimvel, e o exprimvel incorpreo. Estamos ento desde o incio no no-ser. As coisas verdadeiras e por analogia, as falsas, isto nos julgamentos simples ou composto no so nada. Diramos que os julgamentos exprimem qualquer coisa, uma realidade, e esta realidade , por seu intermedirio, o objeto da dialtica? Isto seria desconhecer completamente o pensamento dos Esticos. A lgica no vai mais longe que o verdadeiro e o falso. Diramos ento, se a proposio no significa uma realidade ela se reduz s palavras. De forma alguma; as palavras so inclusive algo de corpreo e no a proposio. Seria necessrio que, o no-ser estudado pela lgica no seja nem as palavras nem as coisas. Este no-ser o atributo das coisas designadas pelo exprimvel, e que s ele pode ser verdadeiro ou falso: verdadeiro se pertence coisa, falso se no pertence. Esta definio da dialtica toma seu sentido por sua oposio a Aristteles. Ele tinha dado por objetivo da cincia no o verdadeiro, mas o geral e o necessrio. Uma proposio pode ser verdadeira, teria ele dito, e podemos sacar como tal ao conhec-la cientificamente, isto , por uma demonstrao. Os Esticos tiraram sarro desta observao ao mostrar como no necessrio de ser sbio para conhecer o verdadeiro, pois este conhecimento no necessariamente a cincia. Mas, por outro lado eles no podiam substituir ao verdadeiro o necessrio no sentido peripattico, isto , fundado sobre uma incluso de conceitos, pois um fato como tal, somente pode ser verdadeiro ou falso sem nunca ter uma necessidade anloga necessidade matemtica. Assim eles definem o necessrio como uma espcie de verdadeiro, o que sempre verdadeiro ( ). O necessrio ento a universalidade de um fato, ou como diziam eles, de uma atribuio que permanece presente todo tempo. Mas o verdadeiro no alcana a permanncia, e muitas vezes muda por causa da mudana perptua dos acontecimentos. esta natureza da proposio que segundo Alexandre de Afrodsio [(comeo do II sculo ao comeo do III Chamado de o segundo Aristteles pela excelncia de seus comentrios)] permitia aos Esticos conciliar a contingncia dos acontecimentos com a ordem do destino. Vejamos um argumento que nos parece muito especial, a proposio: Haver amanh uma batalha naval verdadeiro se tal acontecimento determinado pelo destino. Mas, ele no necessrio: pois ele cessar de ser verdadeiro depois de amanh, por exemplo. A razo profunda desta subtilidade, que o necessrio concebido somente como um fato ou um acontecimento permanente, ao passo que o verdadeiro muitas vezes um acontecimento passageiro e fugidio, que pode sempre se tornar falso. Alguns Esticos pareciam preocupados da relao da proposio com o tempo. Admitiam quedas () das proposies verdadeiras nas falsas. Este caso particular acrescido da enumerao das diversas modalidades de uma proposio (possvel, necessria e razovel) mostra bem claramente que a proposio tratada e descrita como um acontecimento possvel, necessrio, ou passageiro. Assim o verdadeiro e o falso, objetos da dialtica, so julgamentos simples, idnticos no em sua forma verbal, mas em sua natureza (isto , no que exprimem) para os acontecimentos. Mas estes julgamentos simples so enlaados entre eles nos julgamentos complexos, por meio de conjunes diversas. A classificao destas proposies no segue a anlise gramatical, e parece primeiramente ter mais que um alcance lingstico. Existem vrias forma de conjunes, a conjuno por conexo (), como ; a conjuno copulativa e (); a conjuno disjuntiva (); a conjuno que marca a causa () e que no tem a nenhum nome especial, a que marca mais ou menos. H tantas proposies complexas quanto h de conjunes: a proposio hipottica (), conjuntiva, causal, marcando o mais e o menos. Desde a antiguidade e sobre esta questo, Claudio Galeno [(Klaudios Galnos 129 a 210 D. C.)] criticou a escola de Crsipo por ter se ligado mais linguagem que os fatos. Em uma proposio conjuntiva,

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por exemplo, (exemplo de Galeno), no temos nenhum meio para distinguir pela simples forma verbal se os fatos afirmados em cada membro so ligados ou no por um lao de conseqncia: ante de quererem distinguir duas espcies de conjuntivas, os alunos de Crsipo os confunde (misturam) em uma nica. Se os Esticos se expunham a esta crtica, que, par seu ponto de partida eles foram postos na impossibilidade de proceder de outra maneira seno pela anlise gramatical. Cada termo de uma proposio complexe exprime um fato (ou: um exprimvel). A causa de cada um destes fatos um corpo ou vrios corpos, conhecidos pelos sentidos. Mas a ligao entre estes fatos, ela mesma no objeto de sensaes. Ela to irreal quanto aos fatos eles mesmos. Ela tambm um exprimvel. Quando um Estico fala, a propsito de acontecimentos, o conseqente e o antecedente, as causas e efeitos, ele no busca, tanto quanto Hume [(David, 1711 a 1776] a dar aos fatos eles mesmos, incorpreos e inativos, uma fora interna que os ligaria um ao outro, que faria que um fosse capaz de produzir o outro. Se pudermos empregar neste caso as expresses de conseqncias e causas so unicamente por analogia, como j advertimos vrias vezes: Os Esticos, diz Clemente de Alexandria, dizem que o corpo causa no sentido prprio, mas incorprea, e de uma forma metafrica e maneira de uma causa. O incorpreo que se trata aqui seguramente o exprimvel ou julgamento como nos mostra o testemunho de Diocls: na proposio dita causas () como: j que faz dia est claro, o primeiro termo dito no a causa do segundo, mas como causa do segundo. [[[Trata-se de causa ou de uma implicao?]]]. Esta espcie de causalidade irreal no poder encontrar seu ponto de apoio e seu objeto no mundo exterior, mas somente numa expresso da linguagem. unicamente a linguagem com suas conjunes que nos permite de exprimir os diferentes modos de ligaes que no respondem a nada de real, e por isso que no somente podemos, mas devemos nos limitar anlise da linguagem. Segue-se que esta ligao de fatos puramente arbitrria e que suficiente de ligar qualquer termo por conjunes para se obter um julgamento aceitvel. a mesmo que para os Esticos que se situa a principal dificuldade: os quadros da ligao por um lado so como categorias vazias, por outro lado, os fatos que deveriam a entrar so sem ao propriamente dita uns sobre os outros, em estado atmico e disperso. Trata-se, no entanto de distinguir o julgamento complexo verdadeiro ou so (saudvel) () do julgamento falso, aquele que poder ser aceito e aquele que no poder. De fato, os diversos mestres do estoicismo tm sobre este tema, o que sabemos por Ccero [(Marcus Tulius Cicero, 106 a 43 A. C.)] numerosas dissenses. As teorias de Filon de Larisse [( 150 a 79 A.C.)] e Diodoro [(Diodoro de Cronos + 296 escola Megrica)] parecem marcar os dois limites opostos entre os quais se encontram outras solues. Seria possvel primeiramente deixar os fatos em seu estado de disperso: um fato indicado numa proposio condicional pode estar ligado a qualquer fato enunciado na principal (trata-se de um ). mais ou menos a teoria de Filon de Larisse. Qualquer que seja o contedo do fato tem de considerar simplesmente se falso ou verdadeiro. Em um composto de duas proposies, h somente quatro combinaes possveis, Filon s aceita trs (1 proposio verdadeira; 2 proposio verdadeira; 1 proposio falsa; 2 proposio falsa; 1 proposio falsa; 2 proposio verdadeira) ele rejeita a 4 que somente verdadeira e falsa. A razo de tal rejeio no a priori evidente; ela no est conforme ao princpio de que os exprimveis no podem agir ou sofrer a ao uns em relao aos outros: talvez vssemos a uma inconseqncia dada aos ataques dos acadmicos que teriam lhe acusado de tirar o falso do verdadeiro. De maneira exatamente inversa de Filon, Diodoro busca introduzir uma ligao de necessidade entre as duas proposies. Deixando de lado a teoria particular de Diodoro, vejamos como os Esticos poderiam evitar as conseqncias trazidas luz por Filon.

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Consideremos este lao para cada um das proposies complexas. Para a proposio hipottica e causal ns temos em primeira mo o testemunho de Diocls [(ver Digenes Larcio)]. Um verdadeiro quando o oposto da proposio final contradiz a proposio do incio. O oposto de uma proposio (e em de um termo) segundo Sexto, esta proposio acrescida de uma negao que a comanda inteiramente. A definio do contraditrio ( ) muito mais complicada de ser dada: contraditria uma coisa que no pode ser admitida () ao mesmo tempo outra. O oposto de: dia : no dia. O contraditrio de: dia : noite. Se dois termos, A e B so opostos, claro que no-A conter mais que B, o no-vcio mais que a virtude. O exemplo dado por Diocls o seguinte: Se fizer dia far claro. O oposto da segunda proposio: no faz claro, contradiz: faz claro. Mas teremos a, do ponto de vista dos Esticos uma flagrante dificuldade: se o contraditrio tem um sentido no sistema definido de conceitos, no haver mais quando se tratar somente de fatos: um fato existe ou no existe. Como poderamos contradizer que um fato de uma natureza determinada (o dia) seja ligado a um fato de outra natureza (a noite)? Esta dificuldade levou certos Esticos a somente deixar no as proposies idnticas: se faz dia dia. Pois o oposto do segundo aqui no mais contraditrio, mas oposto ao primeiro. Para poder ir adiante seria necessrio um princpio que permitisse reconhecer o que queremos dizer por fatos contraditrios. Sem tal princpio, a excluso das ligaes arbitrrias de Filon, nos jogar nas proposies unicamente idnticas. este princpio que Crsipo se esforou de encontrar no que chama de : quando a segunda proposio no idntica primeira, o pode ser saudvel, se ela contida em potncia. A palavra se atribui ordinariamente fora que contm e controla as partes do ser: no vemos como a palavra poderia se aplicar de outra forma seno por metfora confundindo esta conteno com a identidade. Os Esticos no tinham ento no , o princpio rigoroso que lhes permitiria sacar a identidade sem conseqncia e sem arbitrariedade. Qual ento o princpio de ligao dos fatos na proposio causal como: j que faz dia, faz claro?. Em aparncia bastante diferente: uma ligao (lao) de conseqncia (). A proposio verdadeira com a condio de que a segunda (ou o segundo fato) siga a primeira (ou o primeiro fato), e no inversamente. No teria a alguma coisa de anlogo ao nosso princpio de causalidade que liga o conjunto de fatos heterogneos? No temos porque acreditar: esta conseqncia se deve no fundo ligao idntica que havamos visto no . Com efeito, numa outra passagem de Diocls ele define assim o sentido da conjuno se: ela significa que o segundo termo a conseqncia () do primeiro. Ora, ns havamos visto precedentemente que a negao desta conseqncia se devia uma impossibilidade lgica. Sobre a condio da verdade da proposio conjuntiva ns no temos seno uma observao crtica de Sexto. Os Esticos esto errados segundo ele, de declarar verdadeira somente a conjuntiva na qual todos os termos so verdadeiros: se um falso, ela falsa somente em parte, e verdadeira para o restante. O pensamento dos Esticos criticado assim, s poderia ter sentido se a conjuno indica uma ligao entre cada uma das partes distintas. A crtica no atinge o caso onde haveria somente uma enumerao. O que nos leva a crer que os Esticos a tomavam em outro sentido, como de outra passagem, esta, por sua vez de Galeno que os acusa de terem confundido a ligao conjuntiva simples com uma ligao de conseqncia. Este texto se explica muito bem, pensando na distino entre o de Filon de Larisse, no qual a ligao arbitrria e no de Crsipo no qual o mesmo nome aplicado. Uma segunda razo um testemunho de Ccero no de fato que nos ensina como Crsipo, por razes que no nos interessa aqui, transformava os em proposies conjuntivas. Seria possvel, observa Ccero, fazer a mesma transformao em todos os casos possveis. No caso, os termos conjugados so seguramente de , isto , por uma identidade lgica.

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Enfim, a proposio disjuntiva desemboca facilmente em um lao (ligao) do mesmo gnero. Ela significa, com efeito, que se uma das proposies verdadeira a outra falsa. Assim todas as ligaes remetem a uma nica, a ligao de identidade, que exprimida claramente no . Uma proposio s pode repetir a outra indefinidamente. Pensamos ter encontrado aqui a razo dessa espcie de inrcia da lgica estica: ela tem por matria os fatos, e estes fatos, exprimveis incorpreos, sendo o limite do real, so por eles mesmos impotentes para engendrar qualquer coisa. Mas, com esta hiptese ns nos encontramos em presena de duas dificuldades que devemos agora abordar: se toda proposio exprime um fato, qual o sentido da definio que deve exprimir um ser? Mais ainda, se no h outras ligaes lgicas seno a da identidade, qual o sentido da semiologia estica, segundo a qual um fato um signo de outro fato heterogneo? III Esta definio era, em Aristteles, a definio da essncia de um ser. Nada de parecido possvel, quando o pensamento lgico no atinge o ser, mas somente os fatos. A definio em questo no ser ento de natureza absolutamente diferente de uma simples descrio. Antipater [(Antipatros 397 a 319 A.C.)] chama de um discurso enunciado completamente seguindo uma anlise. A palavra quer dizer que a definio bastante ajustada ao definido para que a proposio seja convertvel. Devemos ento tom-la sem dvida como uma descrio incompleta. por isso que Galeno referindo-se teoria de Antipater ope a definio descrio () considerada como um discurso que introduz de uma forma genrica () no conhecimento da coisa indicada. Entre estas descries ou esboos se encontram entre outras as das noes comuns que podemos definir, mas somente descrever. Crsipo, verdade, define de forma completamente diferente a definio: a definio explicao do prprio ( ). Segundo Alexandre de Afrodise, esta definio reencontrar a esta de Antipater. Seria necessrio ento entender por prprio, no a essncia do ser ( ), mas somente os fatos caractersticos que resultam e que somente eles entram na definio. Os Esticos inclusive, contrariamente a Aristteles que pretende que a definio uma proposio categrica, a colocava sob a forma de um julgamento hipottico que afirma, j vimos, a coexistncia no de conceitos, mas de fatos. Eles dividiam em de Aristteles, a palavra , querendo sem dvida indicar por o fato estvel e permanente. Assim a definio no era para eles seno a coleo de fatos caractersticos de um ser, mas a razo intrnseca da ligao, a essncia escapa tomada do pensamento lgico. A teoria dos signos depende estreitamente da concepo de em Filom de Larisse. O signo no seria outra coisa seno a proposio antecedente de um , no caso particular onde as duas proposies so verdadeiras, e onde a primeira capaz de revelar () a segunda, como se uma mulher tem leite ela teve um filho. Um leitor moderno seria quase levado a pensar para explicar esta teoria a idia de lei, no sentido da lgica de Stuart Mill. Se um fato A signo de um fato heterogneo B, como a idia de B no est contida analiticamente nessa de A, a ligao poder ser unicamente por meio de uma ligao exterior aos dois fatos, mas constante e necessria, o que chamamos de lei. Se fosse esta a idia dos Esticos deveramos encontrar neles uma teoria das leis e da induo que serve para isto acontecer. Octave Hamelin nos mostrou que, ao contrrio, este problema ficou fora das preocupaes dos Esticos. Devemos ento abandonar, parece-nos, a idia de assimilar esta semiologia nossa lgica indutiva. Se o primeiro fato signo do segundo, no por meio de uma lei, mas porque ele porta nele mesmo, por assim dizer, o outro fato. Mas, no seria assim dar ao fato (e

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proposio que, enquanto exprimvel lhe idntica) certa atividade, uma fora da qual ela no era susceptvel por natureza? Ser necessrio para resolver esta delicada questo, insistir sobre a natureza do signo. Havia sobre este ponto uma controvrsia entre os Epicuristas e os Esticos, que mencionada por Sexto. Para os Epicuristas o signo de um acontecimento atualmente invisvel um objeto sensvel; ento pela sensao que ele conhecido. Para os Esticos o contrrio, o signo um inteligvel (). Ser que Sexto quer indicar assim a ligao do signo com a coisa significada como sendo conhecida a priori, pelo menos por uma espcie de senso comum, resduo mental das representaes empricas? A razo que ele nos d outra: O signo um julgamento () diz ele, e por esta razo, inteligvel. O signo ento inteligvel somente enquanto no for um objeto de representao sensvel, mas um exprimvel, um julgamento. Sexto emprega aui, como em outros casos a palavra , ali onde a linguagem estica exigiria . Ento o signo um exprimvel incorpreo. O que o faz signo igualmente um exprimvel. o que querem dizer os Esticos sustentando esta idia paradoxal: O signo presente deve ser sempre ser signo de uma coisa presente. Em uma proposio deste gnero: Se h uma cicatriz porque houve ferimento, o ferimento nele mesmo sem dvida uma coisa passada, mas de forma alguma ferimento, mas pelo fato de ter tido um ferimento que significado, se faz presente, o signo este outro fato de ter uma cicatriz que igualmente presente. Assim a relao do signo coisa significada entre dois termos incorpreos, dois exprimveis, e no entre duas realidades. Mas, poderamos dizer que esta relao entre os exprimveis supe uma relao entre duas coisas (aqui o ferimento e a cicatriz)? Pelo menos em sua semiologia os Esticos no se ocupam seno da primeira relao (entre exprimveis) e jamais da segunda. O problema ao qual responde esta teoria de substituir um fato (ou exprimvel) desconhecido por um fato (exprimvel) conhecido. Somos levados assim a compreender de uma forma nova a natureza dessa ligao. Aqui como no ordinrio, o segundo julgamento deve, para que o signo seja verdadeiro, ser idntico ao primeiro. Quando temos a noo de conseqncia, diz Sexto, chegamos imediatamente a idia do signo por meio da conseqncia. A conseqncia de que se trata aqui no seguramente a conseqncia fsica entre dois seres, mas do lao de conseqncia lgica entre duas proposies: pois se trata da conseqncia que objeto do pensamento transitivo como nos mostra a frase anterior. Ora, ns vimos que esta conseqncia significava somente que o oposto da proposio final de um contradizia a proposio do comeo. No caso particular do signo e de nosso exemplo no ter tido ferimento ou no ter dado luz (parido um filho) contraditrio com ter uma cicatriz ou ter leite. Sobre a natureza desta contradio os Esticos se encontram necessariamente to embaraados quanto na teoria geral do . Para a lgica indutiva moderna a contradio seria entre a negao da ligao e a ligao legal regularmente induzida pela experincia. Mas como os Esticos no conhecem tais ligaes legais, eles encontram a contradio entre os dois fatos neles mesmos, o antecedente e o conseqente. Ora, a contradio somente ter sentido claro quando se trata de opostos, isto , de julgamentos no quais um a negao do outro, sem conter outros termos. ento necessrio, para que a teoria dos Esticos tenha um sentido, que o antecedente e o conseqente, se eles no so idnticos, pelo menos tenham uma identidade prxima, que no sejam a mesma coisa exprimida em termos diferentes. o que acontece quando acontece quando os consideramos os dois como presentes. O acontecimento presente: ter uma cicatriz, no diferente seno nos termos do outro acontecimento igualmente presente: ter tido um ferimento. inegvel que a representao do ferimento no est contida na representao da cicatriz, e que se tenha em conseqncia a experincia para ir de uma a outra. Mas,

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ainda uma vez, a dialtica no se ocupa das representaes e da experincia, mas simplesmente dos exprimveis e das proposies. Ora, a segunda proposio diferente por sua expresso no fundo a mesma que a primeira. Os Esticos viriam a se distanciarem desta identidade, sua teoria caiu imediatamente sob as crticas que fora feita pelos cticos: a proposio supe que o signo seja constatado e que no seja conhecido pela coisa significada. Os Esticos como nos mostrou Brochard, no tem ou quase no tenha buscado responder a esta dificuldade. Portanto esta dificuldade no chegou a se constituir numa para os lgicos indutivos, no a que se situa o problema, pois precisamente nas relaes empricas que se fundam as ligaes legais. Ns podemos ser muito breves sobre o raciocnio, pois a demonstrao, como diz Sexto, s uma espcie de signo. Os fatos ligados nas proposies complexas se tratam por meio de desta ligao de substituir um fato por outro na concluso. Trata-se sempre de tirar a concluso de uma ligao (ou de uma disjuno) dos fatos enunciados na dominante (maior). A grande simplicidade do aspecto dos quadros do raciocnio decorre de que a lgica no tem mais a ver a realidades, mas aos exprimveis. Ela se fez, da parte de Galeno, o objeto de uma crtica instrutiva: ele observa que nos livros esticos so misturadas todas as formas de raciocnios que de hbito ns distinguimos: o raciocnio retrico, ginstico, dialtico, cientfico, sofstico. Teria sido uma antiga idia platnico-aristotlica que as diferentes espcies de seres, segundo seu valor intrnseco, comportariam raciocnios mais ou menos precisos. Por exemplo, porque o raciocnio cientfico se reporta substncia, nica estvel, que ele deve ser rigoroso. Ora, a rejeio desta idia que faz a caracterstica do raciocnio estico: no se trata de realidades diferentes, pois somente contm o irreal e o incorpreo. IV Se h um trao prprio desta lgica, de se desenvolver fora de todo contato com o real, e apesar de algumas aparncias, fora da representao sensvel. A distino entre um conhecimento que tem por objeto a realidade ela mesma, a representao sensvel, e outro conhecimento que se reporte aos exprimveis no fundo a lgica da doutrina Estica. Ao passo que gneros e espcies em Aristteles, eram em certa medida seres reais, e que o pensamento lgico penetrava nas coisas elas mesmas, os exprimveis nada contm em sua natureza e em conseqncia no levaria nada da natureza real para o pensamento, do qual so produtos e efeitos. sedutor entretempo de remeter a ligao dos fatos, exprimidas pela proposio hipottica ao