COMPORTAMENTO DE VARIÁVEIS SOCIAIS NO USO DA LATERAL ...· de variação, de ordem ... em três...

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Web-Revista SOCIODIALETO www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras UEMS/Campo Grande M e s t r a d o e m L e t r a s U E M S / C a m p o G r a n d e I SSN : 217 8 -148 6 Vo l u m e 2 N m er o 1 j u l h o 201 2

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COMPORTAMENTO DE VARIVEIS SOCIAIS NO USO DA

LATERAL PALATAL //: UM ESTUDO SOCIOLINGUSTICO EM

DOIS CORPORA

Josenildo Barbosa Freire(SEEC RN)

Josenildo.bfreire@hotmail.com

RESUMO: Este artigo o estudo variacionista da realizao do fonema lateral // em dois dialetos de

divisas de Estado: Nova Cruz (RN), localizada na microrregio Agreste Potiguar, e Jacara (PB),

localizada na microrregio da Mata Paraibana, Litoral Norte do Estado da Paraba e que so cidades

vizinhas limtrofes. Neste sentido, busca-se realizar estudo examinando como trs variveis

sociolingusticas podem exercer influncia na realizao da varivel [], em particular sexo, faixa etria e

anos de escolarizao. Diversas pesquisas sociolingusticas tm apontado que essas trs variveis

influenciam a aplicao de uma regra varivel (LABOV, 1966; FREIRE, 2011). Para anlise tomam-se os

pressupostos terico-metodolgicos da Teoria da Variao (LABOV, 1963). Ao se estudar a realizao do

segmento // em dois corpora, acredita-se que os padres de comportamento das variveis sociais aqui

consideradas podem exibir comportamentos diferentes, uma vez que as relaes sociais mantidas pelos

falantes envolvidos no estudo podem ser dinmicas e gerar dependncia entre elas. A hiptese central que

guia o estudo a de que as variveis extralingusticas adotadas nesse estudo exercem influncia durante a

realizao da variante [] nos dialetos estudados

Palavras-chave: variao; lateral palatal; variveis sociais.

1. Introduo

Este artigo o estudo variacionista da realizao do fonema lateral // em dois

dialetos de divisas de Estado: Nova Cruz (RN), localizada na microrregio Agreste

Potiguar, e Jacara (PB), localizada na microrregio da Mata Paraibana, Litoral Norte

do Estado da Paraba e que so cidades vizinhas limtrofes.

Neste sentido, busca-se realizar estudo comparativo examinando como trs

variveis sociolingusticas podem exercer influncia na realizao da varivel [], em

particular sexo, faixa etria e anos de escolarizao. Diversas pesquisas

sociolingusticas tm apontado que essas trs variveis influenciam a aplicao de uma

regra varivel (LABOV, 1966; FREIRE, 2011).

Ao se comparar a realizao do segmento // em dois corpora, acredita-se que os

padres de comportamento das variveis sociais aqui consideradas podem exibir

mailto:Josenildo.bfreire@hotmail.com

Web-Revista SOCIODIALETO www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras UEMS/Campo Grande M e s t r a d o e m L e t r a s U E M S / C a m p o G r a n d e I SSN : 217 8 -148 6 Vo l u m e 2 N m er o 1 j u l h o 201 2

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comportamentos diferentes, uma vez que as relaes sociais mantidas pelos falantes

envolvidos no estudo podem ser dinmicas e gerar dependncia entre elas.

A hiptese central que guia o estudo a de que as variveis extralingusticas

adotadas nesse estudo exercem influncia durante a realizao da variante [] nos

dialetos estudados.

Ressalta-se que em virtude da amplitude da anlise, limita-se a examinar os

fatores extralingusticos relacionados ao processo em questo, ficando os elementos

lingusticos ou estruturais para anlises posteriores. A abordagem nessa perspectiva

visa, tambm, descrever de forma detalhada o comportamento dessas variveis no

fenmeno em discusso.

Para devida anlise, o estudo est assim organizado: em 2, descreve-se o objeto

de estudo e suas variantes lingusticas; em 3, apresenta-se a fundamentao terica

adotada; em 4, detalha-se a influncia das variveis sociais na aplicao de regras

sociolingusticas; em 5, descrevem-se a metodologia e os corpora; em 6, prov-se os

resultados de nossa pesquisa e, discute-se as implicaes desses resultados para a

anlise lingustica; e, finalmente, em 7, as concluses do artigo.

2. Objeto de Estudo

A lateral palatal est includa em um grupo de segmentos (as lquidas)1 que

aparece tardiamente no sistema fonolgico dos falantes devido ao seu carter bastante

complexo, tanto do ponto de vista articulatrio quanto fonolgico (MEZZOMO e

RIBAS, 2004).

Para que haja a produo das lquidas necessria uma ocluso da corrente de ar

na cavidade oral, causada pela lngua. Esse fechamento parcial e possibilita que o ar

saia pelos lados da boca, produzindo, assim, o segmento lateral palatal (MEZZOMO e

RIBAS, op. cit.). J segundo Silva (2005, p. 34), para que as laterais sejam produzidas,

necessrio que o articulador ativo (parte mdia da lngua) toque o articulador passivo

(parte mdia do palato duro) e a corrente de ar seja obstruda na linha central do trato

1 Segundo Dickey (1997, p. 1), quase todas as lnguas do mundo tm uma lquida.

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vocal. O ar expelido, ento, pelos lados desta obstruo, gerando os segmentos

laterais.

O segmento lateral palatal considerado geminado fonologicamente

(WETZELS, 2000), constitudo de dois tempos para ser produzido. Alm disso,

apresenta um trao que expressa articulao maior [N Ponto de Articulao de

Consoante] e uma articulao menor [N Voclico]. Por ser um segmento geminado

fonologicamente, o // apresenta as seguintes caractersticas:

1) limitado posio intervoclica2 das palavras:

a) Bauni//a

b) Te//a

2) No pode ser precedido por uma rima ramificada, nem por vogais nasais:

a) Fa//a

3) A vogal que imediatamente o precede sempre acentuada3:

a) T//a

b) M//a

Diferentes estudos (ARAGO, 1999; CASTRO, 2006; BRANDO, 2007) tm

revelado que o segmento // apresenta a realizao de quatro variantes concorrendo

entre si, respectivamente [], [l], [j] e [].

A lateral alveolar outra variante do segmento // aqui controlado. De acordo

com Silva (2005, p. 65), a realizao de [ ~ l] constitui-se a segunda alternativa4

articulatria daquele segmento, e para que ocorra tal processo necessrio que o falante

levante a ponta da lngua em direo aos alvolos ou aos dentes incisivos superiores,

para a corrente de ar escapar lateralmente5. Cagliari (1974, p. 80) tambm afirma que

2 Esta viso tambm compartilhada por Cagliari (1974, p. 112) ao afirmar que a lateral palatal sempre comea slaba e s se realiza nessa posio. Exceto para alguns clticos como lhe(s),lhas, lho e de lhama,

emprstimo do espanhol llama. 3 Exceto para os vocbulos classificados como verbos, uma vez que o acento desses vocbulos

condicionado pela morfologia. 4 A primeira alternativa articulatria, segundo a autora, a realizada como consoante lateral palatal.

5 Cmara Jr (1988, apud ESPIGA, op. cit., p. 122) descreve a articulao do /l/ semelhante descrio

feita por Silva (2005).

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em portugus o segmento // tende a ser realizado com /l/6 e se localiza sempre na parte

pr-palatal.

A semivocalizao do //7 tambm ser controlada neste trabalho, como no

exemplo [mu//er ~ mu/j/er]. De acordo com Cagliari (op. cit., p. 93-94), esse processo

de variao, de ordem sociolingustica, corrente entre falantes de classe social baixa e

de pouca escolaridade, e at atestado em diferentes dialetos. Ainda segundo Cagliari

(op. cit., p. 117), outra causa das mudanas das palatais, como [ ~ j8], est no

enfraquecimento articulatrio pelo qual passa esse segmento ao ser produzido. Cruz

(2009, p. 53) compreende esse processo de variao como um fato puramente fontico,

e Coutinho (1976, apud CRUZ, 2009, p. 53) o entende como sendo um fenmeno de

metaplasmo por permuta.

Cardoso (2010, p. 59-60), ao apresentar dados do Atlas Diatpico e Diastrtico

do Uruguai, aponta a existncia da iotizao da lateral palatal no espanhol uruguaio de

informantes da classe baixa e pertencentes segunda faixa etria, em trs tipos de

situao: leitura de texto, resposta ao questionrio e conversao espontnea.

A ltima variante lingustica da lateral palatal a ser examinada nesta pesquisa

sua realizao como zero fontico, como nos exemplos [mu//er ~ mu; fi//o ~ fio].

Essa variao, j atestada em Silva (1997), evidencia que a lateral palatal pode sofrer

apagamento total, desaparecendo-se dos nveis mtricos e meldicos do segmento.

3. Fundamentao Terica

Foi a partir dos trabalhos de William Labov (1963, 1966) sobre o ingls falado

na ilha de Marthas Vineyard, no Estado de Massachusetts (Estados Unidos) e sobre o

estudo do ingls vernacular falado em Nova Iorque que os estudos variacion