VIVÊNCIA Ε EXPRESSÃO DE EROS EM SOFOCLES, .saber com rigor como se resolveria esta ambiguidade;

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48 JOS PEDRO SERRA

selvagem; na guerra anunciada, Argos pagar com a morte a vida casta das dplices suplicantes; no fundo, a "mo" culpada que justamente pede justia.

sobre esta fecunda ambiguidade'4, a que o coro das Argivas'' , em defesa de Afrodite, vem dar o toque final, que a tragdia 'As Suplicantes est construda. impossvel, mau grado o empenho de todas as suposies, saber com rigor como se resolveria esta ambiguidade; nesta pea, porm, parece certo que culpa e inocncia se colhem no mesmo regao.

Os exemplos apontados permitem-nos concluir que, muito embora o tema do eros no seja dominante no teatro de Esquilo, ele encontra-se subjacente s grandes questes tratadas por este autor. Seria estranho, de resto, se assim no fosse. Um homem to atento ao equilbrio e proporo, to sensvel justia e ordem que governam a realidade, to empenhado em mostrar os caminhos da aprendizagem pelo sofrimento, um tal homem no poderia ignorar a fora de eros, nem que seja para denunciar excessos que o desfiguram ou cegueiras que o traem. No reverso, porm, desse retrato negativo, brilha intocvel a resplandecente luz de eros.

34 A hiptese de uma evoluo do carcter das Danaides no sentido de uma radicalizao de atitude, comeando numa estrita recusa dos primos e terminando na misandria, no me suscita aprovao. Em primeiro lugar, como princpio geral, entendo que interpretar a tragdia grega a partir da evoluo do carcter tender para a inadequada psicologizao da tragdia. Em segundo lugar, concretamente, penso que a ambiguidade est dada de incio e, por essa razo, no encontro essa ntida progresso no sentido da misandria.

"Cf. vv. 1034-1051.

HVMANITAS - Vol. LIV (2002) 49-62

MARIA DO CU FIALHO

Universidade de Coimbra

VIVNCIA EXPRESSO DE EROS EM SOFOCLES, TRAQUNIAS

(Tradio e Novidade)

As Traqunias distinguem-se, no elenco das tragdias de Sfocles que at ns chegaram, pela estrutura diversa do seu prlogo o mais breve de entre os sete prlogos conservados, logo seguido do de Antgona. A longa interveno monolgica da protagonista, seguida de um breve dilogo, destoa do dilogo marcado por progressiva rapidez nas outras peas.

Motivo da longa interveno de Dejanira a ansiedade pela longa ausncia, sem notcias, de Hracles, agravada pelo seu gesto partida: a entrega das tabuinhas com as suas disposies testamentrias. O teor do texto, porm, s ser mencionado posteriormente ao Coro. Um outro motivo de ansiedade o teor das profecias de Dodona tambm s ser explici-tado mais tarde, como argumento de exortao para a partida de Hilo em busca do pai.

Toda a rhesis de Dejanira se articula, at rematar com o motivo da pre-sente ansiedade, como um percurso por uma existncia em que a sua condi-o de mulher , desde bem cedo, marcada pela angstia e atormentada pelo medo frente a situaes de ameaa que no domina e em que o seu destino se joga, na deciso ou no confronto 4e terceiros. Esta ameaa toma primeiro forma na violncia do desejo amoroso com que procurada por monstros (as mltiplas formas que o rio Aqueloo assume, vv. 6-14) e na expectativa perante a deciso paterna (vv. 15-17), depois na expectativa do desenlace da luta em que, de novo, o impulso amoroso compele agora Hracles e Aqueloo a disputarem a jovem (vv. 18-25).

A beleza da donzela nbil, estmulo natural do himeros com que eros opera, converte-se, assim, em perigosa fonte de dor. Por fim, o desenlace

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propcio inaugura uma outraiase de ansiedade: a da companheira solitria de uma figura de destino excepcional (vv. 27-35).

Dois aspectos ressaltam nesta viso panormica da existncia de Deja-nira: a experincia negativa dos efeitos da fora de eros e o estatuto de dependncia da figura feminina, primeiro da deciso paterna, depois do des-fecho da luta e por fim do destino de um Hracles sempre ausente e con-frontado com perigos, pela excepcionalidade do seu destino .

A escolha de um Coro feminino, constitudo por mulheres de Trquis que deu o nome pea , permitiu a Sfocles perspectivar a vivncia da orquestra em relao situao da protagonista como compreensiva afinidade e simpatia, de que o prodo faz eco, nos dois primeiros momentos que o constituem2: o da prece ansiosa omnividncia de Hlios para iluminar o paradeiro de Hracles (primeira estrofe) e o da percepo da situao de Dejanira (primeira antstrofe), sublinhando o contraste entre as lutas de outrora pela sua posse e a solido ansiosa do presente, referenciada s evos (.109-0) e marcada por pothos, termo ambguo de expresso de saudade e de desejo, que no contexto vale essencialmente na primeira das acepes (v.107).

O terceiro dos momentos, que compreende o segundo par de estrofes e o epodo, constitui uma exortao esperana, a partir da constatao de que sempre Hracles se salva do perigo e de que, na corrente alternada de dor e de prazer com que a tradio grega percebe a vida humana o que Pndaro to concisa e poeticamente formulouJ , foroso que a prpria dor conhea um fim.

A esperana (TUS), no contexto da exortao lrica de Traquinias, revela uma dupla dimenso de ironia trgica: o pressuposto de que parte o Coro, de que dor presente se seguir fatalmente um tempo de prosperidade, pela lei da alternncia cclica, falha no caso de Dejanira . Esperana , pois, sinnimo de cegueira, a mesma cegueira que impedir Dejanira e Hracles de entenderem, na alternativa do orculo, a coincidncia de opostos o fim dos

1 Sobre os aspectos do mito colhidos na tradio potica grega e laborados na dramatizao trgica por Sfocles, veja-se H. Flashar, Sophokles. Dichter im demokratischen Athen, cap. VI, Munchen, Beck Verlag, 2000.

2 Sobre as estratgias de configurao dos coros sofoclianos, veja-se R. W. B. Burton, The Chorus in Sophocles Tragedies, Oxford Univ. Press, 1980.

2 O. 2. 31-34. 4 Veja-se a nota 12 traduo da pea em M. C. Fialho, Sfocles. As

Traquinias, introd., verso do grego e notas, Coimbra, Centro de Estudos Clssicos e Humansticos, 1989 .

VIVNCIA EXPRESSO DE EROS EM SFOCLES, TRAQUINIAS 51

trabalhos de Hracles e o fim da sua vida so um s , a mesma cegueira que no deixar Dejanira apreender o verdadeiro sentido das palavras de Nessos.

Por outro lado, saber o amor de Hracles perdido e perceber a sua pr-pria situao de desvantagem em relao ao novo objecto amoroso suscitar em Dejanira aquela esperana v, prpria da cegueira amorosa, de recuperar, por meios excepcionais, a ateno do amado.

O espectador, apto a perceber que tem diante de si a dramatizao dos ltimos momentos da vida de Hracles, pode apreender, na ironia trgica das ltimas palavras do Coro, os primeiros indcios de associao entre o trgico da cegueira cognitiva e dos efeitos da fora devastadora de eros.

A noo de que a estrutura dptica de Ajax, Antgona e Traquinias sinal de incipincia dramatrgica encontra-se, desde h muito, ultrapassada na investigao sofociiana, para dar lugar, nos nossos dias, conscincia de que tal estrutura representa uma tcnica de composio intencionalmente utilizada, corrrespondente a uma fase da presena do autor e utilizada com objectivos definidos6. Ora o efeito expressivo do dptico de Traquinias con-siste, exactamente, em realar a distncia entre o universo de Dejanira e o de Hracles, que nunca se encontram em cena7. Hracles constitui no s o objecto da preocupao constante de Dejanira, patente nas suas palavras, como o prprio sentido e motor da sua aco recuper-lo, a partir da expe-rincia de privao e de segura desvantagem frente vantagem que a natu-reza confere a outra mulher.

Em contrapartida, Dejanira est ausente do esprito de Hracles, cen-trado na sua prpria dor e no seu destino. As nicas palavras que sobre ela profere so de profundo rancor pelo desastre provocado, e o erro fatal de Dejanira, convertido em tema do relato de Hilo, nico fio de ligao entre as duas figuras, proporcionar o ensejo para que Hracles reconhea, por fim, ao

" Poder o orculo, sob a forma de falsa alternativa, pouco ou nada aduzir ao desenrolar da aco na pea, conforme observa E. Schwinge, Die Stellung der Trachinierinnen im Werk des Sophokles, Gttingen, Vandenhoeck und Rupreht, 1962, p. 102, mas a sua percepo, como uma ilusria disjuno que mais tarde, no momento da queda, vir a revelar-se como uma equivalncia, contribui para esboar com clareza a cegueira trgica das figuras.

6 O estudo de T. A. Szlzak, "Zweiteilige Dramenstruktur bei Sophokles und Euripides", Potica, 14, 1982, 1-23, representa um importante marco na investigao sofociiana ao defender, com unia slida fundamentao, que a estrutura dptica um recurso de composio consciente e com objectivos dramticos muito concretos.

7 todavia os destinos de Dejanira e Hracles esto profundamente ligados, ainda que na incomunicabilidade. Vide ~G. Gellie, Sophocles. A Reading, Melbourne Univ. Press, 1972, p. 56.

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52 MARIA DO CEU FIALHO

ouvir nomear Nessos, de que modo se articulam as predies de Zeus e o orculo de Dodona (vv. 143-144 e 1157-1163), assinalando para este memento a sua morte, sob a aparente forma de alternativa processo de reconhecimento da situao do heri e do seu erro de percepo to do gosto de Sfocles.

Ao canto do Coro e s palavras de angstia reiteradas por Dejanira, agora encorajada a partilhar com as Traqunias o contedo das tabuinhas deixadas por Hracles, respondem os factos, projectando a herona numa fugaz iluso de que as suas aflies conhecem um termo, como se o racioc-nio do Coro no prodo se confirmasse.

o regresso triunfal de Hracles vitorioso que se anuncia, em todo o esplendor, e que faz associar, na euforia do momento, o pan exaltado do Coro ao jbilo da protagonista .

O cortejo de cativas pe Dejanira frente a uma ole cuja identidade des-conhece. O silncio impenetrvel da jovem prisioneira de guerra, interrogada