PROTÁGORAS - blogdephilosophia.files.wordpress.com · 4 "O homem é a medida de todas as coisas;...

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1 Diálogos de Platão PROTÁGORAS Πρωταγόρας
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    29-Jul-2018
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    Dilogos de Plato

    PROTGORAS

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    O texto do Prtagoras aqui apresentado uma adaptao realizada por Olga Pombo a partir

    da verso portuguesa de Ana da Piedade Elias Pinheiro, publicada em Lisboa, pela editora

    Relgio d'Agua em 1999, na coleco Humanitas. Autores Gregos e Latinos.

    Neste trabalho colaboraram duas geraes de alunos (1999/2000 e 2000/2001) que realizaram

    o processamento do texto e se responsabilizaram pela criao dos links. A uniformizao dos

    aspectos tcnicos da responsabilidade do webmaster Ricardo Saraiva. A todos, os meus

    sinceros agradecimentos.

    http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htm

    Olga Pombo

    http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/agradecimentos.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/index.htm

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    "O homem a medida de todas as coisas; daquelas que so por aquilo que so e daquelas

    que no so por aquilo que no so." (Theaetetus por Plato seo 152a.)

    "Existem dois lados para cada pergunta." (Vidas dos Filsofos Eminentes, por Digenes

    Laertius, Livro IX, Sec. 51.)

    (Protgoras, Abdera, 480 a.C Siclia, 410 a.C)

    http://pt.wikiquote.org/wiki/Plat%C3%A3ohttp://pt.wikiquote.org/w/index.php?title=Di%C3%B3genes_Laertius&action=edit&redlink=1http://pt.wikiquote.org/w/index.php?title=Di%C3%B3genes_Laertius&action=edit&redlink=1http://pt.wikiquote.org/w/index.php?title=Di%C3%B3genes_Laertius&action=edit&redlink=1

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    Protgoras

    309 Comp. - De onde vens tu, Scrates? Est-se mesmo a ver que da caa ao

    jovem Alcibades1, no? A propsito, quando o vi, de manh, pareceu-me j um

    belo homem. E - isto aqui entre ns, Scrates - um homem feito, at com a barba j

    a despontar.

    309b Sc. - Ora, e ento? No s tu admirador de Homero, que diz que a

    idade mais bela a da primeira barba, justamente aquela que tem agora

    Alcibades?

    Comp. - verdade. E o que h de novo? Vens de junto dele, no vens? Que

    tal te tratou o nosso jovem?

    Sc. - Bem - pelo menos, pareceu-me. Sobretudo hoje, pois ps-se do meu

    lado e fez vrias intervenes em meu favor. Sim, venho agora mesmo de junto

    dele. Quero at contar-te algo notvel: apesar de ele estar presente, no lhe prestei

    grande ateno e, muitas vezes, at me esqueci dele.

    309c Comp. - Mas que coisa to extraordinria vos ter acontecido, a ti e a

    ele? No me digas que encontraste algum outro mais belo do que ele aqui na nossa

    cidade?

    Sc. - E muito mais!

    Comp. - O que dizes? Aqui da cidade ou estrangeiro?

    Sc. - Estrangeiro.

    Comp. - De onde?

    1 Filho de Clnias, nascido por volta de 450 a. C.. Para alm de bem nascido, extremamente rico e criado perto dos homens mais

    poderosos da altura, Alcibades era incrivelmente belo e inteligente. Muito jovem ainda, perdeu o pai e ficou sob tutela de

    Pricles, de quem era sobrinho. Famoso general, orador e homem de estado, recebeu as lies de Scrates que, mais tarde, lhe

    salvou a vida num combate. enquanto amigo e discpulo entusiasta de Scrates que aparece em dois dilogos de Plato: um que

    leva seu prprio nome e O Banquete. Sedutor, belo, elegante, rico, mas egosta, vaidoso, sedento de promoo pessoal e

    desprovido de escrpulos, foi o gnio mau de Atenas.

    http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/links/alcibiades.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/links/clinias.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/links/pericles.htmhttp://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/protagoras/links/platao.htm

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    Sc. - De Abdera.

    Comp. - E pareceu-te ser assim to belo esse estrangeiro ao ponto de o

    achares mais belo que o filho de Clnias?

    Sc. - Como que quem mais sbio, meu caro, no h de parecer mais

    belo?

    Comp. - Vens ento de te encontrares com um sbio, Scrates?

    309d Sc. - E, certamente, o mais sbio de todos quantos por a h, se

    concordares que Protgoras o mais sbio de todos.

    Comp. - O que dizes? Protgoras est na cidade?

    Sc. - Est, e h trs dias.

    Comp. - E vens agora mesmo de conversar com ele?

    310 Sc. - Precisamente, de ter dito e ouvido muita coisa.

    Comp. - E, ento, no nos vai descrever esse encontro? Se no tens nada que

    te prenda, manda levantar a o escravo e senta-te aqui.

    Sc. - Pois, muito bem. E vou ficar-vos grato se me escutarem.

    Comp. - E ns a ti, se contares.

    Sc. - Bem, assim ser um agradecimento mtuo.

    310b Sc. - Escutem, ento: Esta noite, ainda antes do amanhecer,

    Hipcrates, filho de Apolodoro e irmo de Fson, bateram com o basto na minha

    porta, com toda a fora e, quando lha abriram, precipitou-se imediatamente para o

    interior, a gritar, com voz forte:

    - Scrates, j acordaste ou ainda dormes?

    E eu, reconhecendo-lhe a voz, exclamei:

    - Hipcrates! No me vens trazer nenhuma m notcia, pois no?

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    - No - respondeu ele. - Nada seno boas notcias.

    - Diz l, ento - repliquei eu. - O que h? A que propsito vieste c a esta

    hora?

    - Chegou Protgoras! - respondeu ele, de p junto de mim. - antes de ontem.

    - S agora soubeste?

    310c - Sim, pelos deuses, s noitinha. E, ao mesmo tempo, tacteando o

    leito, sentou-se aos meus ps e disse: - noitinha, j bastante tarde, quando voltei

    de noe, pois, v l bem, o meu escravo, o Stiro, tinha-me fugido e eu estava

    mesmo para te avisar que ia procur-lo, mas esqueci-me, por causa de qualquer

    outra coisa. Quando voltei, tnhamos acabado de jantar e estvamos para nos irmos

    deitar, quando o meu irmo me disse que Protgoras tinha chegado. Estive para vir

    logo ter contigo, mas depois, pareceu-me que j era demasiado tarde. Porm, assim

    que o sono em que cara, por causa da fadiga, me deixou, levantei-me e corri para

    c, sem demora.

    310d Eu, que lhe conheo a energia e a paixo, perguntei:

    - O que tens tu com isso? Por acaso te ofendeu, Protgoras?

    - Sim, pelos deuses - respondeu ele, com um sorriso - porque s ele sbio e

    no me faz s-lo a mim.

    - Mas, por Zeus - disse-lhe eu - se lhe deres dinheiro e o persuadires, ele h

    de fazer-te sbio tambm.

    310e - Zeus e deuses! Se, na verdade, fosse assim! No pouparia nem o

    que meu nem o dos meus amigos. Mas, mesmo por essa razo que venho agora

    ter contigo, para lhe falares de mim. Porque eu no s sou muito novo como ainda

    nunca vi nem ouvi Protgoras, pois, da ltima vez que ele c esteve, eu ainda era

    uma criana. Mas todos o aplaudem, Scrates, e dizem que a falar o mais hbil

    dos homens. Porque no vamos j para l, para o apanharmos em casa?

    311 - Pelo que ouvi dizer, est hospedado em casa de Clias, filho de

    Hipnico. Vamos l!

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    - No vamos ainda, meu amigo, que muito cedo. Vamos antes para o ptio

    e faamos tempo a dar umas voltas, enquanto no nasce o dia. Logo a seguir,

    samos. Protgoras passa a maior parte do tempo em casa, de modo que no te

    preocupes. Quer-me bem parecer que o encontraremos l.

    311b Levantamo-nos, ento, e fomos dar uma volta pelo ptio. Eu resolvi

    experimentar Hipcrates e p-lo prova, fazendo-lhe algumas perguntas:

    - Diz-me uma coisa, Hipcrates, ests disposto a procurar Protgoras e a

    oferecer-lhe o teu dinheiro como salrio para ele se ocupar de ti. Mas, porque que

    o procuras e para te tornares o qu? Se, por hiptese, tivesses inteno de procurar

    o teu homnimo, Hipcrates de Cs, o de Asclepades, para lhe ofereceres o teu

    dinheiro como salrio por se ocupar de ti, e se algum te perguntasse Diz-me,

    Hipcrates, ests disposto a pagar um salrio a Hipcrates por ele ser o qu?, que

    responderias?

    311c - Responderia que por ele ser mdico.

    - E para te tornares o qu?

    - Para me tornar mdico.

    - E se tencionasses procurar Policleto, de Argos, e Fdias, de Atenas, para

    lhe pagares um salrio para eles se ocuparem de ti, se algum te perguntasse

    Pagas esse dinheiro a Policleto e a Fdias porque achas que eles so o qu?, o

    qu responderias?

    - Responderia que so escultores.

    - E para te tornares o qu?

    - bvio que escultor!

    311d - Muito bem! - disse-lhe eu. Agora, vamos, tu e eu, procurar

    Protgoras, dispostos a pagar-lhe um salrio por se ocupar de ti... se os nossos bens

    forem suficientes para, com eles, o persuadirmos; mas, se no, gastarmos at os

    dos nossos amigos. Se, por acaso, por estarmos assim to empenhados neste

    propsito, algum perguntasse: Digam l, Scrates e Hipcrates, vocs tm

    inteno de oferecer os vossos bens a Protgoras por ele ser o qu?, o que lhe

    responderamos? 311e Que outro nome ouvimos referir a propsito de Protgoras?

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    Tal como de Fdias que escultor e de Homero que poeta, que designao

    ouvimos dar a Protgoras?

    - Bom, costumam dizer do nosso homem que sofista.

    - De modo que vamos entregar os nossos bens a um sofista?

    - Precisamente!

    312 - Ento, e se algum te fizesse ainda mais esta pergunta: E procuras

    Protgoras para te tornares o qu?

    - Ele corou - percebeu-se porque comeava j a surgir alguma claridade - e

    disse:

    - Se o caso semelhante aos anteriores, evidentemente que para me tornar

    um sofista.

    - Mas, pelos deuses! - exclamei eu. - E no ters tu vergonha de te

    apresentares aos Helenos na qualidade de sofista?

    - Claro, Scrates, por Zeus, isto, se for mesmo preciso que diga o que penso.

    312b - Ora bem, Hipcrates, talvez no te parea semelhante o ensino que

    vais encontrar junto de Protgoras e aquele que recebeste junto dos professores das

    primeiras letras, de ctara e de ginstica. Com efeito, estudaste cada uma dessas

    disciplinas, no com uma tcnica, para te tornares um profissional, mas para teres

    cultura, como convm ao leigo e ao homem livre.

    - Parece-me, precisamente, que o ensino de Protgoras semelhante a esse.

    - Sabes, ento, o que ests agora a ponto de fazer ou desconhec-lo?

    - Queres dizer o qu?

    312c - Que ests a ponto de confiar a tua alma aos cuidados de um homem

    que , segundo dizes, um sofista. Contudo admirar-me-ia muito se soubesses o que

    um sofista. E, se o ignoras, no sabes nem a quem entregas a tua alma, nem se

    isso uma coisa boa ou m.

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    - Mas, eu acho que sei - respondeu ele.

    -Diz-me l, ento, o que pensas que um sofista?

    - Bem, penso que, como o prprio nome indica, aquele que possui uma

    sabedoria.

    - Ora bem - repliquei eu - essa tambm a definio que se d a propsito

    dos pintores e dos arquitectos, como aqueles que possuem uma sabedoria. Mas se

    algum nos perguntasse: Que sabedoria possui os pintores?, dir-lhe-a-amos que

    a da reproduo das imagens e o mesmo dos outros. 312d Porm, se algum nos

    perguntar: Em que que o sofista sbio?, o que lhe responderemos? mestre

    em que ofcio?

    - O que diremos, Scrates, se no que mestre em habilitar os outros a falar?

    -Talvez dissssemos a verdade. Mas, claro est que no suficiente, porque

    a nossa resposta levantaria ainda outra pergunta, sobre o assunto em que o sofista

    habilita os outros a falarem. 312e Do mesmo modo como o citarista, presumo eu,

    habilita a que se fale sobre a matria de que sabe, sobre a arte de tocar a ctara, no

    verdade?

    - .

    -Pois bem, e o sofista habilita os outros a falarem sobre o qu?

    - bvio que tambm sobre a arte que conhece.

    - bem provvel! Mas que matria essa em que ele, sofista, sabedor e

    torna sabedor o seu discpulo?

    - Por Zeus- respondeu ele - j no sei mais que te possa dizer.

    313 Em seguida, continuei eu:

    - E agora? Vs o tipo de risco a que vais expor a tua alma? Se te fosse

    preciso confiar o corpo a alguma actividade que implicasse riscos, quer fosse boa,

    quer fosse m, ponderarias durante muito tempo se o confiavas ou no e chamarias

    os teus amigos e familiares para te aconselhares, reflectindo durante dias a fio.

    Tratando-se, contudo, de algo muito mais importante que o corpo, a tua alma, na

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    qual se sediam todas as tuas aces, boas ou ms, consoante ela for boa ou m, a

    este propsito, no consultas nem o teu pai, nem o teu irmo, nem nenhum de ns

    que somos teus companheiros, para saberes se hs de confiar ou no a tua alma a

    este estrangeiro recm chegado. 313b Antes, pelo que dizes, ouviste noitinha que

    ele tinha chegado e vens, mal o dia amanhece, sem ouvires uma palavra ou um

    conselho sobre essa questo - se deves ou no confiar-te a ele - disposto a gastar os

    teus bens e os dos teus amigos. J decidiste, custe o que custar, freqentar a

    companhia de Protgoras, que no conheces - pelo que tu prprio dizes - e com

    quem nunca falaste. Chamas-lhe sofista, mesmo parecendo no saberes o que

    esse sofista, a quem ests disposto a confiar-te.

    313c Ele, depois de me ouvir, assentiu:

    - Pelo que tu dizes, o que parece.

    - Pois , Hipcrates, no achas que o sofista uma espcie de comerciante

    ou retalhista de produtos, com os quais a alma se alimenta? A mim o que me

    parece.

    - E a alma alimenta-se de qu, Scrates?

    - De cincia, creio eu - respondi-lhe. - Ora, no bom, meu amigo, que o

    sofista, elogiando os artigos que vende, nos seduza como o fazem o comerciante e

    o retalhista com os alimentos para o corpo. 313d Porque esses no sabem se os

    produtos que trazem so bons ou maus para o corpo (antes, elogiam tudo o que

    vendem). E nem o sabem tambm os clientes, a menos que se trate, por acaso, de

    um professor de ginstica ou de um mdico. Do mesmo modo, tambm aqueles

    que levam a cincia de cidade em cidade, vendendo-a a retalho, elogiam sempre ao

    interessado tudo quanto vendem, mas talvez alguns deles, meu caro, desconheam

    o que que desses artigos que vendem bom ou mau para a alma. 313e O mesmo

    se passa tambm com os seus clientes, a no ser que, por acaso, algum seja mdico

    da alma. Se, pelo menos, fizeres uma idia do que bom ou do que mau, ento

    no te far mal comprar a cincia de Protgoras ou a de qualquer outro. Mas, se

    no, v bem, meu amigo, no jogues os dados sorte, nem corras riscos em

    matrias to delicadas. 314 Porque o perigo muito maior na compra da cincia do

    que na compra de alimentos. Com efeito, ao comprares alimentos ou bebidas ao

    retalhista ou ao comerciante, podes transport-los noutros recipientes, e, antes de

    beberes ou comeres, podes lev-los para te aconselhares, informando-te junto de

    quem souber, sobre se os deves comer e beber, ou no, e quando, e em que

    quantidade. Assim, o perigo na compra no grande. 314b Pelo contrrio, a

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    cincia no se pode meter noutro recipiente. preciso peg-la e met-la na alma, e,

    uma vez assimilada, ir para casa, ou para sofrer dissabores ou para usufruir

    vantagens. Examinemos, ento, todas estas questes junto com outros mais velhos

    que ns, porque somos ainda muito novos para estarmos a discutir assuntos desta

    natureza. E agora, tal como comeamos por planear, vamos l ouvir o nosso

    homem. Ouvi-lo e conversar com outros, porque Protgoras no est l sozinho.

    Est l tambm Hpias de lide e julgo mesmo que Prdico de Ceos, e ainda

    muitos outros sbios.

    314c Assim nos pareceu e pusemo-nos a caminho. Quando chegamos junto

    entrada, paramos para discutir sobre um assunto que nos tinha surgido durante o

    caminho. Ento para que no ficasse meio e s entrssemos depois de estar

    concludo, ficamos entrada a discutir, at nos termos posto, os dois, de acordo.

    314d Pareceu-me que, com certeza, o porteiro, um eunuco, nos tinha ouvido e

    devia estar irritado com a multido de sofistas que iam e vinham da casa. De modo

    que, quando batemos porta, ele entreabriu-a e, vendo-nos, exclamou:

    - Ah! Mais sofistas! O meu patro no tem tempo para vocs!

    E, ao mesmo tempo, fechou a porta com as duas mos, com toda a fora. Ns

    tornamos a bater e ele, por trs da porta, respondeu:

    - No ouviram que o patro no tem tempo para vocs?

    - Mas, meu caro - respondi eu -, nem procuramos Clias nem somos sofistas.

    - Viemos sim para ver Protgoras. 314e Anuncia-nos l!

    Ento, a muito custo, o homem l nos abriu a porta.

    Quando entramos, surpreendemos Prtagoras a passear pelo trio, e, 315 passeando

    em volta dele, de um lado Clias, filho de Hiponico, e o irmo materno Pralo,

    filho de Pricles, e Crmides, filho de Glucon, e, do outro lado, o outro filho de

    Pricles, Xantipo; Filipides, filho de Filomelo, e Antimero de Mende, que tido

    pelo melhor dos discpulos de Protgoras e que aprende a sua arte para vir a ser

    sofista. E, atrs destes, aqueles que o seguiam, ouvindo o seu discurso. A maioria

    pareceu-me serem estrangeiros - que Protgoras traz consigo de cada uma das

    cidades por onde passa, encantando-os, qual Orfeu, com a sua voz, e que o seguem

    seduzidos por essa mesma voz -, mas no grupo estavam tambm alguns dos nossos

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    concidados. 315b No que me diz respeito fiquei completamente deliciado ao ver

    este grupo, pois tinham o cuidado admirvel de nunca se colocarem na frente de

    Protgoras; antes, de cada vez que ele e os que o rodeavam se voltavam, os outros -

    era uma coisa formidvel! - abriam alas para um lado e para outro e, caminhando

    em crculo, ficavam sempre por trs dele. Uma maravilha! 315c Depois dele

    reconheci ainda, diz Homero, Hpias de lide, instalado num cadeiro, no lado

    oposto do trio; sua volta, sentavam-se em banquetas Erixmaco, filho de

    Acmeno, Fedro de Mirrinonte e ndron, filho de Andrcion, e alguns dos

    estrangeiros, conterrneos de Hpias e outros. Pareciam interrogar Hpias sobre

    assuntos como a natureza e os fenmenos celestes. E ele, do alto do seu cadeiro,

    dava sentenas e examinava as questes. 315d E avistei tambm Tntalo - pois

    l em casa estava ainda Prdico de Ceos. - Ocupava um quarto que Hiponico usava

    como despensa e que Clias agora, por causa do grande nmero de visitantes,

    desocupara e transformara num quarto de hspedes. Pelo que percebi, Prdico

    estava ainda deitado, embrulhado numa quantidade de peles de carneiro e

    cobertores. Numa das camas, ao seu lado, sentava-se Pausnias de Ceramico e

    junto dele um rapazinho ainda novo que me deu idia de muitssimo bem-educado

    e muito bem-parecido. 315e Julgo ter ouvido que o seu nome era gaton e no me

    espantaria se fosse o favorito de Pausnias. Estava o tal rapazinho, os dois

    Adimantos - o filho de Cpido e o de Leucolfido - e pareceu-me que mais alguns.

    De fora, no consegui perceber de que falavam, embora estivesse cheio de vontade

    de ouvir Prdico - que, alis, me pareceu ser um homem extraordinrio e

    superiormente sabedor -, mas o tom rouco da sua voz produzia no aposento um

    murmrio que tornava indistintas as palavras que proferia. 316 Mal tnhamos

    entrado, chegaram logo atrs de ns o belo Alcibades - como tu dizes e com a

    minha anuncia - e Crtias, filho de Calescro. Depois de entrarmos, perdemos

    ainda um bocadito nesta apreciao e, depois de observarmos tudo, aproximamo-

    nos de Protgoras.

    316b Disse-lhe eu, ento:

    - Protgoras, aqui o Hipcrates e eu viemos c para falar contigo.

    - Antes de mais - respondeu ele - querem falar-me a ss ou aqui, na frente

    dos outros?

  • 14

    - Para ns, indiferente. Tu prprio decidirs, depois de teres ouvido a razo

    da nossa visita.

    - E qual , ento, a razo da vossa visita?

    - Aqui o Hipcrates um dos nossos conterrneos, filho de Apolodoro, de

    uma grande e prspera famlia e que, pela sua natureza, compete com qualquer

    outro da sua idade. 316c Acho que quer tornar-se conceituado na cidade e pensa

    que a melhor forma de o conseguir seria freqentar a tua companhia. Pondera-te

    agora se acha conveniente falar conosco em particular ou na frente dos outros.

    - muito correcto da tua parte que te preocupes comigo, Scrates.

    Realmente, preciso que um estrangeiro que vai s grandes cidades e nelas

    persuade os melhores dos seus jovens a abandonarem outras companhias, de

    conterrneos ou estrangeiros, de mais velhos ou de mais novos, e a associarem-se a

    ele para assim se tornarem melhores, tome precaues nas aces que pratica.

    316d Com efeito, no so pequenas as invejas, hostilidades, chicanas e processos

    de impiedade que da advm. Eu digo que a sofstica uma arte antiga, mas que,

    aqueles que de entre os nossos antepassados a praticaram, a temiam, porque

    ofensiva, e a disfaravam e dissimulavam, uns sob a forma de poesia, como

    Homero, Hesodo e Simnides, outros sob a forma de ritos iniciatrios e profecias,

    como os seguidores de Orfeu e Museu. E ouvi dizer que outros ainda lhe chamam

    ginstica, como Ico de Tarento e aquele que j hoje o melhor dos sofistas,

    Herdico de Selmbria, que antes era de Mgara. 316e E o vosso Agtocles, que

    um sofista de categoria, tomou por mscara a msica. O mesmo fizeram Pitoclides

    de Ceos e muitos outros. Estes como dizem, com receio de ms vontades,

    serviram-se destas artes como disfarce. 317 Mas, neste ponto, estou em desacordo

    com todos eles, porque me parece que no conseguiram o objectivo que

    pretendiam, uma vez que estas tentativas no passam desapercebidas aos

    governantes das cidades os quais constituem a razo dessas mscaras. Porque as

    massas, por assim dizer, no entendem nada; limitam-se a repetir em coro aquilo

    que lhes disseram. Ora, se aqueles que pretendem fugir no conseguem faz-lo e,

    pelo contrrio, do mais nas vistas, ento, uma grande loucura tent-lo, pois

    necessariamente vo atrair grande nmero de inimigos que os classificaro como

    os maiores dos patifes. 317b Pelo meu lado escolhi um caminho totalmente oposto

    a este: admito que sou sofista e que educo homens. Parece-me que essa a melhor

    das solues, admitir em vez de negar. Para alm desta, tenho tomado outras

    precaues, embora, e afirmo-o diante dos deuses, nunca tenha sofrido nenhum

    mal por admitir que sou um sofista. 317c E, contudo, j levo anos e anos desta

    profisso, pois, feitas as contas, j so muitos os anos que tenho - pela idade, nada

  • 15

    me impediria de ser pai de qualquer um de vs. - De modo que, se quiserem, tenho

    muito gosto em expor os meus argumentos diante de todos os que aqui esto.

    317d E eu, desconfiado de que ele quisesse exibir-se diante de Prdico e de Hpias

    e gabar-se pelo facto de termos vindo procur-lo, perguntei:

    - Porque no chamamos Prdico e Hpias e os que esto com eles, para nos

    ouvirem?

    - Boa idia - respondeu Protgoras.

    E Clias perguntou:

    - E se dispusssemos a assemblia de modo a podermos conversar sentados?

    Pareceu-nos bem. Deliciados todos ns por irmos ouvir homens to conhecedores,

    sentamo-nos, acomodando-nos nos bancos e leitos em redor de Hpias - uma vez

    que os assentos j l estavam. 317e Nesta altura chegaram Clias e Alcibades

    trazendo Prdico, que tinham feito levantar da cama, e aqueles que estavam com

    ele. Assim que nos sentamos todos, Protgoras tomou a palavra:

    - Scrates, agora que j estamos reunidos, repete l o que comeas-te por

    dizer a propsito deste jovem.

    Eu respondi-lhe o seguinte:

    318 - Vou comear Protgoras, pela primeira coisa que ainda h pouco te

    disse - a razo da nossa visita: aqui o Hipcrates deseja freqentar a tua companhia

    e gostaria que lhe dissesses que benefcio obter se assim o fizer.

    A nossa conversa resumiu-se a esta apresentao. Retomando a palavra, Protgoras

    respondeu:

    - Meu jovem, eis o que acontecer se conviveres comigo: no mesmo dia em

    que comeares a fazer, ao regressar a casa, estars melhor, e o mesmo no dia

    seguinte; em cada dia progredirs sempre para melhor.

    318b E eu, depois de o ouvir, repliquei:

    - Protgoras, no dizes nada de extraordinrio; antes, lgico que, at tu,

    tendo a idade que tens e sendo sbio como s, se algum te ensinasse algo que,

  • 16

    porventura, no conhecesses, te tornarias melhor. No vejamos as coisas desse

    modo, mas, antes, assim: se, de um momento para o outro, o nosso Hipcrates

    mudasse de intenes e quisesse freqentar a companhia desse rapaz recm-

    chegado, Zeuxipo de Heracleia, e fosse procur-lo do mesmo modo que agora

    procura a ti, e o ouvisse dizer as mesmas coisas que ouviu de ti, que cada dia

    passasse junto dele se aperfeioaria e se tornaria melhor, se lhe perguntasse: 318c

    E dizes que serei melhor e me aperfeioarei no qu?, Zeuxipo responder-lhe-ia

    que na pintura. E se procurasse Ontgoras de Tebas e, depois de lhe ouvir o mesmo

    que a ti, lhe perguntasse em que se tornaria melhor por cada dia que passasse na

    sua companhia, ele dir-lhe-ia que na arte da flauta. Responde-nos tu da mesma

    maneira, a mim e a este jovem, pergunta que te fizemos: 318d freqentando o

    nosso Hipcrates a companhia de Protgoras por cada dia passado junto dele, em

    que que se tornar melhor e em que que se aperfeioar, Protgoras, e como?

    E Protgoras, depois de me ouvir estas palavras, respondeu:

    - Perguntas muito bem, Scrates, e a mim satisfaz-me responder queles

    que me sabem interrogar. Na verdade, ao procurar-me, Hipcrates no

    experimentar os problemas que o perturbariam freqentando a companhia de

    outro sofista. Com efeito, os outros assoberbam os jovens. 318e Quando os vem

    fugir s especializaes, empurram-nos novamente para elas, contra vontade, e

    ensinam-lhes clculo, astronomia, geometria e msica - e, ao mesmo tempo, lanou

    um olhar a Hpias. - Ao contrrio, quem vem ter comigo no aprende seno as

    matrias que pretender. 319 O meu ensino destina-se boa gesto dos assuntos

    particulares - de modo a administrar com competncia a prpria casa - e dos

    assuntos da cidade - de modo a faz-lo o melhor possvel quer por aes quer por

    palavras.

    - Ser que percebi bem as tuas palavras? Parece-me que falas da arte de

    gerir a cidade e prometes transformar homens em bons cidados?

    - esse precisamente, Scrates, o objectivo que me proponho cumprir.

    319 - Possuis, ento, um belo ofcio... se o possures realmente. Bom, no

    vou dizer-te seno o que penso. Na verdade, Protgoras, eu no considerava que

    essa arte pudesse ser ensinada, mas no vejo de que modo duvidar das tuas

    afirmaes. 319b Contudo, justo que explique por que razo no creio que essa

    arte possa ser ensinada, nem transmitida aos homens por outros homens. Com

    efeito, eu (tal como os outros Helenos) tenho os atenienses na conta de sbios. Ora,

    bem vejo que quando nos reunimos na Assemblia, sempre que for preciso que a

  • 17

    cidade realize algo na rea da construo civil so convocados os arquitectos, para

    se pronunciarem sobre o assunto. E, quando na rea da construo naval, os

    armadores, e assim com todas as matrias que se crem susceptveis de serem

    ensinadas e aprendidas. 319c Mais, se alguma outra pessoa, que eles no

    consideram como sendo especialista, pretender pronunciar-se nestas matrias, por

    mais belo, rico ou nobre que seja, no lhe aceitam qualquer opinio e ainda fazem

    troa e barulho, at que aquele que tencionava falar tome a iniciativa de se calar,

    face ao barulho, ou at que os archeiros o arrastem e o prendam, por ordem dos

    prtanes. assim que eles procedem, tratando-se de matrias que consideram

    tcnicas. 319d Pelo contrrio, sempre que for preciso resolver algo na rea da

    administrao da cidade, sobre essa matria levanta-se e d a sua opinio,

    indiferentemente, carpinteiro, ferreiro ou curtidor, mercador ou marinheiro, rico ou

    pobre, nobre ou plebeu, e ningum lhes pe as objeces dos casos anteriores:

    nunca aprendeu ou nunca ningum lhe ensinou nada sobre a matria em que

    tenciona dar opinio. bvio que no crem que essa arte possa ser ensinada.

    Bem, e no assim apenas com os interesses pblicos da cidade; 319e tambm na

    vida particular, os mais sbios e mais nobres dos nossos cidados no tm

    possibilidades de transmitir a outros a virtude2 que possuem. At Pricles, o pai

    destes dois jovens aqui presentes, os educou perfeitamente nas matrias que dizem

    respeito aos professores, mas naquelas em que ele prprio sbio, nem os ensinou

    nem os confiou a outro. 320 De modo que l andam eles por a, vagueando, rdea

    solta, espera de, por obra do acaso, encontrarem sozinhos a virtude. E, se

    quiserem mais, este mesmo Pricles, que era tutor de Clnias, o irmo mais novo

    aqui do nosso Alcibades, com receio de que aquele fosse corrompido pelo irmo

    afastou-o dele e enviou-o para ser educado junto de rifron, que, antes que se

    tivessem completado seis meses lho devolveram sem saber o que fazer com ele.

    320b E posso, ainda, referir-te muitos outros que, sendo bons, no conseguiram

    tornar ningum melhor, nem dos seus, nem dos outros. Assim eu, Protgoras, ao

    observar estes exemplos, no creio que a virtude se possa ensinar. Contudo, depois

    de te ouvir dizer que pode, rendo-me a considerar que h algo no que dizes, porque

    creio que s conhecedor de muitos assuntos, muitos que aprendeste e outros que tu

    prprio descobriste. Portanto, se entenderes possvel, demonstra-nos de que modo

    se ensina a virtude. No nos recuses essa demonstrao.

    2 Aret (adaptao perfeita, excelncia, virtude) uma palavra de origem grega que expressa o conceito

    grego de excelncia, ligado noo de cumprimento do propsito ou da funo a que o indivduo se

    destina. No sentido grego, a virtude coincide com a realizao da prpria essncia, e, portanto, a noo

    se estende a todos os seres vivos. Segundo Scrates, a virtude fazer aquilo que a que cada um se

    destina. Aquilo que no plano objetivo a realizao da prpria essncia, no plano subjetivo coincide com

    a prpria felicidade.

  • 18

    320c - Claro que no recusarei, Scrates. Mas, em primeiro lugar, querem

    que o faa contando-vos uma histria, como mais velho que fala aos mais novos,

    ou que o demonstre com argumentos?

    Muitos dos que estavam sentados sua volta deram-lhe, ento, a escolher

    demonstr-lo como quisesse.

    - Pois bem, parece-me - respondeu ele - que ser mais agradvel contar-vos

    uma histria:

    320d - Era uma vez... Existiam somente os deuses e no havia ainda as raas

    mortais. Quando chegou, ento, o momento destinado a o seu nascimento, os

    deuses modelaram-nas, no interior da terra, misturando terra e fogo e os elementos

    que com estes se combinam. Quando estavam prontas para ser conduzidas para a

    luz do dia, os deuses encarregaram Prometeu e Epimeteu de as organizar e de

    atribuir a cada uma capacidades que as distinguissem. Epimeteu pediu, ento, a

    Prometeu que o deixasse fazer essa distribuio. Depois de eu a ter feito, disse,

    tu passas-lhes uma revista. 320e E assim, depois de o ter convencido, comeou:

    atribuiu fora aos que no tornara rpidos e dotou com rapidez os mais fracos;

    armou uns e para aqueles a quem dera uma natureza sem armas inventou qualquer

    outro meio que assegurasse a sua sobrevivncia; queles que contemplou com a

    pequenez, deu-lhes a possibilidade de fugirem voando ou uma habitao

    subterrnea, e aos que fez grandes em tamanho salvou-os com essa mesma

    atribuio. 321 De modo igualmente equilibrado distribuiu tambm as restantes

    qualidades. E fez tudo com cautela, para que nenhuma espcie se extinguisse.

    Depois de lhes dar os meios necessrios para que no se destrussem uns aos

    outros, arranjou maneira de os proteger contra as estaes enviadas por Zeus,

    cobrindo-os com plos abundantes e carapaas grossas, suficientes para se

    defenderem do inverno e eficazes para o fazerem do sol escaldante, e que

    constituem, para cada um, o seu aconchego natural, quando decidem deitar-se.

    321b Calou uns com cascos e outros com couro grosso e sem sangue. Em

    seguida, providenciou diferentes alimentos para as diferentes espcies: para uns, os

    pastos da terra; para outros, ainda, os frutos das rvores; para os restantes, razes. A

    alguns destinou que fossem alimento de outras espcies; a estas ltimas deu

    pequenas ninhadas, enquanto que s que lhe servem de alimento deu a

    fecundidade, providenciando assim a salvao da sua espcie. 321c Deste modo,

    Epimeteu que no era l muito esperto esqueceu-se que gastara todas as

    qualidades com os animais irracionais; fora desta organizao, restava-lhe ainda a

    raa dos homens e sentia-se embaraado quanto ao que fazer. Estava ele nesta

    aflio, chega Prometeu para inspeccionar a distribuio e v que, enquanto as

  • 19

    outras espcies esto convenientemente providas de tudo quanto necessitam, o

    homem est nu, descalo, sem abrigo e sem defesa. E j estava prximo o dia

    marcado, em que era preciso que tambm o homem sasse do interior da terra para

    a luz do dia. 321d Sem encontrar qualquer outra soluo para assegurar a

    sobrevivncia do homem, Prometeu, roubou a sabedoria artstica de Hefesto e

    Atena, juntamente com o fogo porque sem o fogo era-lhe impossvel possu-la

    ou torn-la til e, assim, ofereceu-a ao homem. Com ela, este tomou posse da

    arte da vida, mas no da arte de gerir a cidade, pois esta estava junto do prprio

    Zeus. J no fora possvel a Prometeu entrar na morada de Zeus, na acrpole

    para mais que os guardas de Zeus eram terrveis , mas entrara, sem ser visto, na

    sala partilhada por Hefesto e Atena, 321e na qual ambos se dedicavam s suas

    artes, e roubara a arte do fogo a Hefesto e as outras artes a Atena, para as dar ao

    homem, que delas retirou os meios necessrios vida. 322 Mas, no fim, por culpa

    de Epimeteu o que dizem a justia perseguiu Prometeu por causa deste

    roubo. Deste modo, o homem participava da herana divina e, devido ao

    parentesco com os deuses, foi o nico dos animais a acreditar neles. Assim,

    comeou a construir altares e imagens suas. Depois, rapidamente dominou a arte

    dos sons e das palavras e descobriu casas, vesturio, calado, abrigos e os

    alimentos vindos da terra. 322b Assim providos, inicialmente, os homens viviam

    dispersos e no havia cidades. Mas viam-se destrudos pelos animais selvagens,

    pois eram mais fracos que eles em todos os sentidos. A arte que dominavam era-

    lhes suficiente na procura dos alimentos, mas ineficaz na luta com as feras com

    efeito, faltava-lhes a arte de gerir a cidade, da qual faz parte a arte da guerra.

    Procuraram, ento, associar-se e proteger-se, fundando cidades. S que, ao

    associar-se, tratavam-se injustamente uns aos outros, j que no possuam a arte de

    gerir a cidade. De modo que, novamente dispersos, se iam destruindo... 322c Zeus,

    ento, inquieto, no fosse a nossa espcie desaparecer de todo, ordenou a Hermes

    que levasse aos homens respeito e justia, para que houvesse na cidade ordem e

    laos que suscitassem a amizade. Hermes perguntou a Zeus de que modo haveria

    de dar aos homens justia e respeito: Distribuo-os do mesmo modo que, no incio,

    foram distribudas as outras capacidades? As outras ficaram assim repartidas: um

    mdico suficiente para muitos leigos e o mesmo acontece com os outros

    especialistas. Atribuo, tambm, justia e respeito aos homens deste modo, ou

    distribuo-os por todos? 322d Por todos respondeu Zeus e que todos

    partilhem desses predicados, porque no haver cidades, se somente uns poucos

    partilharem deles, como o fazem dos outros. Estabelece, pois, em meu nome, uma

    lei que extermine, como se se tratasse de uma peste para a cidade, todo aquele que

    no for capaz de partilhar de respeito e de justia. Deste modo e por este motivo,

    Scrates, quer os outros povos quer os Atenienses, quando o discurso na rea da

    arte da carpintaria ou de outra qualquer especialidade, consideram que s a alguns

  • 20

    compete uma opinio. 322e E se algum, fora desses poucos, se pronuncia, no

    aceitam, tal como tu dizes e com muita razo, repito eu ; porm, quando

    procuram uma opinio a propsito da arte de gerir a cidade, 323 em que preciso

    proceder com toda a justia e sensatez, com razo a aceitam de qualquer homem,

    pois a qualquer um pertence partilhar efectivamente desta arte ou no haver

    cidades. Neste facto reside, Scrates, a razo do que perguntas. Mas, para que no

    consideres que te ests a iludir, pensando que por ser assim que todas as pessoas

    crem que qualquer homem partilha quer da justia quer das restantes qualidades

    polticas, repara em mais uma prova: com efeito, no que diz respeito s outras

    qualidades, como tu dizes, se algum diz ser um bom tocador de flauta ou ter dotes

    em qualquer outra arte, sem os ter, ou se riem dele ou se enfurecem e os familiares

    vm e do-no como louco. 323b Mas tratando-se da justia ou das restantes

    qualidades polticas, se sabem de algum que injusto e se esse mesmo algum

    confessar a verdade a seu respeito diante de todos, essa atitude (confessar a

    verdade) que, noutra ocasio, pareceria inteligncia, neste caso, parece loucura. E

    afirmam que preciso que todos digam que so justos, quer sejam quer no, e que

    aquele que no aparenta s-lo enlouqueceu. 323c Pois pretendem que foroso que

    qualquer um partilhe desta qualidade, de uma maneira ou de outra, ou no poder

    viver entre os homens. O que digo, pois, que com razo que aceitam de

    qualquer homem uma opinio sobre esta virtude, pelo facto de acreditarem que

    todos partilham dela. De seguida, pretendo demonstrar-te que no acreditam que

    seja obra da natureza ou algo inato, mas, antes, ensinada e que aquele que o

    desenvolver consegu-lo- graas ao treino. 323d Com efeito, na medida em que os

    homens crem que os defeitos que os outros possuem so obra da natureza ou do

    acaso, ningum se irrita, nem repreende, nem ensina, nem castiga aqueles que tm

    esses defeitos, para que no sejam como so; antes, os lamentam. possvel que

    haja algum to louco que tencione fazer uma coisa dessas com os feios, os baixos

    ou os fracos? Com efeito, considero que sabem que por obra da natureza ou do

    acaso que os homens desenvolvem essas caractersticas, as boas e as ms. Mas, na

    medida em que consideram que os homens desenvolvem boas qualidades pelo

    treino, pela prtica e pela aprendizagem, se algum as no possuir e, pelo contrrio,

    323e possuir os defeitos correspondentes, sobre esses recaem, ento, as irritaes,

    os castigos e as repreenses. Um desses defeitos a injustia, a impiedade e, em

    suma, tudo o que contrrio s qualidades polticas. 324 Como, neste caso,

    qualquer um se irrita e repreende qualquer um, bvio que tm essa virtude por

    adquirida graas ao treino e aprendizagem. Com efeito, Scrates, se quiseres

    ponderar que punir uma medida eficaz em relao queles que praticam

    injustias, esse facto provar-te- que os homens acreditam, realmente, que a

    virtude pode ser adquirida. Porque ningum castiga, por praticar injustias, aqueles

    que as praticam sem noo do que fazem, a menos que se castigue irracionalmente,

  • 21

    como qualquer animal selvagem. 324b Mas, aquele que tenciona punir

    racionalmente no castiga por causa das aces passadas porque no vale a pena

    chorar pelo leite derramado , mas, como salvaguarda do que poder acontecer,

    para que nem esse mesmo, nem outro que tenha presenciado a punio, pratique

    novas injustias. Ora, com semelhante modo de pensar, pressupem, ento, que a

    virtude se pode ensinar se se entender que, quando se pune, com vista

    correco. 324c Todos aqueles que aplicam castigos, quer na vida privada, quer na

    vida comunitria, tm esta mesma opinio. Todos os homens e os Atenienses,

    teus concidados, no menos que os outros castigam e punem aqueles que

    consideram que praticaram aces injustas. Deste argumento se depreende, ento,

    que os Atenienses esto entre aqueles que acreditam que a virtude pode ser

    adquirida e ensinada. Pela minha parte, Scrates, parece-me que foi

    suficientemente demonstrado que , pois, com razo que os teus concidados

    aceitam que ferreiro e curtidor dem a sua opinio sobre os assuntos da cidade e

    que acreditam que a virtude pode ser ensinada e adquirida. 324d Resta, contudo,

    ainda, uma questo: aquela que levantas a propsito dos homens bons. Qual ,

    pois, a razo pela qual os homens bons ensinam aos filhos essas outras matrias

    que competem aos professores, fazendo-os sbios, mas quanto virtude, em que

    eles prprios so bons, no os tornam melhores que qualquer outro? Mas, a esta

    questo, Scrates, vou responder-te no com outra histria, mas atravs de

    argumentos. Pensa, ento, da seguinte maneira: antes de mais, h ou no uma

    qualidade da qual foroso que todos os cidados partilhem se realmente se quiser

    324e que haja uma cidade? Com efeito, neste imperativo, e no em qualquer

    outra razo, que se encontra a soluo da questo que tu levantas. Pois, se essa

    qualidade realmente existe e no se encontra nem na carpintaria, nem na

    metalurgia, nem na cermica, mas antes na justia, na sensatez e na piedade 325

    em suma, numa qualidade qual dou o nome de virtude humana ; se essa

    qualidade de que todos devem partilhar e qualquer homem deve possuir, seja o que

    for que queira aprender ou fazer, pois sem ela nada lhe ser possvel; se preciso

    que aquele que dela no partilhe, seja criana, homem ou mulher, seja ensinado e

    punido at que pela punio se torne melhor e que aquele que no responda nem

    aco das punies nem dos ensinamentos, esse, seja tido como incurvel e banido

    da cidade ou condenado morte; 325b se a situao esta e se, sendo assim, os

    homens bons ensinam aos filhos as outras matrias, mas no esta, v l tu que

    estranhos so esses homens bons! Contudo, demonstramos j que acreditam que

    esta qualidade pode ser ensinada, tanto na vida particular como na comunitria.

    Mas, podendo esta qualidade ser ensinada e aperfeioada, no verdade que

    ensinam aos filhos todas as outras matrias que, caso no conheam, no os

    conduziro pena de morte, e, pelo contrrio, no lhes ensinam nem os

    aperfeioam em matria de virtude, 325c cujo desconhecimento pode levar os seus

  • 22

    filhos pena de morte e ao exlio e com a morte confiscao dos seus bens e,

    resumindo numa palavra, runa de tudo quanto possuem? Estas matrias nem lhas

    ensinam nem lhes dedicam qualquer cuidado, pois no? Pelo menos, Scrates,

    assim parece. Contudo, comeam a ensin-los desde que so crianas pequenas e

    continuaro a faz-lo enquanto eles viverem. Logo que algum compreende o que

    se lhe diz, a ama, a me, o pedagogo e at o pai fazem esforos nessa rea, para

    que a criana se torne o melhor possvel. 325d Por cada palavra ou cada acto,

    ensinam-lhe e explicam-lhe o que justo e o que injusto, o que bom e o que

    censurvel, o que pio e o que mpio, faz isto, no faas isso. Se obedece

    voluntariamente, ainda bem; se no, endireitam-no, com ameaas e pancadas,

    como se fosse um pau torto e recurvo. Em seguida, quando o enviam para a escola,

    prescrevem que os mestres tomem muito mais cuidados com o bom

    comportamento das crianas e que com a aprendizagem das letras e da ctara. 325e

    Os mestres, por sua vez, seguem a prescrio e, ento, assim que as crianas

    aprenderem as letras e estiverem prontas para compreenderem os textos escritos do

    mesmo modo que, at a, compreenderam os sons, colocam-lhes sobre os bancos

    poemas de bons poetas, para que os leiam, e obrigam-nas a aprend-los de cor, pois

    neles h muitas advertncias, muitas histrias e elogios dos heris de outrora, 326

    para que a criana, entusiasmada, os imite e se esforce por ser igual a eles. A

    seguir, os citaristas tomam idntico cuidado no que diz respeito moderao, para

    que os pequenos no venham a agir erradamente. Depois, assim que souberem

    tocar ctara, ensinam-lhes, ento, poemas de outros bons poetas os lricos, desta

    vez com o fim de aprenderem a msica para serem tocados ctara, 326b e

    obrigam a que os ritmos e as melodias se tornem familiares s almas das crianas,

    para que sejam mais delicadas; ao tornarem-se mais graciosas e mais moderadas,

    sero melhores quer no falar quer no agir. Tudo na vida do homem precisa de

    ritmo e de harmonia! E mais ainda, a seguir mandam-nas ao pedotriba, para

    servirem o esprito bem formado com corpos melhores e no serem obrigados a

    abster-se, por causa de deficincia fsica, nem nas guerras nem em outras

    actividades. 326c Os que tm mais possibilidades e os mais ricos so os que

    mais podem assim que actuam e os seus filhos comeam a frequentar a escola

    muito cedo e deixam-na muito tarde. Logo que saem da escola, a vez de a cidade

    os obrigar a aprender as leis e a viver de acordo com elas e com os seus

    paradigmas, 326d para no agirem apenas como bem lhes parecer. E,

    simplesmente, do mesmo modo que os mestres das primeiras letras, depois de

    traarem linhas com o estilete, do as tabuinhas s crianas que ainda no sabem

    escrever e as obrigam a seguir a direco das linhas, assim tambm a cidade,

    depois de traar leis, obra de bons e antigos legisladores, obriga a que se governe e

    a que se seja governado de acordo com elas, e pune aquele que, porventura, vier a

    transgredi-las. 326e E o nome para essa punio, tanto aqui entre ns como em

  • 23

    muitos outros lugares, corrigir, uma vez que a justia corrige. Sendo tal o cuidado

    em torno da virtude, quer na vida privada quer na comunitria, admiras-te,

    Scrates, e questionas que a virtude possa ser ensinada? Pois no deves espantar-

    te; deverias, antes, espantar-te muito mais se o no pudesse ser. Mas, por que

    razo, afinal, a maioria dos filhos de pais notveis resultam fracos? Ora, repara no

    seguinte: na realidade, no nada espantoso, se mesmo verdade o que eu disse

    antes, que, se se quiser que haja uma cidade, necessrio que ningum ignore uma

    qualidade a virtude. 327 Se, com efeito, as coisas so como eu digo e o mais

    provvel que assim seja considera uma qualquer outra actividade ou assunto

    tua escolha. Se no fosse possvel que uma cidade existisse, a menos que todos

    ns, na medida das nossas possibilidades, fssemos tocadores de flauta, cada um

    deveria poder ensinar o outro a tocar flauta, quer em particular quer na

    comunidade, e censurar aquele que no o fizesse bem, sem recusar esse ensino;

    327b do mesmo modo que, o nosso caso, ningum recusa o ensino da justia e das

    leis, nem o oculta, como no ensino das outras artes. Assim, considero que nos ser

    benfico conjugar a justia e a virtude, pois por essa unio que qualquer um,

    zelosamente, explica e ensina ao outro os direitos estabelecidos pela lei. Ento, se

    no que toca arte da flauta temos, assim, todo o zelo e disponibilidade para

    ensinarmos os outros, consideras, porventura, Scrates perguntou ele , que os

    filhos dos tocadores de flauta talentosos se tornam melhores que os dos fracos?

    No me parece! Antes, o filho que tem a sorte de nascer com melhores dotes para a

    arte da flauta, esse, crescer com grande fama; 327c ao contrrio, o nascido sem

    dotes permanecer inglrio. E, muitas vezes, o filho do flautista talentoso poder

    resultar fraco, enquanto que, frequente tambm, o do fraco resultar talentoso.

    Contudo, mesmo assim, todos sero uns tocadores de flauta sofrveis quando

    comparados com os leigos e com aqueles que no so conhecedores da arte de

    tocar flauta. Assim, considera agora tambm que o homem que te parecer de uma

    injustia absoluta, numa comunidade que foi educada segundo as leis; 327d esse,

    passa a ser tambm justo e especialista nesta matria, se for preciso compar-lo a

    homens que no tm nem educao, nem tribunais, nem leis, nem qualquer tipo de

    restrio que obrigue qualquer um a tomar cuidado em relao virtude homens

    que sejam uns selvagens semelhantes queles que, no ano passado, o poeta

    Fercrates encenou nas Leneias. Pois, se te visses no meio de homens dessa

    espcie, como os misantropos do tal coro, alegrar-te-ias por encontrar Eurbato e

    Frinondas e, com saudade, lamentarias, a viva voz, a fraqueza dos nossos homens.

    327e Mas agora, Scrates, amuas porque todos se metem a mestres de virtude,

    cada um na medida em que pode, e tu no reconheces nenhum como tal. 328 Ora

    bem, do mesmo modo, se procurasses um professor de lngua grega, no

    encontrarias nenhum, nem, quer-me parecer, se procurasses algum que ensinasse

    aos filhos dos nossos artesos essa mesma arte que eles aprenderam junto do pai,

  • 24

    na medida em que foi possvel ao pai e aos seus companheiros de ofcio

    ensinarem-lha. Ainda que algum quisesse ensin-los, no considero Scrates, que

    fosse fcil encontrar-lhes um professor, como com facilidade, certamente, se

    encontra para os ignorantes, quer em matria de virtude quer em qualquer outra

    matria. Mas se houver algum que nos conduza, ainda que um pouco, na direco

    da virtude, j bom. 328b Quanto a mim, acho que sou um desses que excedem os

    outros na possibilidade de tornar perfeito qualquer homem e que merece o salrio

    o que estipulado por mim e ainda mais, se o aluno assim entender. Por esta

    razo estabeleci o salrio das minhas lies da seguinte maneira: sempre que

    algum aprender comigo, se quiser, paga-me a quantia que eu estipulei; se no,

    depois de ter ido a um templo e ter ponderado qual diz ser o valor dos meus

    ensinamentos, entrega-me essa mesma quantia. 328c Deste modo, Scrates, fica

    provado, por uma histria e por argumentos, que a virtude se pode ensinar, que

    assim o crem os Atenienses e que no espantoso que os filhos de pais talentosos

    resultem fracos, nem os dos fracos talentosos. E at os filhos de Policleto, que tm

    a mesma idade aqui de Pralo e Xantipo, no tm nada a ver com o pai, o mesmo

    acontecendo tambm com os filhos de outros artistas. Mas, quanto a estes aqui no

    vale a pena denunciar j esta diferena, porque ainda possvel ter esperana neles.

    So novos!

    328d Protgoras, depois de ter exibido demoradamente a sua arte, deu por

    concludo o discurso. E eu, enfeitiado ainda durante muito tempo, olhava-o, na

    esperana de que dissesse alguma coisa mais e ansioso por ouvi-lo. Depois, no

    momento em que percebi que ele realmente teria chegado ao fim, bem a custo,

    recuperei o meu alento e disse, olhando para Hipcrates:

    - filho de Apolodoro, como te agradeo teres-me feito vir at aqui! Com

    efeito, muito prezo ter ouvido as coisas que ouvi a Protgoras. 328e Porque eu

    antes no acreditava que houvesse cuidado humano pelo qual os bons se tornassem

    bons. Mas agora estou convencido! Resta-me s um pequeno obstculo, que,

    bvio, Protgoras facilmente me ajudar a transpor, depois da quantidade de coisas

    que ele explicou. que, se algum consultasse sobre estes mesmos assuntos

    qualquer um dos nossos oradores, 329 provavelmente ouviria discursos

    semelhantes, quer a Pricles, quer a qualquer outro dos que falam com habilidade.

    Mas se lhes perguntarem mais alguma coisa como se fossem livros, nem podem

    responder nem perguntar eles prprios. Antes, se algum questionar alguma coisita

    do que disseram, tal como as peas de bronze, quando batem, ressoam longa e

    demoradamente, caso ningum as trave, assim tambm os oradores esticam sem

    fim o discurso mesmo se interrogados sobre pequenas coisas. 329b Mas, aqui o

    nosso Protgoras capaz de proferir grandes e belos discursos, como acaba de

  • 25

    mostrar, mas tambm capaz de responder, falando com brevidade, e de, quando

    interrogado, esperar e aceitar as respostas, qualidades que poucos possuem. Pois

    agora, Protgoras, falta-me um pequeno pormenor para entender tudo, se me deres

    esta resposta. Dizes que a virtude pode ser ensinada e eu deixo-me persuadir por ti

    mais do que me deixaria persuadir por qualquer outra pessoa. Satisfaz-me s, no

    fundo da alma, um aspecto do que disseste que me espantou. 329c que tu

    afirmaste que Zeus enviou aos homens a justia e o respeito, e, a seguir, disseste

    tambm, em diversas partes do teu discurso, que a justia, a sensatez, a piedade e

    outras qualidades seriam, em suma, uma qualidade nica - virtude. Comea ento

    por me explicares, com um discurso mais preciso, se a virtude um todo e, em

    seguida, se a justia, a sensatez e a piedade so partes dessa virtude ou se estes

    nomes, que enumerei agora, so os vrios nomes de uma mesma e nica qualidade.

    este pormenor que eu desejaria ainda conhecer.

    329d - Mas, a essa questo bem fcil responder, Scrates; essas

    qualidades sobre as quais me interrogas so partes de uma nica, da virtude.

    - E so partes como as partes do rosto, a boca, o nariz, os olhos e as orelhas,

    ou como as partes do ouro, que no diferem nada umas das outras, nem cada uma

    delas do todo, excepto no tamanho?

    329e - Parece-me, Scrates, que do primeiro modo, tal como as partes do

    rosto esto para o rosto inteiro.

    - Mas, ento, os homens participam destas partes da virtude, uns de umas,

    outros de outras, ou foroso que, se algum possuir uma, as tenha todas?

    - De maneira nenhuma - respondeu ele - porque muitos so corajosos, mas

    injustos e, outras vezes, justos, mas no sbios.

    330 - Ah! Ento, sabedoria e coragem tambm so partes da virtude?

    - Certamente, as mais importantes de todas. E a sabedoria a maior dessas

    partes.

    - E cada uma delas ou uma qualidade ou outra?

    - Sim.

  • 26

    - E cada uma tem uma funo particular, do mesmo modo que, no rosto, os

    olhos no so iguais aos ouvidos, nem a sua funo a mesma, nem nenhuma das

    partes igual outra, nem na sua funo nem noutros aspectos? tambm assim

    com as partes da virtude, no ? Nenhuma se assemelha outra, nem em si prpria

    nem na sua funo? 330b bvio que tem de ser assim, para que se identifique

    com o exemplo proposto.

    - assim mesmo, Scrates.

    - Ora ento - perguntei eu -, nenhuma das outras partes da virtude igual ao

    conhecimento, nem igual justia, nem igual coragem, nem igual sensatez,

    nem igual piedade?

    - Pois no.

    - Vejamos bem: consideremos, os dois em conjunto, o que cada uma delas.

    Em primeiro lugar o seguinte: a justia uma realidade ou no? A mim parece-me

    que . E a ti?

    330c - A mim tambm.

    - E qual, ento? Se algum nos perguntasse, a ti e a mim: Protgoras,

    Scrates, digam-me l os dois, essa realidade de que falavam h pouco, a justia,

    algo justo ou injusto? Eu responder-lhe-ia que justo. E tu que voto darias? Igual

    ao meu ou outro?

    - Igual.

    - Eu, por mim, ao responder a quem me perguntava, diria que a justia

    semelhante ao ser-se justo. Tu dirias o mesmo?

    330d - Sim.

    - Ento, se, em seguida, nos perguntassem: Pois, e no dizem que existe

    tambm uma coisa chamada piedade?, creio eu que responderamos que sim.

    - Sim - concordou ele.

    - E no dizem tambm que uma realidade? Diramos que sim, ou no?

  • 27

    - Tambm estou de acordo neste ponto.

    - E dizem que essa mesma realidade se manifesta do mesmo modo que ser-

    se mpio ou que ser-se pio? A mim, tal pergunta, ia irritar-me e obrigar-me a

    responder: Cuidado com o que dizes amigo! S com dificuldade algo seria pio, se

    no fosse pia a prpria piedade. E tu que dirias? No responderias deste modo?

    330e - Exactamente assim Ele concordou.

    - E se se dirigisse a ns com novas perguntas: Ento que estavam vocs a

    dizer? Por acaso, no vos terei ouvido bem? Parecia-me que diziam que as partes

    da virtude estavam umas para as outras de modo a nenhuma delas ser igual

    outra. Quanto a mim, dir-lhe-ia: Ouviste correctamente o resto, mas percebeste

    mal quando pensas que quem disse essas coisas fui eu. Com efeito, foi aqui o nosso

    amigo Protgoras quem deu essas respostas, eu s o interroguei. 331 Se ele,

    ento, dissesse: verdade o que ele diz, Protgoras? Dizes tu que cada uma das

    partes da virtude no igual outra? So estas as tuas palavras?, que lhe

    responderias?

    - Ser-me-ia foroso concordar, Scrates.

    - E que lhe responderamos, ento, Protgoras, ao fim de termos concordado

    nestes pontos, se insistisse em perguntar: Ora, pelos vistos, piedade no uma

    realidade semelhante a ser-se justo, nem justia a ser-se pio, mas antes a no se ser

    pio; e a piedade no ser-se justo, mas antes, por acaso, ser-se injusto e a justia

    diz-se mpio?, 331b que lhe responderamos? Eu, falando por mim, diria que a

    justia pia e a piedade justa; e falando por ti tambm - se mo permitisses -,

    responder-lhe-ia precisamente o mesmo: que a justia idntica piedade, ou

    muito parecida, e, mais do que todas as outras, a justia se assemelha piedade e a

    piedade justia. Mas v se no queres que eu responda ou se tu tambm pensas

    assim.

    - No acho Scrates, que seja assim to simples, a ponto de concordar que a

    justia pia e que a piedade justa, at me parece que existe nelas alguma

    diferena. 331c Mas o que que estas coisas importam? - acrescentou ele. - Se

    quiseres, tenhamos l a justia por pia e a piedade por justa.

    - Por mim, no - respondi eu -, no quero estar a examinar nenhum se

    quiseres ou nenhum se te parecer, apenas a mim e a ti. E sublinho este a mim

    e a ti porque considero que possvel examinar melhor um argumento se se lhe

    retirar o se.

  • 28

    331d - Pois muito bem, justia e piedade assemelham-se...e, na verdade,

    uma coisa assemelha-se sempre a outra, num ponto ou noutro. O branco, em certa

    medida, assemelha-se ao negro, o duro ao mole, e tambm as outras coisas que

    parecem ser completamente opostas umas s outras. At aquelas partes do rosto,

    que dissemos que tinham funes diferentes e que no eram o mesmo que a outra

    se assemelham, num ponto ou noutro, e uma o mesmo que a outra. 331e De

    modo que, com este mtodo, poders provar, se quiseres, que todas elas so iguais

    umas s outras. Mas no justo chamar nem semelhante ao que tem semelhanas,

    nem diferente ao que tem diferenas, mesmo que a semelhana seja muito

    pequena.

    E eu, espantado, retorqui-lhe:

    - E ento, para ti, essa a relao que a justia e a piedade tm uma com a

    outra, apenas uma pequena semelhana?

    332 - No propriamente, mas tambm no como tu hs pouco me pareceste

    considerar.

    - Bom, como estou a ver que o assunto te enfada, deixemo-lo e debrucemo-nos

    sobre um outro ponto do que disseste. Chamas insensatez a alguma coisa?

    - Chamo.

    - E a sabedoria no totalmente contrria a essa realidade?

    - o que parece.

    - Antes de mais, quando os homens agem de modo correcto e til, no te

    parece que, ao agir assim, agem com sensatez ou o contrrio?

    - Que agem com sensatez.

    - E, ento, agem sensatamente por sensatez.

    332b - Forosamente.

    - Ora, e aqueles que no agem correctamente agem insensatamente e, agindo

    assim, no so sensatos, pois no?

  • 29

    - Sim, tambm me parece.

    - Sendo assim, agir insensatamente o contrrio de agir sensatamente?

    - .

    - Ento, as aces realizadas insensatamente so realizadas por insensatez e

    as realizadas sensatamente por sensatez?

    - Concordo.

    - E se algo realizado com fora, realizado de maneira forte e se

    realizado com fraqueza de maneira fraca?

    - o que parece.

    - E se com rapidez, rapidamente, e se com lentido, lentamente?

    - .

    332c - E assim, se algo realizado de uma maneira, realizado dessa

    maneira, e se algo realizado de maneira contrria pela maneira contrria?

    - Pois tambm.

    - Vejamos, ento - continuei eu -, o belo existe?

    - acho que sim.

    - E tem algum contrrio excepo do feio?

    - No.

    - E que mais? O bem existe?

    - Existe.

    - E tem algum contrrio excepo do mal?

    - No.

  • 30

    - E que mais? A voz tem timbres agudos?

    - Tem.

    - E no tm outro contrrio excepo dos graves?

    - No.

    - Ento insisti -, para cada coisa h um nico contrrio, no muitos?

    - Estou de acordo contigo.

    332d - V l, recapitulemos os pontos em que concordamos. Estamos de

    acordo em que para cada coisa s existe um contrrio e no mais?

    - Estamos.

    - E que o que realizado de modo contrrio se realiza por razes contrrias?

    - Sim.

    - E estamos de acordo em que o que realizado insensatamente realizado

    ao contrrio do que realizado sensatamente?

    - Estamos.

    - E que o que realizado sensatamente se realiza com sensatez e o que

    realizado insensatamente com insensatez?

    - Concordo.

    332e - Ento, se se agir de modo contrrio, ser por razes contrrias?

    - Decerto.

    - E age-se, num caso, por sensatez, e, noutro por insensatez?

    - .

    - De modo contrrio?

  • 31

    - Exactamente.

    - E por serem contrrios?

    - Sim.

    - De modo que insensatez o contrrio de sensatez?

    - o que parece.

    - Lembras-te, ento, que no incio, concordamos que a insensatez era o

    contrrio da sabedoria?

    - Pois concordei.

    - E que, para uma nica coisa, havia um nico contrrio?

    - Sim.

    333 - Ento, antes de continuarmos, Protgoras, qual dos dois argumentos

    pomos de parte? O de que, para uma coisa, existe apenas um contrrio ou aquele

    em que se disse que uma coisa sensatez e outra sabedoria, cada uma delas uma

    parte de virtude, e no s diferentes entre si, mas tambm na sua funo, tal como

    as partes do rosto? Qual pomos de parte? Sim, que estes dois argumentos, em

    conjunto no se ligam com grande harmonia, porque nem esto em unssono nem

    combinam um com o outro. Alis, de que modo poderiam estar em unssono se,

    por um lado, foroso que para uma coisa exista um nico contrrio, no muitos,

    333b e, por outro lado, a sensatez e a sabedoria parecem ambas contrrias

    insensatez, sendo esta uma s. assim, Protgoras, ou de outro modo?

    Ele concordou, mas bastante contrafeito.

    - Ser, ento, a sensatez e a sabedoria uma s? J antes nos pareceu tambm

    que a justia e a piedade eram prximas... V l, Protgoras, no nos demos por

    cansados e analisemos o resto. Parece-te, por acaso, que um homem que age

    injustamente sensato, agindo deste modo?

    333c - Eu c envergonhava-me, por concordar com uma coisa dessas,

    embora muitos homens o faam.

  • 32

    - E antes hei de dirigir o meu discurso a eles ou a ti?

    - Se quiseres - respondeu -, discute, em primeiro lugar, a opinio da maioria.

    - Mas, para mim, no tem nenhuma importncia, desde que tu realmente

    respondas se o que tu pensas ou no. principalmente o argumento que estou a

    examinar, embora corresponda, certamente, a examinar-me tanto a mim que

    interrogo, como quele que responde.

    333d Ento, a princpio, Protgoras mostrou-se-nos reservado - alegando

    que o argumento era difcil -, mas depois l consentiu em responder:

    - V l - pedi-lhe eu -, responde-me desde o princpio: alguns dos que so

    injustos parecem-te sensatos?

    - Se quiseres...

    - Mas diz-me que ser sensato pensar bem?

    - Digo.

    - E que pensar bem planificar bem as injustias que se cometem?

    - Se quiseres...

    - E so injustos se as realizam bem ou se as realizam mal?

    - Se as realizam bem.

    - E dizes que existem algumas coisas que so boas?

    - Digo.

    - E por acaso, essas coisas que so boas so as teis aos homens?

    333e - Ora, por Zeus! Eu, por mim, chamo boas mesmo as coisas que no

    sejam teis aos homens!

  • 33

    E pareceu-me que Protgoras j estava exasperado e se preparava para a luta e para

    cerrar fileiras contra o interrogatrio. De modo que, quando o vi nesta disposio,

    tomei cuidado e perguntei com brandura:

    - Antes de mais, Protgoras, referes-te a coisas que no so teis aos homens

    ou que no so teis de todo? Tu tambm chamas boas a essas?

    334 - De modo nenhum! Mas eu conheo muitas coisas que so inteis para

    os homens, quer alimentos, quer bebidas, quer medicamentos, quer inmeras

    outras coisas, mas tambm conheo outras que so teis; e as que no so nem uma

    coisa nem outra para os homens mas o so para os cavalos; as que s so teis aos

    bois e as que o so aos ces; e, ainda as que o no so a nenhum destes mas, antes,

    s rvores; as que so boas para as razes das rvores mas daninhas aos rebentos:

    334b o estrume, por exemplo, aplicado s razes de todas as plantas, mas, se

    quiseres coloc-lo sobre os ramos e os galhos novos, perdem-se todos. E tambm o

    azeite extremamente nocivo totalidade das plantas e bastante prejudicial ao plo

    dos outros seres vivos excepto ao do homem - ao cabelo e ao resto do corpo do

    homem benfico. Assim, o que bom mutvel e multifacetado, de modo que

    mesmo aqui o que bom para o exterior do corpo do homem pssimo para o seu

    interior. 334c por essa razo que todos os mdicos probem os seus doentes de

    utilizar azeite nos alimentos que tencionam comer, a no ser em pequenas

    quantidades, somente para disfarar o desagrado da sensao, recebida pelo

    olfacto, que resulta de certos pratos e iguarias.

    Ento, concludas estas observaes, os presentes aplaudiram-no por ter falado to

    bem, e eu repliquei:

    - Protgoras, acontece que eu sou um homem esquecido e quando algum

    fala comigo demoradamente, esqueo qual era o contedo do discurso. 334d

    como se me acontecesse ser surdo; nesse caso ias achar necessrio, se realmente

    estivesses disposto a dialogar comigo, falar bem mais alto do que com os outros.

    Do mesmo modo, agora que ests a lidar com algum esquecido, encurta as tuas

    respostas e torna-as mais breves, se queres que eu possa acompanhar-te.

    - Ora, e em que medida me pedes que responda brevemente? Que te

    responda de modo mais breve do que preciso?

    - De maneira nenhuma!

    - S o que preciso, ento?

  • 34

    334e - Exactamente.

    - E, outra coisa, hei de responder-te o que a mim me parecer que preciso

    responder ou o que te parecer a ti?

    - O que eu, de facto, ouvi dizer foi que s capaz, tu prprio ou outros que

    tenhas ensinado, de falar demoradamente, se quiseres, de modo que, assim, o

    discurso no termine, mas tambm com brevidade, de forma que, assim, nenhum

    outro seja mais breve a falar do que tu. 335 Pois, se ests interessado em dialogar

    comigo, serve-te, por favor, deste segundo mtodo - o da brevidade.

    - Scrates, eu j travei combates verbais com muitos outros homens, e se

    tivesse feito o que tu mandas, discutir assim, da maneira que o meu antagonista me

    mandasse discutir, nem seria melhor que ningum, nem o nome de Protgoras se

    teria tornado conhecido entre os Helenos.

    335b E eu, ao perceber que lhe no tinha agradado as respostas anteriores e que

    no quereria, voluntariamente, continuar o dilogo, sendo ele a responder, achei

    que j no tinha qualquer proveito em levar por diante aquela conversa e disse:

    - Ora bem, Protgoras, no me parece fcil continuarmos a conversa num

    rumo contrrio ao que tu desejas; contudo, quando quiseres dialogar de um modo

    que eu seja capaz de te seguir, ento dialogarei contigo. que tu ( o que se diz de

    ti e tu prprio concordas) tens possibilidades de manter uma conversa, quer com

    um longo discurso, quer com um discurso breve - pois s um homem hbil -; agora

    eu no sou capaz de longos discursos, embora gostasse de o ser. 335c Mas era bom

    que tu, uma vez que s capaz de o fazer das duas maneiras, chegasses a acordo

    connosco, para podermos conversar. Contudo, j que no queres e eu tambm

    tenho um compromisso, no me vai ser possvel esperar que tu faas longos

    discursos - pois tenho mesmo de ir a um outro lugar -; vou-me embora. Se no

    fosse esse motivo, ficava a ouvir-te certamente e sem qualquer desagrado.

    Ao mesmo tempo em que dei esta justificao, levantei-me para sair. E, j eu

    estava de p, Clias pegou na minha mo com a sua mo direita, tomou-me aqui o

    manto, com a esquerda e disse:

    335d - No, te deixaremos ir, Scrates; que se te fores embora, a nossa

    conversa no ser a mesma. Peo-te, pois, que fiques connosco. Por mim, nada

    ouviria de mais agradvel que a vossa discusso, tua e de Protgoras. V, faz-nos a

    vontade a todos.

  • 35

    E eu, levantado j para sair, respondi-lhe:

    - Filho de Hiponico, no que me diz respeito, sempre admirei a tua nsia de

    sabedoria, e no deixo de a louvar e apreciar, neste momento; 335e de modo que

    quereria fazer-te a vontade, se me pedisses coisas possveis. Agora, o que me ests

    a pedir equivale a que acompanhasse o corredor Crson de Hmera, no seu auge, ou

    que competisse, na corrida, com um dos corredores de longa ou mdia distncia.

    336 Podia responder-te que me agradaria, muito mais do que a ti, acompanhar

    esses corredores, s que no sou capaz; se quiseres ver-nos, a mim e a Crson, a

    correr juntos, pede-lhe que o faa ao meu ritmo. Porque eu no sou capaz de correr

    depressa, mas ele capaz de o fazer devagar. Se desejas, ento, ouvir-nos, a mim e

    a Protgoras, pede-lhe que responda agora como me respondeu no incio, de

    maneira breve e ao que lhe perguntado. 336b Se no, qual ser o rumo da nossa

    conversa? Eu acreditava que havia diferena entre conversar e fazer um discurso

    pblico.

    - Mas - vs, Scrates? - Protgoras parece estar certo ao dizer que justo

    continuar o dilogo do modo que quiser, e tu, por tua vez, da maneira que quiseres.

    Ento, Alcibades tomou a palavra e disse:

    - No tens razo no que dizes, Clias. que aqui o nosso Scrates admite

    que no consegue seguir longos discursos e concede a vitria a Protgoras, mas

    quando se trata de dialogar e ser entendido em dar e devolver argumentos, 336c a

    espantar-me-a se concedesse a vitria a outro homem. Ora, se Protgoras admitir

    que inferior a Scrates na arte de dialogar, para Scrates ser suficiente; mas se

    levanta algum obstculo, ele que conduza o dilogo interrogando e respondendo,

    sem fazer um longo discurso para cada questo, contornando os argumentos e no

    querendo dar respostas, 336d prolongando, antes, o discurso at que muitos dos

    ouvintes tenham esquecido qual era o teor da pergunta. Quanto a Scrates, garanto

    que no se esquecer e que no est seno a brincar ao dizer que um esquecido.

    Parece-me, ento, que o que diz Scrates mais razovel. preciso que cada um

    apresente a sua opinio.

    Depois de Alcibades - creio eu - foi Crtias a falar:

    336e - Prdico e Hpias, parece-me que Clias est mais do lado de

    Protgoras, enquanto Alcibades est sempre desejoso de levar a melhor na posio

    em que, porventura, apostar. No devemos tomar nenhum partido, nem por

  • 36

    Scrates, nem por Protgoras, mas antes pedir para ambos que no quebrem a

    conversa a meio.

    337 Depois de ele ter dito estas palavras, Prdico acrescentou:

    - Parece-me bem o que o dizes, Crtias. , de facto, necessrio que, aqueles

    que assistem a discusses destas ouam ambos os interlocutores, de modo

    imparcial, mas no passivo - que so coisas diferentes. preciso ouvir os dois do

    mesmo modo, mas no atribuir a cada um o mesmo valor, antes mais ao mais sbio

    e menos ao mais ignorante. Pela minha parte, Protgoras e Scrates, suponho que

    concordaro em discutir sobre os argumentos, mas sem contender 337b - que os

    amigos discutem com os amigos, com cordialidade, enquanto que aqueles que

    contendem so os que esto em desacordo e se odeiam uns aos outros - assim, a

    nossa conversa ser muito melhor. Porque, ento, vocs, os que falam, recebero,

    desse modo, da nossa parte, dos que ouvimos, sobretudo um grande apreo, mais

    do que louvor. Na verdade, o apreo vem, sem mentiras, da alma daqueles que

    ouvem, enquanto o louvor, muitas vezes, trai com palavras a verdadeira opinio.

    Ento, ns, ouvintes, a experimentaremos, sobretudo jbilo e no prazer. 337c

    Rejubilar aprender algo e partilhar da inteligncia do prprio esprito;

    experimentar prazer antes comer algo ou receber outro prazer s para o corpo.

    Ento, depois de Prdico ter falado assim, muitos - muitos mesmo - dos presentes

    o apoiaram. A seguir a Prdico, falou o sbio Hpias:

    - Meus senhores, aqui presentes, creio eu que todos so aparentados,

    familiares e concidados - por natureza, no por lei. 337d Porque qualquer coisa

    que semelhante a outra , por natureza, aparentada com aquela a que se

    assemelha; mas a lei, que um tirano entre os homens, fora a muitas coisas

    contrrias natureza. Seria ento censurvel se ns, que conhecemos a natureza

    das coisas, somos os mais sbios dos Helenos e aqui estamos, por essa mesma

    razo, reunidos todos, a capital da sabedoria da Hlade e aqui nesta casa, a maior e

    mais prspera desta cidade, 337e no expusssemos nada que honrasse a nossa

    reputao e divergssemos uns dos outros como se fssemos os mais incapazes dos

    homens. Peo-vos, pois, e dou-vos por conselho, Protgoras e Scrates, que

    cheguem a um acordo, tendo-nos a ns por rbitros para vos conciliarmos: 338 a ti,

    [Scrates] que no pretendas esse tipo de preciso do dilogo, de excessiva

    brevidade, se ela no agrada a Protgoras, mas, antes, a seres condescendente e

    folgares as rdeas aos teus discursos, para que nos paream mais magnificientes e

    elegantes; por sua vez, a Protgoras, que no navegue de vela desfraldada, ao

    sabor do vento, e fuja para um mar de discursos, onde no se aviste terra. Que

  • 37

    fiquem antes pelo meio-termo! Faam assim, ento, e se esto persuadidos pelas

    minhas palavras escolham um rbitro, um juiz, um presidente que vos supervisione

    na extenso do discurso de cada um.

    338b Estas palavras agradaram aos presentes e todos o louvaram; Clias disse que

    no me deixaria ir e pediu que se escolhesse um juiz. Respondi-lhe eu ento que

    seria uma vergonha escolher um rbitro para os discursos:

    - que se o escolhido for inferior a ns, no estar correcto que aquele que

    inferior julgue os que so melhores; se for igual, tambm no estar correcto:

    porque aquele que igual a ns proceder da mesma maneira, de modo que seria

    uma escolha intil. 338c Ora, ento, tero de escolher algum melhor do que ns.

    S que, em boa verdade, pelo que me parece, ser-vos- impossvel escolher algum

    mais sbio que aqui o nosso Protgoras; por outro lado, seno escolherem algum

    melhor, ainda que assim o afirmem para ele ser vergonhoso na mesma

    escolherem-lhe um juz, como se se tratasse de um medocre; quanto a mim, no

    me faz diferena nenhuma. Mas para que tenhamos a conversa que desejam, quero

    propor o seguinte: se Protgoras no quiser responder, ento que faa ele as

    perguntas, 338d que eu respondo-lhe, e, ao mesmo tempo, vou tentar mostrar-lhe

    de que modo digo eu que aquele que responde deve responder. E, depois de eu ter

    respondido a quanto ele me quiser perguntar, passar-me- ele, novamente, a

    palavra, do mesmo modo. E se, pelo contrrio, ele no parecer desejoso de

    responder ao que lhe perguntado, todos ns, em conjunto, lhe pediremos o

    mesmo que me pediram vocs, que no estrague a conversa. 338e Posto isto, no

    h necessidade alguma de termos um rbitro; antes, todos arbitraro em conjunto.

    A todos pareceu que assim se deveria fazer. Protgoras no estava muito

    convencido, mas mesmo assim foi forado a concordar que ele faria as perguntas e,

    depois de ter perguntado o suficiente, responderia ele, de novo, utilizando um

    discurso breve.

    338e Comeou, ento, por perguntar qualquer coisa do gnero:

    - Creio eu, Scrates, que para um homem a parte mais importante da

    educao consiste em ser perito em matria de poesia, e essa percia significa

    poder entender e saber distinguir, na obra dos poetas, o que est feito de modo

    correcto e o que no est e justificar-se perante qualquer dvida. 339 Pois a minha

    pergunta de agora precisamente sobre esse assunto acerca do qual tu e eu temos

  • 38

    estado a discutir, acerca da virtude, s que transferido para a poesia. Difere apenas

    nesse pormenor. Simnides diz algures a Escopas, filho de Creonte da Tesslia:

    339b Ora, difcil tornar-se, de verdade, um homem de bem, perfeito de mos e

    ps e esprito, obra lapidada sem falha.

    - Conheces este poema ou queres que to recite todo?

    - No preciso; eu tambm o conheo e, por acaso, at me tenho ocupado

    bastante dele.

    - Ainda bem que o dizes! E achas que est composto com beleza e

    correco, ou no?

    - Com muita beleza e correco, at.

    - E parecer-te- na mesma composto com beleza, se o poeta se contradisser

    assim mesmo?

    - No, assim no ter beleza - respondi eu.

    - V, ento, melhor.

    339c - Mas, meu caro, eu j o examinei que chegue!

    - Sabes, ento, que alguns versos mais frente, nesse poema diz: No julgo

    razovel a mxima de Ptaco4, embora tenha sido um homem sbio a proferi-la:

    disse que difcil ser nobre. Sabes que a mesma pessoa disse estas palavras e

    aquelas que estavam antes?

    - Tenho a certeza!

    - Parece-te ento que estas palavras concordam com as outras?

    - A mim, de facto, parece-me que sim (mas, ao mesmo tempo, fiquei com

    medo do que ele fosse argumentar); a ti no te parece?

    __________________________ 4

    Ptaco (em grego: , c. 640 a.C. - 568 a.C.) foi um estadista e legislador[1]

    da Grcia Antiga, um dos Sete

    Sbios da Grcia. Filho de Hirrdio, era natural de Mitilene, e foi o general (estratego) daquela cidade que liderou seu exrcito vitria na batalha contra os atenienses e seu comandante,Frnon.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_gregahttp://en.wikipedia.org/wiki/wikt:%CE%A0%CE%AF%CF%84%CF%84%CE%B1%CE%BA%CE%BF%CF%82http://pt.wikipedia.org/wiki/640_a.C.http://pt.wikipedia.org/wiki/568_a.C.http://pt.wikipedia.org/wiki/Estadistahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Legisladorhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Legisladorhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Gr%C3%A9cia_Antigahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Sete_S%C3%A1bios_da_Gr%C3%A9ciahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Sete_S%C3%A1bios_da_Gr%C3%A9ciahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Mitilenehttp://pt.wikipedia.org/wiki/Generalhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Estrategohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Atenienseshttp://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Fr%C3%ADnon&action=edit&redlink=1

  • 39

    339d - Como que algum poder parecer estar de acordo consigo mesmo, se

    disser estas duas coisas: em primeiro lugar, ele prprio declara que difcil tornar-

    se, verdadeiramente, um homem bem; mas esquece-o, um pouco mais frente, ao

    continuar o poema, e quando Ptaco diz a mesma coisa que ele prprio dissera, que

    difcil ser nobre censura-lhe essas palavras e diz no aceitar do outro a afirmao

    que ele prprio tinha feito? que, ao censur-lo, por falar assim, bvio que se

    censura a si prprio. De modo que algo do que disse, ou antes, ou depois, no est

    correcto.

    339e Estas palavras provocaram entusiasmo e os aplausos de muitos dos

    ouvintes e eu, a princpio, como que derrubado por um bom pugilista, senti que

    perdia a vista e os sentidos, por causa do que ele dissera e do entusiasmo dos

    outros. Em seguida - para te dizer da verdade, com o intuito de ganhar tempo para

    ponderar o que o poeta teria querido dizer -, virei-me para Prdico e chamei-o:

    340 - Prdico, Simnides teu concidado. justo que ajudes o nosso

    homem. Parece-me bem recorrer, tal como diz Homero que o Escamandro, ante a

    investida de Aquiles, recorresse ao Simuente, dizendo: Querido irmo,

    enfrentemos juntos a fora deste homem. Pela mesma razo, eu recorro a ti, para

    que Protgoras no nos destrua Simnides de vez. que, decerto, a defesa de

    Simnides precisa da correco da tua arte, pela qual distingues que querer e

    desejar no so a mesma coisa, 340b e que fazes todas aquelas distines

    formidveis de h pouco. Observa l bem, ento, se a tua opinio coincide com a

    minha. A mim no parece que Simnides se contradiga a si mesmo. Mas, adianta-

    nos tu, Prdico, a tua opinio: parece-te que tornar-se o mesmo que ser ou algo

    diferente?

    - Diferente, por Zeus! - respondeu.

    - Ora bem, no verdade que Simnides, nos primeiros versos, mostrava a

    sua prpria opinio, que difcil tornar-se, verdadeiramente, um homem de bem?

    340c - Tens razo no que dizes - confirmou Prdico.

    - E censura Ptaco, precisamente, no como pensa Protgoras, por dizer o

    mesmo que ele, mas outra coisa, porque Ptaco no diz que isso difcil, tornar-se

    nobre, como Simnides, mas sim s-lo. No a mesma coisa, Protgoras, tal como

    diz o nosso Prdico, ser e tornar-se. E se ser no o mesmo que tornar-se,

    Simnides no se contradiz a si mesmo. 340d De igual modo, o nosso Prdico e

    muitos outros, a partir de Hesodo, ho de dizer que difcil tornar-se um homem

  • 40

    de bem - porque, anteposto ao mrito, colocaram os deuses o suor - e que, quando

    algum atinge o cume desse mrito, torna-se fcil depois, por difcil que seja,

    conserv-lo.

    Prdico ouviu as minhas palavras e aplaudiu-as. Mas Protgoras replicou:

    - A tua defesa, Scrates, acrescenta um erro maior tese que te empenhas

    em defender.

    Respondi-lhe, ento:

    - Bem, pelo que me parece sai-me mal - no verdade, Protgoras? - e sou

    uma espcie de mdico caricato, que torna maior a doena que trata.

    340e - isso mesmo.

    - Como assim? - quis eu saber.

    - Seria muita ignorncia do poeta se dissesse que conservar a virtude algo

    assim to simples, quando a todos os homens parece que mais difcil de todas as

    coisas.

    341 - Por Zeus, vem mesmo a propsito termos aqui o Prdico a participar

    no dilogo. Porque, decerto, Protgoras, a arte de Prdico algo de divino e antigo,

    iniciada com a de Simnides ou at mais antiga. Tu que s conhecedor de tantas

    coisas pareces desconhecer esta, mas eu conheo-a porque fui discpulo do prprio

    Prdico. que me est a parecer que no sabes que talvez Simnides no

    entendesse esse "difcil" do mesmo modo que tu o entendes. como, por exemplo,

    a propsito de "terrvel", para o qual Prdico me chama a ateno frequentemente.

    341b Quando te aplaudo a ti ou qualquer outro digo que Protgoras um homem

    "terrivelmente sbio" e ele pergunta-me se no me envergonho de chamar

    "terrveis" as coisas boas. Porque o que terrvel, diz ele, mau; pelo menos,

    no comum falar-se de "uma terrvel riqueza", nem de "uma terrvel paz", nem de

    uma terrvel robustez, mas sim de "uma terrvel doena", de "uma terrvel

    guerra" e de "uma terrvel pobreza" - como se o que "terrvel" fosse mau.

    Provavelmente, os habitantes de Ceos e Simnides entendem este difcil ou

    como algo mau ou noutro sentido que tu desconheces. Perguntemos ento a

    Prdico - justo interrog-lo a ele sobre o dialecto de Simnides -: a que chama

    Simnides "difcil", Prdico?

  • 41

    341c - Ao que mau - respondeu ele.

    - Ora, por isso mesmo - no , Prdico? -, censura Ptaco porque diz que

    difcil ser nobre, como se lhe tivesse ouvido dizer que mau ser nobre.

    - Mas, Scrates - interrompeu ele -, parece-te ento que Simnides diz outras

    palavras que no sejam as que ouvimos e que ataca Ptaco por ele no saber

    distinguir correctamente os significados, uma vez que, sendo de Lesbos, foi criado

    numa lngua brbara?

    341d - Ests a ouvir aqui o Prdico, Protgoras... Queres dizer mais alguma

    coisa?

    Protgoras replicou:

    - As coisas no podem ser assim de modo nenhum, Prdico! Sem sombra de

    dvida, Simnides chama "difcil" ao mesmo que todos ns, no ao que mau,

    mas ao que no fcil e que s se consegue atravs de muitas provaes.

    - Pois a mim tambm me parece, Protgoras, que isso que Simnides diz, e

    Prdico bem o sabe, mas est a brincar e a pr-te prova para ver se podes

    sustentar a tua argumentao. 341e Mais, de que Simnides no diz dificil com

    sentido de mau, h uma boa prova logo a seguir a estas palavras. Ao dizer que

    somente um deus poder obter tal ddiva bvio que no faz a tal afirmao - que

    mau ser nobre-, se esclarece, em