Vol. L - Vol. I - · PDF filecepos de âncora em chumbo descobertos em águas...

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  • Vol. L - Vol. I

    IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRACOIMBRA UNIVERSITY PRESS

    Verso integral disponvel em digitalis.uc.pt

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  • HVMANITAS- Vol. L (1998)

    NAVEGAO, ECONOMIA RELAES INTERPROVINCIAIS. LUSITNIA BTICA

    V A S C O G I L M A N T A S

    Universidade de Coimbra

    O mar encontra-se presente na histria dos povos peninsulares desde h muito, quer se considere determinante a influncia do Mediterrneo ou a do Atlntico. Por isso, numa poca marcada por brilhantes comemoraes a pretexto da inquestionvel saga dos navegadores que criaram o mundo moderno, pareceu--nos apropriado retomar o tema da navegao peninsular durante o domnio romano, atravs da anlise das relaes martimas da Lusitnia1.

    O estudo das actividades nuticas lusitanas no tem merecido ateno significativa por parte dos investigadores, mesmo quando se tem procurado definir o lugar ocupado pelo comrcio martimo com o exterior na vida econmica provincial2. As razes deste aparente desinteresse resultam, em grande parte, quer da exiguidade dos testemunhos directamente relacionados com actividades martimas, quer das limitaes impostas pela geografia poltica pe-ninsular contempornea.

    1 Este trabalho foi redigido inicialmente em 1992 e actualizado em 1994 para publicao na revista Ans, o que ainda se no concretizou. A presente verso sofreu algumas alteraes, meramente pontuais, facilmente detectveis nas referncia bibliogrficas. Fontes abreviadas no texto: Corpus nscriptionum Latinarum, Berlim (=CIL); Ephemeris Epigraphica, Berlim (=EE); Hispnia Antiqua Epigraphica, Madrid (=HAE); J. Vives, Inscripciones Latinas de la Espana Romana, III, Barcelona, 1971-1972 (=ILER); Josd'Encarnao, Inscries Romanas do Conventus Pacensis, I-II, Coimbra, 1984 (=IRCP). Os mapas foram redesenhados pelo Dr. Lus Madeira.

    2 J.M. Blzquez, Historia econmica de la Hispnia Romana, Madrid, 1978 (=J.M. Blzquez, Historia econmica). Esta obra contm numerosas informaes dispersas, constituindo um til ponto de partida para a abordagem do problema. Para o territrio portugus: Jorge de Alarco, A produo e a circulao dos produtos, "Nova Histria de Portugal", I, Lisboa, 1990, p. 409-411 (=Alarco, Historia); Vasco Mantas, As cidades martimas da Lusitnia, "Les Villes de Lusitanie Romaine", Paris, 1990, p. 149-205 (=Mantas, Cidades); Robert tienne/Franoise May et, Laplace de la Lusitanie dans le commerce mediterranen, "Conimbriga", XXXII-XXXIII, 1993--1994, p. 201-218.

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  • 200 VASCO GIL MANTAS

    A situao geogrfica da Lusitnia (Fig. 1), as caractersticas da sua economia, fortemente marcada pela exportao de minrios e de produtos

    Fig. 1 -A situao geogrfica da Lusitnia

    alimentares, e o facto da provncia ter integrado inicialmente a Hispnia Ulte-rior so circunstncias que sugerem de imediato uma estreita relao entre a Lusitnia e a Btica no que se refere navegao comercial senso lato. Defen-demos esta hiptese, baseada na importncia da cabotagem na navegao antiga, na forma como foram organizadas as correntes comerciais entre a Pennsula e outras regies do Imprio e na integrao da extensa fachada martima lusitana num espao atlntico controlado durante o Alto Imprio a partir dos grandes portos bticos, num artigo publicado j h alguns anos e noutros que se lhe seguiram3. Tendo em conta os significativos progressos verificados na presente

    3 Vasco Mantas, Notas acerca de trs inscries de Olisipo, "Conimbriga", XV, 1976, p. 151-169 (=Mantas, Notas). Parece evidente que muitos investigadores estrangeiros continuam a ignorar (?) a bibliografia portuguesa: tienne/Mayet, p. 216-218; J.C. Edmondson, Two industries in Roman Lusitnia. Mining and Garum production, Oxford, 1987, p. 186-187.

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  • NAVEGAO, ECONOMIA RELAES INTERPROVINCIAIS 201

    dcada julgamos pertinente uma nova anlise das relaes entre os principais portos da Lusitnia e a Btica, reproduzindo com um mnimo de alteraes o texto do artigo que sobre o mesmo assunto redigimos h meia dzia de anos e que tarda a vir a lume, alteraes meramente pontuais e com total respeito pela argumentao e fontes que nele desenvolvemos e utilizmos4.

    Pouco se conhece, na realidade, da vida martima lusitana durante o domnio romano, por falta de testemunhos directos, situao que levou Orlando Ribeiro a minimiz-la radicalmente, valorizando um efeito de finisterra que s em parte correspondia s condies ento existentes na Pennsula Ibrica5. Todavia, apesar da falta de informao acerca dos portos lusitanos, quer no que se refere sua organizao, quer no tocante a vestgios arqueolgicos, assim como da quase total ausncia de estudos sobre os navios naufragados na costa lusitana6, pode reconstituir-se alguma coisa do trfico martimo luso-romano sobre os ainda poucos dados disponveis na actualidade, apesar de muito mais numerosos do que eram quando abordmos o assunto pela primeira vez, no final dos anos 70.

    Esta limitao patente a nvel das fontes epigrficas provinciais, muito reduzidas em nmero e prejudicadas por problemas de interpretao e, mesmo, de autenticidade. Conhece-se apenas uma inscrio monumental consagrada a Neptuno {CIL II 398), proveniente de um templo do frum de Bobadela7,

    4 No referido artigo desenvolvemos a hiptese anteriormente apresentada quanto subalternidade do comrcio martimo lusitano durante o Alto Imprio, elaborada quando eram quase nulos os testemunhos do referido trfico e no sentido de explicar tal circunstncia. Infelizmente os investigadores nacionais, quando os progressos da investigao vieram confirm-la, preferem citar o que se escreve no estrangeiro, o que nos levou a refazer este artigo e a public-lo em Portugal.

    5 Orlando Ribeiro, Introdues geogrficas histria de Portugal, Lisboa, 1977, p. 79--83. Contra esta interpretao podemos invocar os numerosos testemunhos de contactos com o mundo mediterrnico, nomeadamente na Idade do Ferro e no perodo romano. A queda do Imprio no implicou o. isolamento do Ocidente peninsular, pois a navegao manteve-se, ainda que reduzida, como provam os materiais arqueolgicos e a legislao visigtica. Finalmente, a invaso muulmana do sculo VIII integrou de novo o litoral atlntico num vasto espao comum, econmico e cultural, situao que vir a ser destruda com a Reconquista.

    6 Continua a no existir nenhum estudo publicado sobre navios romanos naufragados na nossa costa, embora se conhea a localizao de alguns. A maior parte da informao disponvel refere-se a achados de cepos de ncora e de nforas: Edmondson, p. 156; Francisco Alves et alii, Os cepos de ncora em chumbo descobertos em guas portuguesas. Contribuio para uma reflexo sobre a navegao ao longo da costa atlntica da Pennsula Ibrica na Antiguidade, "O Arquelogo Portugus", srie IV, 6-7, 1988-1989, p. 109-185.

    7 O templo de Neptuno seria o principal templo do foram de Bobadela, seguramente reformado pelos finais do sculo I graas ao evergetismo de Iulia Modesta (CIL II 397) e de C. Cantius Modestinus: A. Maia do Amaral, Sobre trs inscries perdidas de Bobadela, "Conimbriga",

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