DESTINO DAS FORMAS ANALÍTICAS DO COMPARATIVO DE ...· ... mais bem e mais mal são, ao ... do...

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  • HVMANITAS-Vol. L(1998)

    DESTINO DAS "FORMAS ANALTICAS" DO "COMPARATIVO DE SUPERIORIDADE" DE DOIS

    ADVRBIOS DERIVADOS DE ADJECTIVOS: BEM MAL

    HENRIQUE BARROSO

    Universidade do Minho

    0. Introduo

    Na origem deste breve estudo (talvez mais propriamente: desta notcia) est, ainda para os nossos ouvidos e/ ou olhos (isto , no nosso idiolecto, mas tambmtemos a certezano de muitos outros), o uso/ emprego "inadequado" (= no conforme com as regras gramaticais ainda em vigor) de ambas as formas disponveis para a expresso do "comparativo de superioridade" de bem e mal (advrbios derivados de adjectivos1) por parte de falantes e/ ou escreventes do portugus europeu actual (muitos jornalistas, alguns escritores e outros cronistas) que o deveriam, se no no reflexivamente (possuem essa competncia) pelo menos reflexivamente, conhecer/ dominar.

    1. Das formas que expressam o "comparativo de superioridade"de bem e mal

    Os advrbios bem e mal derivam por alternncia temtica dos adjectivos bom e mau, respectivamente. Melhor e pior so, tambm respectivamente, as formas que expressam o "comparativo de superioridade" destes adjectivos; e,

    1 Esta classe adverbial (os derivados de adjectivos qualificativos), essencialmente, mas tambm uns quantos de natureza temporal e de quantidade so susceptveis de gradao tal como os adjectivos (cf., por exemplo, VZQUEZ CUESTA/ LUZ: 1983,455; CUNHA/ CINTRA: 1984, 544 e FIGUEIREDO/ FERREIRA: 1973, 284).

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    como se sabe, so formas que o portugus no produziu pelos seus prprios meios2, mas herdou do sistema lingustico latino.

    Diferentemente do que se passa com os adjectivos acabados de considerar, os advrbios deles derivados dispem de duas formas cada para a expresso do referido valor ("comparativo de superioridade"), a saber: melhor e mais bem, para bem; pior e mais mal, para mal. Melhor e pior so as formas sintticas (tambm denominadas 'formas anmalas'); mais bem e mais mal so, ao invs, as formas analticas (designadas tambm 'formas regulares').

    2. Do comportamento actual das formas que expressam o "compara-

    tivo de superioridade"de bem e mal

    Uma vez que as lnguas enquanto sistemas se regem, entre outros, pelo princpio da economia (tendem a pr - e, com o tempo, pem mesmo - de parte aquilo que redundante), como explicar, pelo menos em alguns idiolectos do portugus europeu actual, a (co)existncia de duas expresses para a(s) mesma(s) funo(es), a saber: "comparativo de superioridade" + bem, por um lado, e "comparativo de superioridade" + mal, por outro lado? Ser que se trata de variantes livres (ou facultativas)? Ou, pelo contrrio, estaremos na presena de variantes em distribuio complementar (ou variantes combinatrias/ contextuais)? Ou, ainda, de ambas as coisas (variao livre e variao complementar) ao mesmo tempo? Ou, por fim, tratar-se- de um caso de ebulio lingustica?

    Para tentarmos responder com objectividade a estas questes, observe-mos, num primeiro momento, um corpus de ocorrncias (exemplos) cuja an-lise nos conduzir ( esse o nosso objectivo), num segundo momento, ao co-nhecimento das regras (ou princpios) que regulam (e ao mesmo tempo nos explicam) o funcionamento (e, consequentemente, o respectivo emprego por parte dos usurios do portugus europeu) das diferentes formas que expressam, pois, o "comparativo de superioridade" de bem e mal.

    2 Se assim fosse, teramos mais bom e mais mau. Sobre estas formas e respectivo (mas restrito/ especial) uso, cf. CUNHA/ CINTRA (1984: 262, l.s observao) e FIGUEIREDO/ FERREIRA (1973: 191, 3 .s observao).

  • FORMAS ANALTICAS DO COMP. DE SUPR. DE BEM MAL 829

    (1) Que era isto seno doce poesia, como ela abrolha nas mais bem formadas al-

    mas?

    [Camilo Castelo Branco, Jos do Telhado, p. 19]

    (2) Foi sobretudo nas aulas mais mal preparadas que o professor estagirio reve-

    lou a sua verdadeira vocao docente.

    [Exemplo nosso]

    (3a) Isto podia ser/ estar bem/ malfeito.

    (3b) Isto podia ser/ estar mais bem/mais malfeito.

    [Exemplos nossos]

    (4) Os empresrios continuam a pagar bem/mal, mas gostariam de pagar melhor/

    pior.

    [Exemplo nosso]

    (5)^4 Teresa est bem/mal, mas podia estar melhor/pior.

    (6a) Este terreno podia ser/foi mais bem aproveitado.

    (6b) Este terreno podia ser/foi aproveitado melhor.

    (7a) A festa correu pior/ mais mal do que eu supunha.

    (7b) A festa correu melhor/ *mais bem do que eu supunha.

    [Exemplo nosso]

    [Exemplos nossos]

    [Exemplos nossos]

    (8) Retrato da equipa pior classificada de Portugal.

    [Pblico (Magazine), 1995/06/11]

    (9) Outro indispensvel risco da carreira docente deve ser a mobilidade. Para a

    garantir, os concursos tm de ser de facto abertos, facultando a qualquer do-

    cente e investigador de mrito o acesso a vagas em escolas mais prestigiadas,

    com melhores meios ou melhor situadas.

    [Pblico (artigo de opinio), 1995/10/19]

    (10) Os desportistas esto melhor equipados emocionalmente que os no-despor-

    tistaspara enfrentar o desafio do cancro?

    [Sbado, n.2 251, 02 a 08/04/1993]

  • 830 HENRIQUE BARROSO

    (11) Rgio um dos nossos autores pior interpretados.

    [Pblico (texto de Agustina Bessa Lus), 1996/06/16]

    (12) (...) e que tm permitido que os portugueses estejam cada vez melhor infor-mados sobre como prevenir alguns tipos de cancro e como fazer o seu diagns-

    tico precoce.

    [folheto informativo do Ncleo Regional do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro/ Abril de 1998]

    (13) O facto de estar melhor preparada do que a maioria das mulheres tem a ver

    com a sua origem sria crist?

    [Expresso (Cartaz), 1998/05/09]

    (14) Cabe aos jornalistas africanos tornar as suas respectivas realidades nacionais

    melhor conhecidas do pblico externo.

    [Boletim da CPLP, n.2 5 (p. 12), Maro de 1998]3

    Observado que foi o corpus, j estamos em condies de podermos (pelo menos, tentarmos) responder s perguntas acima formuladas: afirmativamente, s o podemos fazer em relao s duas ltimas; no que diz respeito s duas primeiras, a afirmao sem mais no basta. Vejamos, ento, porqu.

    Mais bem e mais mal, em (1) e (2), explicam-se porque os advrbios intensificam um adjectivo participial (formadas epreparadas, respectivamente) que qualifica um nome (almas e aulas, tambm respectivamente) claramente expresso4; em (3a) e (3b), porque os advrbios modificam o particpio passado do verbo auxiliado (feito) na construo passiva: de aco (ser) e de estado (estar); por seu turno, melhor epior, em (4) e (5), explicam-se por os advrbios se encontrarem num contexto diferente dos dois anteriores (aqui so modificadores do predicado). Isto quer significar quee tendo em considerao os exemplos at agora tratadosmais bem e mais mal s ocorrem nos contextos em que melhor e pior no podem ocorrer, e vice-versa. Estamos, neste caso,

    3 Estas so, pois, as ocorrncias que coligimos e seleccionmos para podermos averiguar do(s) fenmeno(s) em anlise. No se trata de um corpus extenso (tambm no necessrio), mas suficientemente elucidativo/ ilustrativo da problemtica em epgrafe.

    4 De maneira semelhante e muito sinopticamente, CUNHA/ CINTRA (1984: 546) e VAZQUEZ CUESTA/ LUZ (1983: 455) chamam tambm a ateno para esta especificidade de pelo menos alguns idiolectos, como j aqui assinalmos, da lngua portuguesa.

  • FORMAS ANALTICAS DO COMP. DE SUPR. DE BEM MAL 831

    diante de variantes em distribuio complementar (ou variantes combi-

    natrias/ contextuais).

    As ocorrncias (6a) e (6b) que se explicam pelas razes j aduzidas

    para (3b) e (4) e (5) suscitam-nos ainda a seguinte observao: se o advrbio

    (no grau "comparativo de superioridade") modifica o predicado (seja ele simples

    ou complexo) na sua globalidade, a forma sinttica que ocorre, e sempre de-

    pois daquele [ o caso de (6b)]; se, pelo contrrio, s modifica parte do predicado

    (obrigatoriamente um particpio), ocorre a forma analtica, mas precedendo-o

    [ o que se passa em (6a)].

    Antes de uma orao comparativa introduzida por que (ou do que), ape-

    nas mal admite ambas as formas do "comparativo de superioridade" dispon-

    veis (o falante/ escrevente pode usar ora uma, ora outra, ora ambas: trata-se,

    portanto, de variantes livres); bem apresenta um comportamento completa-

    mente diferente: s admite a forma sinttica (a analtica aqui impossvel). As

    ocorrncias (7a) e (7b) documentam, respectivamente, as situaes acabadas

    de descrever.

    De (8) a (14) e de acordo, por exemplo, com o nosso idiolecto dever-

    -se-ia ter, conforme os casos concretos, ou mais mal ou mais bem, em vez de

    pior ou melhor a registados. Estes exemplos documentam, pois, a tendncia

    cada vez mais acentuada para se usar apenas a forma sinttica (emprstimo

    latino), e em todos os contextos.

    Considerando-o na sua globalidade, o corpus documenta a (co)existncia,

    num mesmo estado sincrnico (portugus europeu contemporneo), de fe-

    nmenos vrios: variao livre, variao complementar e predileco por uma

    forma em detrimento da outra: tudo isto, por si s, revelador de um estado de

    ebulio lingustica que um dia, evidentemente, cessar e apresentar os seus

    resultados. Todavia, s num estado lingustico posterior ao nosso que se poder

    saber quais.

    3. Do muito provvel comportamento das formas que expressam o

    "comparativo de superioridade" de bem e mal

    A preferncia pelas formas sintticas (os emprstimos latinos) em detri-

    mento das analticas (as produzidas pelas regras do sistema lingustico portu-

    gus ainda em vigor) do "comparativo de superioridade" de bem e mal mais

    do q