APOSTILA FILOSOFIA E POLÍTICAS...

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INSTITUTO EDUCACIONAL ALFA APOSTILA FILOSOFIA E POLÍTICAS EDUCACIONAIS MINAS GERAIS
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  • INSTITUTO EDUCACIONAL ALFA

    APOSTILA FILOSOFIA E POLTICAS

    EDUCACIONAIS

    MINAS GERAIS

  • 2

    FILOSOFIA

    A palavra "filosofia" (do grego) uma composio de duas palavras: philos

    () e sophia (). A primeira uma derivao de philia () que significa

    amizade, amor fraterno e respeito entre os iguais; a segunda significa sabedoria ou

    simplesmente saber. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e

    respeito pelo saber; e o filsofo, por sua vez, seria aquele que ama e busca a

    sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber.

    A tradio atribui ao filsofo Pitgoras de Samos (que viveu no sculo V a.C.)

    a criao da palavra. Conforme essa tradio, Pitgoras teria cunhado o termo para

    modestamente ressaltar que a sabedoria plena e perfeita seria atributo apenas dos

    deuses; os homens, no entanto, poderiam vener-la e am-la na qualidade de

    filsofos.

    A palavra philosopha no simplesmente uma inveno moderna a partir de

    termos gregos; mas, sim, um emprstimo tomado da prpria lngua grega. Os termos

    (philosophos) e (philosophein) j teriam sido empregados por

    alguns pr-socrticos (Herclito, Pitgoras e Grgias) e pelos historiadores Herdoto

    e Tucdides. Em Scrates e Plato, acentuada a oposio entre e ,

    em que o ltimo termo exprime certa modstia e certo ceticismo em relao ao

    conhecimento humano.

    O conceito de "filosofia" sofreu, no transcorrer da histria, vrias alteraes e

    restries em sua abrangncia. As concepes do que seja a filosofia e quais so os

    seus objetos de estudo tambm se alteram conforme a escola ou movimento

    filosfico. Essa variedade presente na histria da filosofia e nas escolas e correntes

    filosficas tornam praticamente impossveis elaborar uma definio universalmente

  • 3

    vlida de filosofia. Definir a filosofia realizar uma tarefa metafilosfica. Em outras

    palavras, fazer uma filosofia da filosofia. O socilogo e filsofo alemo Georg

    Simmel ressaltou esse ponto ao dizer que um dos primeiros problemas da filosofia

    o de investigar e estabelecer a sua prpria natureza. Talvez a filosofia seja a nica

    disciplina que se volte para si mesma dessa maneira. O objeto da fsica no ,

    certamente, a prpria cincia da fsica, mas os fenmenos pticos e eltricos, entre

    outros. A filologia ocupa-se de registros textuais antigos e da evoluo das lnguas,

    mas no se ocupa de si mesma. A filosofia, no entanto, move-se neste curioso

    crculo: ela determina os pressupostos de seu mtodo de pensar e os seus

    propsitos atravs de seus prprios mtodos de pensar e propsitos. No h como

    apreender o conceito de filosofia fora da

    filosofia; pois somente a filosofia pode

    determinar o que a filosofia.

    Plato e Aristteles concordam em

    caracterizar a filosofia como uma atividade

    racional estimulada pelo assombro ou

    admirao. Mas, para Plato, o assombro

    provocado pela instabilidade e

    contradies dos seres que percebemos

    pelos sentidos. A filosofia, no quadro platnico, seria a tentativa de superar esse

    mundo de coisas efmeras e mutveis e apreender racionalmente a realidade

    ltima, composta por formas eternas e imutveis que, segundo Plato, s podem ser

    captadas pela razo. Para Aristteles, ao contrrio, no h separao entre, de um

    lado, um mundo apreendido pelos sentidos e, de outro lado, um mundo

    exclusivamente captado pela razo. A filosofia seria uma investigao das causas e

    princpios fundamentais de uma nica e mesma realidade. O filsofo, segundo

    Aristteles, conhece, na medida do possvel, todas as coisas, embora no possua

    a cincia de cada uma delas por si. A filosofia almejaria o conhecimento universal,

    no no sentido de um acmulo enciclopdico de todos os fatos e processos que se

    possam investigar, mas no sentido de uma compreenso dos princpios mais

    fundamentais, dos quais dependeriam os objetos particulares a que se dedicam as

    demais cincias, artes e ofcios. Aristteles considera que a filosofia, como cincia

    das causas e princpios primordiais, acabaria por identificar-se com a teologia, pois

    Deus seria o princpio dos princpios.

  • 4

    As definies de filosofia elaboradas depois de Plato e Aristteles separaram

    a filosofia em duas partes: uma filosofia terica e uma filosofia prtica. Como reflexo

    da busca por salvao ou redeno pessoal, a filosofia prtica foi gradativamente se

    tornando um sucedneo da f religiosa e acabou por ganhar precedncia em relao

    parte terica da filosofia. A filosofia passa a ser concebida como uma arte de viver,

    que forneceria aos homens regras e prescries sobre como agir e como se portar

    diante das inconstncias do mundo. Essa concepo muito clara em diversas

    correntes da filosofia helenstica, como, por exemplo, no estoicismo e no

    neoplatonismo.

    As definies de filosofia formuladas na Antiguidade persistiram na poca de

    disseminao e consolidao do cristianismo, mas isso no impediu que as

    concepes crists exercessem influncia e moldassem novas maneiras de se

    entender a filosofia. As definies de filosofia elaboradas durante a Idade Mdia

    foram coordenadas aos servios que o pensamento filosfico poderia prestar

    compreenso e sistematizao da f religiosa. Desse modo, a filosofia passa a ser

    concebida como serva da teologia (ancilla theologiae); e vrios telogos

    importantes buscam harmonizar a doutrina sagrada com o pensamento filosfico

    pago.

    Os medievais mantiveram a acepo de filosofia como saber prtico, como

    uma busca de normas ou recomendaes para se alcanar a plenitude da vida.

    Santo Isidoro de Sevilha, ainda no sculo VII, definia a filosofia como o

    conhecimento das coisas humanas e

    divinas combinado com uma busca pela

    vida moralmente boa.

    Tanto na Idade Mdia como em

    qualquer outra poca da histria

    ocidental, a compreenso do que a

    filosofia reflete uma preocupao com

    questes essenciais para a vida humana

    em seus mltiplos aspectos. As

    concepes de filosofia do

    Renascimento e da Idade Moderna no

    so excees. Tambm a as noes do que seja a filosofia sintetizam as tentativas

    de oferecer respostas substantivas aos problemas mais inquietantes da poca. O

  • 5

    advento da era moderna fez ruir as prprias bases da sabedoria tradicional; e imps

    aos intelectuais a tarefa de encontrar novas formas de conhecimento que pudessem

    restabelecer a confiana no intelecto e na razo. Para Francis Bacon - um dos

    primeiros filsofos modernos - a filosofia no deveria se contentar com uma atitude

    meramente contemplativa, como queriam os antigos e medievais; ao contrrio,

    deveria buscar o conhecimento das essncias das coisas a fim de obter o controle

    sobre os fenmenos naturais e, portanto, submeter natureza aos desgnios

    humanos.

    Para Descartes, a filosofia, na qualidade de metafsica, a investigao das

    causas primeiras, dos princpios fundamentais. Esses princpios devem ser claros e

    evidentes, e devem formar uma base segura a partir da qual se possam derivar as

    outras formas de conhecimento. nesse sentido, entendendo-se a filosofia como o

    conjunto de todos os saberes e a metafsica como a investigao das primeiras

    causas, que se deve ler a famosa

    metfora de Descartes: Assim, a

    Filosofia uma rvore, cujas razes

    so a Metafsica, o tronco a Fsica, e

    os ramos que saem do tronco so

    todas as outras cincias.

    Aps Descartes, a filosofia

    assume uma postura crtica em relao

    a suas prprias aspiraes e

    contedos. Os empiristas britnicos, influenciados pelas novas aquisies da cincia

    moderna, dedicaram-se a situar a investigao filosfica nos limites do que pode ser

    avaliado pela experincia. Segundo a orientao empirista, argumentos tradicionais

    da filosofia, como as demonstraes da existncia de Deus, da imortalidade da alma

    e de essncias imutveis seriam invlidos, uma vez que as ideias com que operam

    no so adequadamente derivadas da experincia. De maneira anloga, Kant, ao

    elaborar sua doutrina da filosofia transcendental, rejeita a possibilidade de

    tratamento cientfico de muitos dos problemas da filosofia tradicional, uma vez que a

    adequada soluo deles demandaria recursos que ultrapassam as capacidades do

    intelecto humano.

    O empirismo britnico e o idealismo de Kant acentuam uma caracterstica

    freqentemente destacada na filosofia: a de ser um "pensar sobre o pensamento" ou

  • 6

    um "conhecer o conhecimento". Essa concepo reflexiva da filosofia, do

    pensamento que se volta para si mesmo, influenciar vrios autores e escolas

    filosficas, tanto do sculo XIX como do sculo XX. A fenomenologia, por exemplo,

    considerar a filosofia como um empreendimento eminentemente reflexivo. Segundo

    Edmund Husserl - o fundador da fenomenologia - a filosofia uma cincia rigorosa

    dos fenmenos tal como nos aparecem, ou seja, tal como a nossa conscincia

    deles. Para descrev-los, o filsofo deve pr entre parnteses todas as suas

    pressuposies e preconceitos (at mesmo a certeza de que os objetos existem) e

    restringir-se apenas aos contedos da conscincia.

    Com a virada lingstica do incio do sculo XX, muitos filsofos passam a

    considerar a filosofia como uma anlise de conceitos. Para Wittgenstein, os

    problemas filosficos tradicionais so todos resultantes de confuses lingsticas; e

    a tarefa do filsofo seria a de esclarecer o modo como os conceitos so empregados

    a fim de explicitar tais confuses. Numa abordagem mais positiva sobre a atividade

    filosfica, Strawson considera que a filosofia anloga gramtica: assim como os

    estudiosos da gramtica explicitam as regras que os falantes inconscientemente

    empregam, a filosofia explicitaria conceitos-chave que, na construo de nossas

    concepes e argumentos, adotamos sem ter plena conscincia de suas

    implicaes e relaes.

    1. HISTRIA DA FILOSOFIA

    A Histria da Filosofia no apenas um relato histrico, mas as

    transformaes do pensamento humano ocidental, ou seja, o percurso do

    pensamento ocidental; o modo pelo qual essa forma de pensar influenciou a

    realidade e, ao mesmo tempo, foi resultado dessa realidade histrica.

    A Histria da Filosofia pode ser estudada a

    partir de seis perodos:

    1. Filosofia Antiga

    2. Filosofia Medieval

    3. Filosofia do Renascimento

    4. Filosofia Moderna

    5. Filosofia do Sculo XIX

    6. Filosofia do sculo XX

  • 7

    1.1 FILOSOFIA ANTIGA

    A filosofia antiga teve incio no sculo VI-VII A.C. e se estendeu at a

    decadncia do imprio romano no sculo V D.C.

    Pode-se dividi-la em quatro perodos: (1) o perodo dos pr-socrticos; (2) um

    perodo humanista, em que Scrates e os sofistas trouxeram as questes morais

    para o centro do debate filosfico; (3) o perodo ureo da filosofia em Atenas, em

    que despontaram Plato e Aristteles; (4) e o perodo helenstico. s vezes se

    distingue um quinto perodo, que compreende os primeiros filsofos cristos e os

    neoplatonistas. Os dois autores mais importantes da filosofia antiga em termos de

    influncia posterior foram Plato e Aristteles.

    Os primeiros filsofos gregos, geralmente chamados de pr-socrticos,

    dedicaram-se a especulaes sobre a constituio e a origem do mundo. O principal

    intuito desses filsofos era descobrir um elemento primordial, eterno e imutvel que

    fosse a matria bsica de todas as coisas. Essa substncia imutvel era chamada

    de physis (palavra grega cuja traduo literal seria natureza, mas que na concepo

    dos primeiros filsofos compreendia a totalidade dos seres, inclusive entidades

    divinas) e, por essa razo, os primeiros filsofos tambm foram conhecidos como os

    physiologoi (literalmente os filsofos que se dedicavam ao estudo da physis).

    A teoria de Demcrito representou o pice da filosofia da physis, mas tambm

    o seu esgotamento. As transformaes

    sociopolticas, especialmente em

    Atenas, j impunham novas demandas

    aos sbios da poca. A democracia

    ateniense solicitava novas habilidades

    intelectuais, sobretudo a capacidade de

    persuadir. nesse momento que se

    destacam os filsofos que se dedicam

    justamente a ensinar retrica e as

    tcnicas de persuaso os sofistas. O ofcio dessa nova espcie de filsofos trazia

    como pressuposto a ideia de que no h verdades absolutas. O importante seria

    dominar as tcnicas da boa argumentao, pois, dominando essas tcnicas, o

  • 8

    indivduo poderia defender qualquer opinio, sem se preocupar com a questo de

    sua veracidade. De fato, para os sofistas, a busca da verdade era uma pretenso

    intil. A verdade seria apenas uma questo de aceitao coletiva de uma crena, e,

    a princpio, no haveria nada que impedisse que o que hoje tomado como

    verdade, amanh fosse considerado uma tolice.

    O contraponto a esse relativismo dos sofistas foi Scrates. Embora

    partilhasse com os sofistas certa indiferena em relao aos valores tradicionais,

    Scrates dedicou-se busca de valores perenes. Scrates no deixou nenhum

    registro escrito de suas ideias. Tudo o que sabemos dele chegou-nos atravs do

    testemunho de seus discpulos e contemporneos. Segundo dizem, Scrates teria

    defendido que a virtude conhecimento e as faltas morais provm da ignorncia. O

    indivduo que adquirisse o conhecimento perfeito seria inevitavelmente bom e feliz.

    FILOSOFIA MEDIEVAL

    A filosofia medieval a filosofia da Europa ocidental e do Oriente Mdio

    durante a Idade Mdia. Comea, aproximadamente, com a cristianizao do imprio

    romano e encerra-se com a Renascena. A filosofia medieval pode ser considerada,

    em parte, como prolongamento da filosofia greco-romana e, em parte, como uma

    tentativa de conciliar o conhecimento secular e a doutrina sagrada.

    A Idade Mdia carregou por muito tempo o epteto depreciativo de "idade das

    trevas", atribudo pelos humanistas renascentistas; e a filosofia desenvolvida nessa

    poca padeceu do mesmo desprezo. No entanto, essa era de aproximadamente mil

    anos foi o mais longo perodo de desenvolvimento filosfico na Europa e um dos

    mais ricos. Jorge Garcia defende que em intensidade, sofisticao e aquisies,

    pode-se corretamente dizer que o florescimento filosfico no sculo XIII rivaliza com

    a poca urea da filosofia grega no sculo IV a. C.

    Entre os principais problemas discutidos nessa poca esto: a relao entre

    f e razo, a existncia e unidade de Deus, o objeto da teologia e da metafsica, os

    problemas do conhecimento, dos universais e da individualizao.

  • 9

    Entre os filsofos medievais do ocidente, merecem destaque Agostinho de

    Hipona, Bocio, Anselmo de Canturia,

    Pedro Abelardo, Roger Bacon,

    Boaventura de Bagnoregio, Toms de

    Aquino, Joo Duns Escoto, Guilherme de

    Ockham e Jean Buridan; na civilizao

    islmica, Avicena e Averrois; entre os

    judeus, Moiss Maimnides.

    Toms de Aquino (1225-1274),

    fundador do tomismo, exerceu influncia

    inigualvel na filosofia e na teologia

    medievais. Em sua obra, ele deu grande

    importncia razo e argumentao, e procurou elaborar uma sntese entre a

    doutrina crist e a filosofia aristotlica. A filosofia de Toms de Aquino representou

    uma reorientao significativa do pensamento filosfico medieval, at ento muito

    influenciado pelo neoplatonismo e sua reinterpretao agostiniana.

    FILOSOFIA DO RENASCIMENTO

    A transio da Idade Mdia para a Idade Moderna foi marcada pelo

    Renascimento e pelo Humanismo. Nesse perodo de transio, a redescoberta de

    textos da Antiguidade contribuiu para que o interesse filosfico sasse dos estudos

    tcnicos de lgica, metafsica e teologia e se voltasse para estudos eclticos nas

    reas da filologia, da moralidade e do misticismo.

  • 10

    O Homem vitruviano, de Leonardo Da Vinci, resume vrios dos ideais do pensamento renascentista.

    Os estudos dos clssicos e das letras receberam uma nfase indita e

    desenvolveram-se de modo independente da escolstica tradicional. A produo e

    disseminao do conhecimento e das artes deixam de ser uma exclusividade das

    universidades e dos acadmicos profissionais, e isso contribui para que a filosofia v

    aos poucos se desvencilhando da teologia. Em lugar de Deus e da religio, o

    conceito de homem assume o centro das ocupaes artsticas, literrias e

    filosficas.

    O renascimento revigorou a concepo da natureza como um todo orgnico,

    sujeito compreenso e influncia humanas. De uma forma ou de outra, essa

    concepo est presente nos trabalhos de Nicolau de Cusa, Giordano Bruno,

    Bernardino Telesio e Galileu Galilei. Essa reinterpretao da natureza

    acompanhada, em muitos casos, de um intenso interesse por magia, hermetismo e

    astrologia considerados ento como instrumentos de compreenso e manipulao

    da natureza.

    medida que a autoridade eclesial cedia lugar autoridade secular e que o

    foco dos interesses voltava-se para a poltica em detrimento da religio, as

    rivalidades entre os Estados nacionais e as crises internas demandavam no

  • 11

    apenas solues prticas emergenciais, mas tambm uma profunda reflexo sobre

    questes pertinentes filosofia poltica. Desse modo, a filosofia poltica, que por

    vrios sculos esteve dormente, recebeu um novo impulso durante o Renascimento.

    Nessa rea, destacam-se as obras de Nicolau Maquiavel e Jean Bodin.

    FILOSOFIA MODERNA

    Ren Descartes, fundador da filosofia moderna e do racionalismo.

    A filosofia moderna caracterizada pela preponderncia da epistemologia

    sobre a metafsica. A justificativa dos filsofos modernos para essa alterao estava,

    em parte, na ideia de que, antes de querer conhecer tudo o que existe, seria

    conveniente conhecer o que se pode conhecer.

    Os principais debates dessa poca foram, portanto, debates epistemolgicos.

    O racionalismo, a escola que ressalta o papel da razo na aquisio do

    conhecimento, teve como principais protagonistas Ren Descartes, Baruch Spinoza

    e Gottfried Leibniz. Por outro lado, a escola empirista, que defende que a nossa

    nica fonte de conhecimento a experincia, teve como defensores Francis Bacon,

    John Locke, David Hume e George Berkeley.

  • 12

    Em 1778, Immanuel Kant publicou a sua famosa Crtica da Razo Pura, em

    que rejeita aquelas duas correntes e prope uma alternativa. Segundo Kant, apesar

    de o nosso conhecimento depender de nossas percepes sensoriais, essas no

    constituem todo o nosso conhecimento, pois existem determinadas estruturas do

    sujeito que as antecedem e tornam possvel a prpria formao da experincia. O

    espao, por exemplo, no uma realidade que passivamente assimilamos a partir

    de nossas impresses sensoriais. Ao contrrio, somos ns que impomos uma

    organizao espacial aos objetos. Do mesmo modo, o sujeito no aprende, aps

    inmeras experincias, que todas as ocorrncias pressupem uma causa; antes, a

    estrutura peculiar do sujeito que impe aos fenmenos uma organizao de causa e

    efeito. Uma das consequncias da filosofia kantiana estabelecer que as coisas em

    si mesmas no possam ser conhecidas. A fronteira de nosso conhecimento

    delineada pelos fenmenos, isto , pelos resultados da interao da realidade

    objetiva com os esquemas cognitivos do sujeito.

    Na Frana, difundiram-se as ideias do empirismo ingls; e o entusiasmo com

    as novas cincias levou os intelectuais franceses a defender uma ampla reforma

    cultural, que remodelasse no s a forma de se produzir conhecimento, mas

    tambm as formas de organizao social e poltica. Esse movimento amplo e

    contestatrio ficou conhecido como Iluminismo. Os filsofos iluministas rejeitavam

    qualquer forma de crena que se baseasse apenas na tradio e na autoridade, em

  • 13

    especial as divulgadas pela Igreja Catlica. Um dos marcos do Iluminismo francs foi

    publicao da Encyclopdie. Elaborada sob a direo de Jean Le Rond dAlembert

    e Denis Diderot, essa obra enciclopdica inovadora incorporou vrios dos valores

    defendidos pelos iluministas e contou com a colaborao de vrios de seus nomes

    mais destacados, como Voltaire, Montesquieu e Rousseau.

    FILOSOFIA DO SCULO XIX

    Geralmente se considera que depois da filosofia de Kant tem incio uma nova

    etapa da filosofia, que se caracterizaria por ser uma continuao e,

    simultaneamente, uma reao filosofia kantiana. Nesse perodo desenvolve-se o

    idealismo alemo (Feche, Schelling e Hegel), que leva as ideias kantianas s ltimas

    consequncias. A noo de que h um universo inteiro (a realidade em si mesma)

    inalcanvel ao conhecimento humano, levou os idealistas alemes a assimilar a

    realidade objetiva ao prprio sujeito no intuito de resolver o problema da separao

    fundamental entre sujeito e objeto. Assim, por exemplo, Hegel postulou que o

    universo esprito. O conjunto dos seres humanos, sua histria, sua arte, sua

    cincia e sua religio so apenas manifestaes desse esprito absoluto em sua

    marcha dinmica rumo ao autoconhecimento.

  • 14

    Enquanto na Alemanha, o idealismo apoderava-se do debate filosfico, na

    Frana, Auguste Comte retomava uma orientao mais prxima das cincias e

    inaugurava o positivismo e a sociologia. Na viso de Comte, a humanidade progride

    por trs estgios: o estgio teolgico, o estgio metafsico e, por fim, o estgio

    positivo. No primeiro estgio, as explicaes so dadas em termos mitolgicos ou

    religiosos; no segundo, as explicaes tornam-se abstratas, mas ainda carecem de

    cientificidade; no terceiro estgio, a compreenso da realidade se d em termos de

    leis empricas de sucesso e semelhana entre os fenmenos. Para Comte, a plena

    realizao desse terceiro estgio histrico, em que o pensamento cientfico

    suplantaria todos os demais, representaria a aquisio da felicidade e da perfeio.

    Tambm no campo do desenvolvimento histrico, Marx e Engels davam uma

    nova formulao ao socialismo. Eles fazem uma releitura materialista da dialtica de

    Hegel no intuito de analisar e condenar o sistema capitalista. Desenvolvem a teoria

    da mais-valia, segundo a qual o lucro dos capitalistas dependeria inevitavelmente da

    explorao do proletariado. Sustentam que o estado, as formas poltico-institucionais

    e as concepes ideolgicas formavam uma superestrutura construda sobre a base

    das relaes de produo e que as contradies resultantes entre essa base

    econmica e a superestrutura levariam as sociedades inevitavelmente revoluo e

    ao socialismo.

    FILOSOFIA DO SCULO XX

    No sculo XX, a filosofia

    tornou-se uma disciplina

    profissionalizada das

    universidades, semelhante s

    demais disciplinas acadmicas.

    Desse modo, tornou-se tambm

    menos geral e mais

    especializada. Na opinio de um

    proeminente filsofo: a filosofia

    tem se tornado uma disciplina

  • 15

    altamente organizada, feita por especialistas para especialistas. O nmero de

    filsofos cresceu exponencialmente, expandiu-se o volume de publicaes e

    multiplicaram-se as subreas de rigorosa investigao filosfica. Hoje, no s o

    campo mais amplo da filosofia demasiadamente vasto para uma nica mente, mas

    algo similar tambm verdadeiro em muitas de suas subreas altamente

    especializadas.

    Nos pases de lngua inglesa, a filosofia analtica tornou-se a escola

    dominante. Na primeira metade do sculo, foi uma escola coesa, fortemente

    modelada pelo positivismo lgico, unificada pela noo de que os problemas

    filosficos podem e devem ser resolvidos por anlise lgica.

    Os filsofos britnicos Bertrand Russell e George Edward Moore so

    geralmente considerados os fundadores desse movimento. Ambos romperam com a

    tradio idealista que predominava na Inglaterra em fins do sculo XIX e buscaram

    um mtodo filosfico que se afastasse das tendncias espiritualistas e totalizantes

    do idealismo. Moore dedicou-se a analisar crenas do senso comum e a justific-las

    diante das crticas da filosofia acadmica. Russell, por sua vez, buscou reaproximar

    a filosofia da tradio empirista britnica e sintoniz-la com as descobertas e

    avanos cientficos. Ao elaborar sua teoria das descries definidas, Russell

    mostrou como resolver um problema filosfico empregando os recursos da nova

    lgica matemtica.

    A partir desse novo modelo proposto por Russell, vrios filsofos se

    convenceram de que a maioria dos problemas da filosofia tradicional, se no todos,

    no seriam nada mais que confuses propiciadas pelas ambiguidades e imprecises

    da linguagem natural. Quando tratados numa linguagem cientfica rigorosa, esses

    problemas revelar-se-iam como simples confuses e mal-entendidos.

    Uma postura ligeiramente diferente foi adotada por Ludwig Wittgenstein,

    discpulo de Russell. Segundo Wittgenstein, os recursos da lgica matemtica

    serviriam para revelar as formas lgicas que se escondem por trs da linguagem

    comum. Para Wittgenstein, a lgica a prpria condio de sentido de qualquer

    sistema lingustico. Essa ideia est associada sua teoria pictrica do significado,

    segundo a qual a linguagem capaz de representar o mundo por ser uma figurao

    lgica dos estados de coisas que compem a realidade.

    Sob a inspirao dos trabalhos de Russell e de Wittgenstein, o Crculo de

    Viena passou a defender uma forma de empirismo que assimilasse os avanos

  • 16

    realizados nas cincias formais, especialmente na lgica. Essa verso atualizada do

    empirismo tornou-se universalmente conhecida como neopositivismo ou positivismo

    lgico. O Crculo de Viena consistia numa reunio de intelectuais oriundos de

    diversas reas (filosofia, fsica, matemtica, sociologia, etc.) que tinham em comum

    uma profunda desconfiana em relao a temas de teor metafsico. Para esses

    filsofos e cientistas, caberia filosofia elaborar ferramentas tericas aptas a

    esclarecer os conceitos fundamentais das cincias e revelar os pontos de contatos

    entre os diversos ramos do conhecimento cientfico. Nessa tarefa, seria importante

    mostrar, entre outras coisas, como enunciados altamente abstratos das cincias

    poderiam ser rigorosamente reduzidos a frases sobre a nossa experincia imediata.

    OS MTODOS DA FILOSOFIA

    Os trabalhos filosficos so realizados mediante tcnicas e procedimentos

    que integram os cnones do pensamento racional. Tradicionalmente, a filosofia

    destaca e privilegia a argumentao lgica, em linguagem natural ou em linguagem

    simblica, como a ferramenta por excelncia da apresentao e discusso de

    teorias filosficas.

    A argumentao lgica est associada a dois elementos importantes: a

    articulao rigorosa dos conceitos e a correta concatenao das premissas e

    concluses, de modo que essas ltimas sejam derivaes incontestveis das

    primeiras.

  • 17

    Toda a ideia filosfica

    relevante inevitavelmente

    submetida a escrutnio crtico; e a

    presena de falhas na

    argumentao frequentemente o

    primeiro alvo das crticas. Desse

    modo, o destino de uma tese

    qualquer que no esteja amparada

    por argumentos slidos e

    convincentes ser, freqentemente,

    o da severa rejeio por parte da comunidade filosfica.

    Embora a reflexo sobre os princpios e mtodos da lgica s tenha sido

    realizada por Aristteles, a nfase na argumentao lgica e na crtica solidez dos

    argumentos uma caracterstica que acompanha a filosofia desde os seus

    primrdios. A prpria ruptura entre o pensamento mtico-religioso e o pensamento

    racional assinalada pela adoo de uma postura argumentativa e crtica em

    relao s explicaes tradicionais. Quando Anaximandro rejeitou as explicaes de

    seu mestre Tales de Mileto e props concepes alternativas sobre a natureza e

    estrutura do cosmos, que provavelmente a seu juzo seriam mais corretas que as do

    antigo mestre, o pensamento humano dava seus primeiro passos em direo ao

    debate franco, pblico e aberto de ideias, orientado apenas por critrios racionais de

    correo, como forma destacada de se aperfeioar o conhecimento; e abandonava,

    assim, as narrativas tradicionais sobre a origem e composio do universo, apoiadas

    na autoridade inquestionvel da tradio ou em ensinamentos esotricos.

    Mas no se podem restringir os mtodos da filosofia apenas nfase geral na

    argumentao lgica e na crtica sistemtica s teorias apresentadas. Nas grandes

    tradies da histria da filosofia, podem ser identificadas duas orientaes bem

    abrangentes, cujos objetivos e tcnicas tendem a diferir radicalmente: existem as

    escolas que privilegiam uma abordagem analtica dos problemas filosficos e

    aquelas que optam por uma abordagem predominantemente sinttica ou sinptica.

  • 18

    A orientao analtica exemplificada nos trabalhos filosficos que se

    dedicam decomposio de um conceito em suas partes constituintes e ao exame

    criterioso das relaes lgicas e conceptuais

    explicitadas pela anlise. O exemplo clssico a

    anlise do conceito de conhecimento.

    A reflexo sobre a natureza do

    conhecimento levou os filsofos a decompor a

    noo de conhecimento em trs noes

    associadas: crena, verdade e justificao. Para

    que algo seja conhecimento imprescindvel que

    seja antes uma crena em outras palavras, o

    conhecimento uma espcie diferenciada do

    gnero mais abrangente da crena. A pergunta

    bvia que essa primeira constatao sugere : o

    que diferencia, ento, o conhecimento das demais formas de crena? Nesse ponto,

    o exame do conceito conduz a duas noes distintas.

    Em primeiro lugar, chega-se noo de verdade. Intuitivamente sabemos que

    acreditar que a Lua gira em torno da Terra diferente de acreditar que Papai Noel

    existe a primeira crena verdadeira; a segunda, falsa. Portanto, para que seja

    promovida condio de conhecimento, a crena deve ser verdadeira. Em segundo

    lugar, chega-se noo de justificao. Alm de sustentar uma crena verdadeira, o

    sujeito deve ser capaz de apresentar os meios ou as fontes, consideradas

    universalmente legtimas, que lhe propiciaram chegar crena em questo. Feito

    esse exame, a concluso a clebre frmula: o conhecimento crena verdadeira e

    justificada. Nesse e em muitos outros casos envolvendo noes filosoficamente

    relevantes, o trabalho de anlise capaz de explicitar pressupostos importantes

    implicitamente presentes no uso dos conceitos.

    A outra orientao a sinttica percorre o caminho oposto ao da anlise.

    Os adeptos dessa orientao buscam elaborar uma sntese de vrias noes

    relevantes e apresent-las como um todo harmnico. s vezes chamada de

    filosofia especulativa, essa orientao filosfica pretende revelar princpios

    universais que possam reunir organicamente vrios elementos dspares, que

    aparentemente no guardam relaes relevantes entre si. Um caso paradigmtico

    dessa orientao a filosofia hegeliana, cujo fito integrar numa dinmica pantesta

  • 19

    a evoluo das mais diversas formas de manifestao da cultura humana artes,

    leis, governos, religies, cincias e filosofias.

    DISCIPLINAS FILOSFICAS

    A filosofia geralmente dividida em reas de investigao especfica. Em

    cada rea, a pesquisa filosfica dedica-se elucidao de problemas prprios,

    embora sejam muito comuns as interconexes. As reas tradicionais da filosofia so

    as seguintes:

    Epistemologia ou teoria do conhecimento: a rea da filosofia que estuda a

    natureza do conhecimento, sua origem e seus limites. Dessa forma, entre as

    questes tpicas da epistemologia esto: O que diferencia o conhecimento de

    outras formas de crena?, O que podemos conhecer?, Como chegamos a ter

    conhecimento de algo?

    tica ou filosofia moral: a rea da filosofia que trata das distines entre o certo e

    o errado, entre o bem e o mal.

    Procura identificar os meios mais

    adequados para aprimorar a vida

    moral e para alcanar uma vida

    moralmente boa. Tambm no

    campo da tica do-se as

    discusses a respeito dos

    princpios e das regras morais

    que norteiam a vida em

    sociedade, e sobre quais seriam as justificativas racionais para adotar essas regras

    e princpios.

    Filosofia da Arte ou Esttica: entre as investigaes dessa rea, encontram-se

    aquelas sobre a natureza da arte e da experincia esttica, sobre como a

  • 20

    experincia esttica se diferencia de outras formas de experincia, e sobre o prprio

    conceito de belo.

    Lgica: a rea que trata das estruturas formais

    do raciocnio perfeito ou seja, daqueles

    raciocnios cuja concluso preserva a verdade

    das premissas. Na lgica so estudados,

    portanto, os mtodos e princpios que permitem

    distinguir os raciocnios corretos dos raciocnios

    incorretos.

    Metafsica: ocupa-se da elaborao de teorias sobre a realidade e sobre a natureza

    fundamental de todas as coisas. O objetivo da metafsica fornecer uma viso

    abrangente do mundo uma viso sinptica que rena em si os diversos aspectos

    da realidade. Uma das subreas da metafsica a ontologia (literalmente, a cincia

    do "ser"), cujo tema principal a elaborao de escalas de realidade. Nesse sentido,

    a ontologia buscaria identificar as entidades bsicas ou elementares da realidade e

    mostrar como essas se relacionam com os demais objetos ou indivduos - de

    existncia dependente ou derivada.

  • 21

    NASCIMENTO DA FILOSOFIA E O DESENVOLVIMENTO DA

    CONSCINCIA HUMANA

    A Cincia Antiga e a Cincia Moderna

    Filosofia Medieval Crist constituiu-se do pensamento cristo e da cincia

    antiga. A cincia antiga tinha como base o dogmatismo: era especulativa e partia de

    interpretaes da Bblia. A cincia antiga era baseada na lgica e na demonstrao

    de verdade, sem considerar a observao e a experincia. o caso da teoria

    geocntrica, ou seja, a teoria que postulava que a terra o centro do universo

    vigorava h quase vinte sculos e constitua a maneira pela qual o homem antigo e

    medieval via a si mesmo e ao mundo.

    A concepo medieval crist via o homem como o ser supremo da criao

    divina e a terra era o centro do universo. A teoria de que a terra era o centro do

    mundo, geocentrismo, era uma explicao que justificava tal viso. A cincia antiga

    era um corpo de verdades tericas universais, de certezas definitivas, que no

    admitiam erros, mudanas ou crtica.

    O novo perodo Idade Moderna - vai significar uma ruptura com essa

    concepo de mundo dogmtica, que no permitia a reflexo e a crtica, por isso,

    mais uma vez vamos abordar sobre a filosofia moderna, enfatizando sobre a sua

    importncia para o desenvolvimento do conhecimento humano.

    FILOSOFIA MODERNA: SEC. XVII E XVIII

    Aps a Idade Mdia, h um perodo

    de transio entre o sculo XV e XVI para a

    Idade Moderna, que significou ruptura com a

    tradio anterior crist, fundamentada em

    Deus, e passou-se a valorizar o homem. o

    perodo chamado Humanismo

    Renascentista: artes plsticas, valorizao

    do homem - liberdade e criatividade. o

  • 22

    momento em que se rompe com a viso sagrada e teolgica na arte, no

    pensamento, na poltica, na literatura. Os pensadores desse perodo passam a

    valorizar o saber dos gregos antigos. Valoriza-se o homem e rompe-se com o

    pensamento teocntrico, que considera Deus como o centro de tudo, e a Cincia

    Antiga.

    A Idade Moderna traz a proposta de uma nova ordem e viso de mundo,

    rejeitando a autoridade imposta pelos costumes e pela hierarquia da nobreza e

    Igreja, em favor da recuperao do que h de virtuoso, intuitivo e espontneo na

    natureza humana. Surge um novo estilo com nova temtica.

    Valoriza-se o corpo humano, artes, pensamento, poltica, cincia. o

    momento de novos pensadores e artistas, tais como Leonardo da Vince, William

    Shakespeare, Rafael, Maquiavel, Michelangelo, Montaigne.

    As condies histricas

    Surge uma nova maneira de pensar e ver o mundo, resultado das

    transformaes histricas que ocorreram na Europa. Entre os fatores histricos,

    pode-se destacar:

    O humanismo renascentista do sec. XV

    A descoberta do Novo Mundo (sec. XV)

    A Reforma Protestante do sec. XVI

    A revoluo cientfica do sec. XVII

    Desenvolvimento do mercantilismo e ruptura da economia feudal

    Grandes ncleos urbanos e a inveno da imprensa.

    O humanismo renascentista do sec. XV

    Nasceu na pennsula itlica, sendo um

    perodo de transio entre a Idade Mdia e a

    Moderna. Rompeu com a filosofia crist da

    escolstica medieval e, valoriza o saber dos gregos

  • 23

    antigos, retomando a concepo do humanismo. O perodo medieval, anterior, foi

    marcado por uma forte viso hierrquica e religiosa de mundo, em que a arte est

    voltada para o sagrado, filosofia est vinculada teologia e problemtica religiosa.

    O homem e seus atributos de liberdade e razo passam a ser importantes

    novamente, e no apenas as o mundo divino. Nas artes predomina os temas

    pagos, afastados da temtica religiosa. a arte voltada para o homem comum, no

    mais reis e santos. Valoriza-se o corpo e a dignidade humana.

    Thomas Morus, em a Utopia, defende a tolerncia religiosa, critica o

    autoritarismo dos reis e da Igreja, favorecendo a razo e a virtude natural.

    Maquiavel, autor escreveu O Prncipe, inaugurou o pensamento moderno da

    poltica, em que faz uma anlise do poder como fato poltico, independente das

    questes morais.

    A descoberta do Novo Mundo

    Outro fator importante que levou a mudana do pensamento moderno foi

    descoberta do Novo Mundo, pois revelou a falsidade e fragilidade da geografia

    antiga, o desconhecimento da flora e fauna encontradas. Revelou tambm a falta de

    conhecimento de outros povos e culturas. Muita coisa precisava ser reformulada.

    A cincia antiga perde a autoridade questionada, pois nada explica sobre a

    nova realidade e suas narrativas. Acreditava que a terra era plana, desconhecem

    os novos habitantes dessas terras descobertas, sua natureza, sua origem, sua

    cultura, to distintas da europia.

    A Reforma Protestante

    Martin Lutero contesta a

    autoridade da Igreja marcada pela

    corrupo e passa a valorizar a

    conscincia individual de buscar a

    prpria f, sem ser pela imposio das verdades dogmticas. Rompe com Igreja

    Catlica e funda a Igreja protestante.

  • 24

    Essa nova igreja prope e representa, assim, a defesa da liberdade individual

    e da conscincia em lugar da certeza, valorizando a ideia de que o indivduo capaz

    de encontrar sua prpria verdade religiosa.

    A revoluo cientfica moderna

    Outro fator essencial desse processo de

    transformao a revoluo cientfica que

    significou o ponto de partida para a cincia nos

    moldes que conhecemos hoje. Nicolau

    Coprnico no sculo XVI vai defender

    matematicamente que a Terra gira em torno do

    Sol, rompendo com o sistema geocntrico de

    Ptolomeu (sec.II) e inspirado em Aristteles.

    A teoria do geocentrismo vigorava h quase vinte sculos e era maneira pela

    qual o homem antigo e medieval via a si mesmo e ao mundo. A cincia moderna

    surge quando se torna mais importante observar e experimentar, ao contrrio da

    viso antiga que partia de princpios estabelecidos e dogmticos.

    um processo de transio e no uma ruptura radical. Ao longo desse

    processo surgem Galileu e Isaac Newton, entre outros, que vo transformar a viso

    cientfica do sculo XVII seguinte.

    O rompimento com a cincia antiga revelou uma concepo de distinto do

    universo antigo, que fechado, finito e geocntrico. A nova cincia prope o modelo

    heliocntrico e o universo infinito. A cincia ativa valoriza a observao e o

    mtodo experimental, une cincia e tcnica. A cincia antiga contemplativa, separa

    cincia e tcnica.

    No sculo XVII a Filosofia e a Cincia se separam. Galileu, usando um

    telescpio, demonstra o modelo de desenvolvido por Coprnico. Vai ser interpelado

    pela Igreja. Entre os principais pensadores daquele momento, destacam-se:

    _ Coprnico, um sacerdote polons, props a teoria heliocntrica que atingia a

    concepo medieval crist de que o homem ser supremo da criao divina e que

    por isso a terra o centro do universo.

  • 25

    _ Giordano Bruno leva adiante a ideia de Coprnico e desenvolve a concepo de

    universo infinito. condenado e morre queimado vivo na fogueira.

    _ Galileu Galilei contribuiu com descobertas cientficas, como o aperfeioamento do

    telescpio, e com uma nova postura metodolgica de investigao cientfica:

    observao, experimentao, uso da linguagem matemtica. Por condenar os

    dogmas tradicionais da Igreja, tambm foi condenado pela Inquisio, mas optou por

    viver e seguiu fazendo suas pesquisas clandestinamente.

    A revoluo cientfica pode ser considerada uma grande realizao do esprito

    crtico humano, e acaba concentrando sua ateno na natureza do universo, na

    cincia da natureza.

    Desenvolvimento do mercantilismo e ruptura da economia feudal

    O mercantilismo antecede ao desenvolvimento da indstria e trouxe novas

    necessidades com o surgimento da burguesia, diferentes dos interesses da nobreza.

    Grandes ncleos urbanos e a inveno da imprensa

    Surgimento dos grandes centros urbanos leva a novos valores e

    necessidades. E a inveno da Imprensa permite que as ideias possam ser

    publicadas e difundidas.

  • 26

    SOBRE A PRODUO DO CONHECIMENTO

    A Idade Moderna um perodo marcado

    por grandes transformaes. Estas transformaes

    e o desenvolvimento da cincia moderna levaram o

    homem a questionar os critrios e os mtodos

    usados para aquisio do conhecimento verdadeiro

    da realidade.

    Como podemos conhecer? Quais os

    fundamentos do conhecimento? O que

    conhecer? Essas questes so essenciais pra a

    cincia, a tica e epistemologia. A Filosofia

    Moderna vai enfrentar o prestgio que o pensamento de Aristteles tinha e a

    supremacia da doutrina da Igreja, na Idade Mdia, e inaugurou um modo novo de

    conceber e compreender o conhecimento. O sculo XVII viu nascer o mtodo

    experimental e a possibilidade de explicao mecnica e matemtica do Universo,

    que deu origem cincia moderna.

    A partir desses questionamentos, duas novas perspectivas para o saber, s

    vezes complementares, s vezes antagnica. Surgem o racionalismo e o empirismo.

    O racionalismo e o empirismo constituem novos paradigmas da filosofia

    moderna para conhecer a realidade.

    O que a razo? Existem vrios sentidos de razo no nosso dia a dia. A

    Filosofia se define como conhecimento racional da realidade natural e cultural, das

    coisas e dos seres humanos. A razo a organizao e ordenao de ideias, para

    assim poder sistematiz-las.

    A razo atividade intelectual de conhecimento da realidade natural, social,

    psicolgica, histrica. Possui um ideal de clareza, de ordenao e de rigor e

    preciso dos pensamentos e de palavras.

    A razo, em sua origem, a capacidade intelectual de pensar e exprimir-se

    correta e claramente, de modo a organizar e ordenar a realidade, os seres, os fatos

    e as ideias.

  • 27

    Desde o comeo da Filosofia, a origem da palavra razo fez com que ela

    fosse considerada oposta a quatro outras atitudes mentais:

    Ao conhecimento ilusrio

    s emoes, aos sentimentos, s paixes,

    crena religiosa, em que a verdade nos dada pela f numa revelao

    divina

    Ao xtase mstico

    A Filosofia Moderna foi o perodo em que mais se confiou nos poderes da

    razo para conhecer e conquistar a realidade e o homem por isso foi chamado de

    Grande Racionalismo Clssico. O marco dessa forma de pensamento Ren

    Descarte, matemtico e filsofo, inventor da geometria analtica. O mtodo escolhido

    o matemtico, por ser o exemplo de conhecimento integral racional.

    RACIONALISMO

    O racionalismo sustenta que h um tipo de

    conhecimento que surge diretamente da razo.

    baseado nos princpios da busca da certeza e da

    demonstrao, sustentados por um conhecimento que

    no vm da experincia e so elaborados somente

    pela razo.

    O racionalismo considera que o homem tem ideias inatas, ou seja, que no

    so derivadas da experincia, mas se encontram no indivduo desde seu nascimento

    e desconfia das percepes sensoriais. Enquanto a cincia crist e antiga constitua

    um corpo de verdades tericas universais, de certezas definitivas, no admitindo

    erros, mudanas ou crtica, a cincia moderna e racional vai propor formular leis e

    princpios que expliquem o funcionamento da realidade.

    O pensamento racional ao introduzir a dvida no processo do pensamento,

    introduz a crtica como parte do desenvolvimento do conhecimento cientfico. So

    esses princpios da cincia moderna que encontramos hoje.

    Principais pensadores: Ren Descartes (1596-1650), Pascal (1623-1662),

    Spinoza (1632-1677) e Leibniz (1646-1716), Friedrich Hegel (1770-1831).

  • 28

    Ren Descartes

    Nasceu na Frana, em 1596, em um momento de profunda crise da

    sociedade e cultura europia, passando por grandes transformaes e ruptura com

    o mundo anterior. Foi um dos principais pensadores do racionalismo. Exps suas

    ideias com cautela para evitar a condenao da igreja. considerado um dos pais

    da filosofia moderna.

    O princpio bsico de sua filosofia a frase: Penso, Logo existo. A base de

    seu mtodo a dvida de todas as nossas crenas e opinies. Para ele, tudo deve

    ser rejeitado se houver qualquer possibilidade de dvida. O pensamento algo mais

    certo que a matria. Ele valorizava a atividade do sujeito pensante em relao ao

    real a ser conhecido. Descarte acreditava que o mtodo racional caminho para

    garantir o conhecimento de uma teoria cientfica.

    EMPIRISMO

    O Empirismo defende que o conhecimento

    humano provm da nossa percepo do mundo

    externo e da nossa capacidade mental,

    valorizando a experincia sensvel e concreta

    como fonte do conhecimento e da investigao.

    Segundo os empiristas, o conhecimento da

    razo, da verdade e das ideias racionais

    importante, mas desde que estejam ligados

    experincia, pois as ideias so adquiridas ao

    longo da vida e mediante o exerccio da experincia sensorial e da reflexo.

    O mtodo empirista baseia-se na formulao de hipteses, na observao, na

    verificao de hipteses com base nos experimentos. O empirismo provoca uma

    revoluo para a cincia. A partir da valorizao da experincia, o conhecimento

    cientfico, que antes se contentava em contemplar a natureza, passa a querer

    domin-la, buscando resultados prticos.

  • 29

    Principais filsofos: Francis Bacon, John Locke, David Hume, Thomas

    Hobbes e Hohn Stuart Mill.

    Francis Bacon

    Nasceu na Inglaterra criou o lema saber poder, pois compreende que o

    desenvolvimento da pesquisa experimental aumenta o poder dos homens sobre a

    natureza.

    John Locke

    Mdico ingls, dizia que o mente humana uma tbula rasa, um papel em

    branco sem nenhuma ideia previamente escrita e que todas as ideias so adquiridas

    ao longo da vida mediante o exerccio da experincia sensorial e da reflexo.

    Defendeu que a experincia a fonte das ideias. Desenvolveu uma corrente

    denominada Tabula Rasa, onde afirmou que as pessoas desconhecem tudo, mas

    que atravs de tentativas e erros aprendem e conquistam experincia.

    PARA LEMBRAR: O racionalismo e o empirismo so

    pensamentos distintos, embora exista um elemento em

    comum: a preocupao com o entendimento humano.

    ALGUNS IMPORTANTES PENSADORES E CIENTISTAS MODERNOS

    Esses filsofos com seus pensamentos contriburam para que a humanidade

    construsse novos conhecimentos.

    Galileu Galilei

  • 30

    Nasceu na Itlia e considerado o fundador da fsica moderna. Defendeu as

    explicaes do universo a partir da teoria heliocntrica e rejeitava a fsica de

    Aristteles, adotadas como verdade absoluta pelo cristianismo. Por contrariar essa

    viso tradicional foi considerado herege. Questionava a Bblia, sendo julgado pelo

    Tribunal da Inquisio e condenado a fogueira ou a renegar suas concepes

    cientficas. Optou por se retratar, mas continuou fiel s ideias e publicou

    clandestinamente uma obra que contrariava os dogmas cristos.

    Isaac Newton

    Nasceu na Inglaterra, fsico e matemtico, continuou revoluo cientfica

    que deu origem fsica clssica. Fala de um universo ordenado, como uma grande

    mquina. Alm de fsica, matemtica, filosofia e astronomia, estudou tambm

    alquimia, astrologia, cabala, magia e teologia, e era um grande conhecedor da

    Bblia. Considerava que todos esses campos do saber poderiam contribuir para o

    estudo dos fenmenos naturais.

    Suas investigaes experimentais, acompanhadas de rigorosa descrio

    matemtica, constituram-se modelo de uma metodologia de investigao para as

    cincias nos sculos seguintes.

    Leitura Recomendada:

    ARANHA, Maria Lcia de Arruda; MARTINS, Maria

    Helena Pires. Filosofando. So Paulo, Moderna, 2003.

  • 31

    CONCEITUANDO POLTICAS EDUCACIONAIS

    Na tentativa de esboar uma definio de Polticas Educacional, devemos

    consider-la como ramo intermedirio entre a Pedagogia e a Cincia Poltica

    especializada na anlise dos projetos governamentais no campo educativo ou ainda,

    como a disciplina que se prope a analisar e dar sentido ao conjunto de normas

    reguladoras entre o Estado e a sociedade no campo educacional.

    A Poltica Educacional gesta-se de cima para baixo quando objetivo explicito

    de governo, base constitucional e corresponde a um projeto de gesto do Estado

    brasileiro. Por outro, professores, diretores e alunos so tambm agentes de

    realizao de Polticas Educacionais.

    A defesa e explicitao de determinadas correntes de educao, a dominncia

    de determinadas perspectivas de ensino, a posio de organizao no

    governamentais frente s aes do Estado, tudo enfim faz parte do campo de

    anlise das Polticas Educacionais. Elas realizam-se plenamente no cotidiano da

    escola, nos diferentes graus de ensino. Diramos, assim, que h duas polticas

    educacionais: uma, de cima para baixo, que faz com que um corpo de leis seja

    assimilado, discutido e incorporado no meio escolar, e outro, de baixo para cima e

    que corresponde a uma reapropriao, uma elaborao especifica, de cada

    instituio e dos profissionais da escola. Entre ambos, um movimento circular e em

  • 32

    espiral: no pouco comum o governo ter de ceder ou realizar contra-ofensiva s

    iniciativas e desejos do sociedade civil no campo educativo.

    Polticas Educacionais uma disciplina

    em construo. Introduzida pelas sucessivas

    reformas dos currculos de nossas universidades,

    corresponde a um estgio avanado de anlise e

    interpretao da realidade poltico-educacional.

    Resultado natural da evoluo da anlise dos

    problemas educacionais contemporneos, da

    ampliao dos estudos e pesquisas produzidas

    pelos Programas de Ps-graduao em

    Educao e Poltica de norte a sul do Pas, revela-se como disciplina cada vez

    sofisticada e com mtodos e anlises de investigao. Dedicando-se nos atores

    educativos, na participao dos agentes governamentais na gesto das polticas da

    educao, e na organizao dos diversos setores organizados da sociedade ligados

    a educao (sindicatos), tem apresentado resultados importantes para a luta pela

    democratizao da educao no Brasil.

    Seu papel ainda maior por que ao valorizar a ao da cultura do meio escolar,

    do sistema de crenas, valores e idias que orientam os professores e profissionais

    de ensino (alm de claro, dos agentes de governo) na gesto das tarefas

    educacionais, apresenta dimenses novas para a formulao de polticas

    educacionais.

    O enfoque da escola como lugar poltico-cultural marca a reflexo

    contempornea da disciplina de Polticas Educacionais, onde os dispositivos legais

    so percebidos na relao com a cultura da escola. A anlise institucional tradicional

    no descartada porque a escola dessas instituies slidas e srias que cria

    suas prprias regras de convvio e reao as atitudes governamentais. Finalmente, a

    utilizao do mtodo estruturalista em parte de seus estudos, predominante nas

    Cincias Sociais, no deixa de privilegiar a anlise dos determinantes das estruturas

    polticas do Brasil contemporneo, seja das estruturas scio-econmicas ou a

    situao de dependncia do pas.

  • 33

    O QUE POLTICA?

    Que imagem vem cabea da maioria das pessoas, quando ouve a palavra

    poltica? Para muitos indivduos, essa palavra evoca imagens de campanhas

    eleitorais, partidos, propagandas, poluio visual s vsperas de eleio. Outros

    podem lembrar-se da atuao de polticos profissionais, na maioria das vezes, de

    maus polticos. Isto faz com que vrias pessoas tomem averso a tudo o que diz

    respeito poltica. Mas ser que poltica isso mesmo? Ou melhor, ser que poltica

    s isso?

    Este um tema muito complexo para ser tratado com rapidez, pois seu uso

    corrente est permeado uma multiplicidade de significados que foram construdos na

    histria da humanidade e por diferentes sentidos adquiridos na experincia de vida

    de cada pessoa. Por isso, vamos voltar um pouco na histria, para refletir sobre o

    significado deste termo to polmico.

    Em sua definio clssica, o termo poltica emana do adjetivo politiks,

    originado de polis1, que se refere a tudo que se relaciona com a cidade, portanto ao

    urbano, pblico, civil.

    A obra de Aristteles, A poltica, considerada a primeira obra sobre este

    tema, pois introduz a discusso sobre Estado e sobre as formas de governo.

    1 Polis - Termo grego que se refere cidade, compreendida como a comunidade organizada, formada pelos

    cidados, isto , pelos homens nascidos no solo da Cidade, livres e iguais. Fonte: CHAU, Marilena. Convite a

    Filosofia, Editora tica, 2003.

  • 34

    Com o decorrer do tempo, poltica passou a designar um campo dedicado ao

    estudo da esfera de atividades humanas articulada s coisas do Estado. Neste

    sentido, refere-se, hoje, principalmente ao conjunto de atividades, que, de alguma

    maneira so atribudas ao Estado moderno, ou que dele emanam (SHIROMA,

    MORAES e EVANGELISTA, 2002, p. 7).

    Vale pena, neste momento, nos

    perguntarmos, ento, sobre o que

    Estado? Qual sua funo? Como

    surgiu? A resposta a estas perguntas

    no muito simples. Podemos agrupar

    as vrias formas de responder a esta

    pergunta em dois grandes grupos de

    teorias:

    Teorias com enfoque liberal:

    baseam-se numa interpretao feita pela burguesia nos diferentes momentos

    da histria do capitalismo. Consideram que o Estado neutro e est acima

    dos interesses das classes sociais, pois tem como objetivo a realizao do

    bem comum e o aperfeioamento do organismo social no seu conjunto.

    Teorias com enfoque marxista: fundamentam-se em uma concepo de

    sociedade dividida em classes antagnicas, com interesses divergentes, o

    que inviabiliza a idia de um Estado neutro, voltado para o bem comum.

    Segundo esse enfoque, o Estado uma instituio poltica que representa os

    interesses de uma classe social dominante, que prevalece sobre o conjunto

    da sociedade. Apenas no nvel aparente, estes interesses apresentam-se

    como interesses universais, de todo o corpo social. Esse enfoque constitu-se,

    deste modo, uma crtica ao enfoque liberal de Estado.

    Trs tericos europeus so considerados os fundadores do pensamento

    poltico e podem nos ajudar a compreender melhor a construo do conceito

    burgus de Estado moderno: Thomas Hobbes (1588-1651), John Locke (1632-1704)

    e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

    Para Hobbes, terico poltico e filsofo ingls, o Estado soberano significava a

    realizao mxima de uma sociedade civilizada e racional. Ele defendeu que, em

    estado natural, sem o jugo poltico do Estado, os homens viveriam em liberdade e

    igualdade segundo seus instintos. Somente o Estado, um poder acima das

  • 35

    individualidades, garantiria segurana a todos, pois o egosmo, a crueldade,a

    ambio, naturais dos indivduos, gerariam uma luta sem trguas, levando-os

    runa. Para evitar este fim e promover o bem comum, os homens selariam um pacto,

    um contrato, que evita a sua destruio. Hobbes atribui a este contrato social a

    criao do Estado, de poder absoluto.

    John Locke, foi um filsofo

    predecessor do Iluminismo 2 tinha

    como noo de governo o

    consentimento dos governados

    diante da autoridade constituda,

    defendia a idia de que o homem

    seria livre no seu estado natural.

    Para evitar que um homem

    pudesse subjulgar o outro a seu

    poder absoluto, os homens, por

    meio de um contrato social,

    delegaram poderes ao Estado, que deveria ter o papel de assegurar seus direitos

    naturais, assim como, a sua propriedade. Enquanto que para Hobbes, o contrato

    resulta num Estado Absoluto, para Locke, o Estado poderia ser feito e desfeito,

    como qualquer contrato, caso o Estado ou o Governo no o respeitarem.

    Para Jean-Jacques Rousseau, fundador da concepo democrtica-

    burguesa, a sociedade civil tambm nasceria por meio de um contrato social. Para

    ele, porm, diferente de Locke, os homens so naturalmente bons, sendo a

    sociabilizao a culpada pela sua "degenerao". O Contrato Social para Rousseau

    um acordo entre indivduos para se criar uma Sociedade, e, s ento, um Estado,

    isto , o Contrato um Pacto de associao, no de submisso. Os homens no

    podem renunciar aos princpios da liberdade e igualdade, pois ao povo pertence a

    soberania. Ele enfatizava que no h liberdade onde no existe igualdade. Ao

    2 Iluminismo ou Esclarecimento (em alemo Aufklrung, em ingls Enlightenment, em italiano Illuminismo, em

    francs Sicle des Lumires, em espanhol Ilustracin) designam uma poca da histria intelectual ocidental.

    Iluminismo um conceito que sintetiza diversas tradies filosficas, correntes intelectuais e atitudes religiosas.

    O uso do termo Iluminismo na forma singular justifica-se, contudo, dadas certas tendncias gerais comuns a

    todos os iluminismos, nomeadamente, a nfase nas idias de progresso e perfectibilidade humana, assim como a

    defesa do conhecimento racional como meio para a superao de preconceitos e ideologias tradicionais.

    O Iluminismo , para sintetizar, uma atitude geral de pensamento e de ao. Os iluministas admitiam que os seres

    humanos esto em condio de tornar este mundo um mundo melhor - mediante introspeco, livre exerccio das

    capacidades humanas e do engajamento poltico-social.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Iluminismohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Sociedadehttp://pt.wikipedia.org/wiki/Estadohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Progresso

  • 36

    contrrio de Locke, Rousseau percebia no surgimento da propriedade a origem de

    todos os males da humanidade3.

    A teoria poltica desenvolvida por Karl

    Marx (1818-1883) consiste em uma rejeio

    categrica concepo de Estado

    burguesa, que o compreende como agente

    da "sociedade como um todo". A teoria

    marxista rejeita, tambm, a possibilidade da

    existncia de um "interesse nacional", pois,

    para Marx, a base da sociedade, da sua

    formao, das instituies e regras de

    funcionamento, das idias e dos valores so

    as condies materiais, ou seja, as relaes

    sociais de produo.

    Neste enfoque, o Estado compreendido como uma estrutura de poder que

    aglutina, sintetiza e coloca em movimento a fora poltica da classe dominante. Para

    ele, o Estado moderno apenas um comit para administrar os assuntos comuns da

    burguesia, o que o torna um mecanismo destinado a reprimir a classe oprimida e

    explorada.

    No pensamento marxista, o Estado consiste, tambm, numa organizao

    burocrtica, isto , um conjunto de instituies e organismos, ramos e sub-ramos,

    com suas respectivas burocracias, que exerce a dominao das classes exploradas,

    por meio do jogo institucional de seus aparelhos. Deste modo, em condies

    historicamente determinadas, o Estado desempenha a funo de reprodutor das

    relaes econmicas e polticas de classe e de moldar aquilo que os liberais

    chamam de sociedade.

    Visto que no existe organizao social sem Estado, pelo menos aps a

    diviso da sociedade em classes antagnicas, esse Estado sempre aquele que

    3 Do Contrato social a obra prima do suo Jean-Jacques Rousseau, em ele expe a sua noo de homem, de

    Estado e de sociedade. Para obt-la na Internet, acesse:

    http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/contrato.pdf

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Jacques_Rousseauhttp://www.cfh.ufsc.br/~wfil/contrato.pdf

  • 37

    traduz o pensamento dos dominantes, ou seja, aquele que constri as condies

    para o mximo desenvolvimento daquelas classes4.

    Para Antonio Gramsci5 (1891-1937), poltico comunista e anti-fascista italiano,

    filsofo e cientista poltico marxista, impossvel, exceto nas ditaduras, a existncia

    do domnio bruto de uma classe social sobre a outra, por meio, apenas, do Estado-

    coero.

    Uma classe dominante, para assegurar-se como dirigente, deve construir um

    conjunto de alianas e obter o consenso passivo das classes e camadas dirigidas. A

    classe dominante, muitas vezes, sacrifica parte dos seus interesses imediatos e

    supera o horizonte corporativo, na busca de articular alianas e construir uma

    hegemonia6 tica e poltica.

    O Estado moderno, na

    concepo gramsciana, no poderia

    constituir-se, somente, como

    instrumento de coero a servio da

    classe dominante, pois para poder

    manter-se, a fora deve revestir-se

    de consenso, isto , combinar

    coero e hegemonia. Ao analisar

    os mecanismos de construo desta

    hegemonia, Gramsci elabora a um

    conceito de Estado ampliado, que

    compreende o Estado composto por dois segmentos distintos, a sociedade poltica e

    a sociedade civil. Ambos atuam, porm, com a mesma finalidade: manter e

    reproduzir a dominao da classe hegemnica. O conceito de sociedade civil e

    4 Para compreender a concepo marxista de Estado, vale pena ler o Manifesto do Partido Comunista,

    disponvel, no site: http://ateus.net/ebooks/geral/marx_manifesto_comunista.pdf

    Ler os clssicos do pensamento ocidental o ajudar a compreender melhor as suas prprias idias. 5 Antonio Gramsci - Poltico, filsofo e cientista poltico, comunista e anti-fascista italiano, nascido em Ales, 22

    de janeiro de 1891 e falecido em Roma, 27 de abril de 1937.

    A influncia de Gramsci encontra-se associada, principalmente, aos mais de trinta cadernos de anlise histrica e

    filosfica que escreveu durante o perodo em que esteve na priso, conhecidos como Cadernos do Crcere, que

    contm o pensamento maduro de Gramsci sobre a Histria da Itlia e o nacionalismo, bem como idias sobre

    teoria crtica e educacional que so freqentemente associadas com o seu nome. 6 Em poltica, o conceito de hegemonia foi formulado por Antonio Gramsci para descrever o tipo de dominao

    ideolgica de uma classe social sobre outra, particularmente, da burguesia sobre o proletariado e outras classes

    de trabalhadores.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADticohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Comunistahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Fascistahttp://pt.wikipedia.org/wiki/It%C3%A1liahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Fil%C3%B3sofohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_pol%C3%ADticahttp://ateus.net/ebooks/geral/marx_manifesto_comunista.pdfhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADticohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Fil%C3%B3sofohttp://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_pol%C3%ADticahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Comunistahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Fascistahttp://pt.wikipedia.org/wiki/It%C3%A1liahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Aleshttp://pt.wikipedia.org/wiki/22_de_janeirohttp://pt.wikipedia.org/wiki/22_de_janeirohttp://pt.wikipedia.org/wiki/1891http://pt.wikipedia.org/wiki/Romahttp://pt.wikipedia.org/wiki/27_de_abrilhttp://pt.wikipedia.org/wiki/1937http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_It%C3%A1liahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADticahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Gramscihttp://pt.wikipedia.org/wiki/Ideologiahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Classe_socialhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Burguesia

  • 38

    sociedade poltica7 fundamental para compreendermos o que vem a ser polticas

    educacionais e para situ-las interior das polticas pblicas.

    POLTICAS EDUCACIONAIS NO CONTEXTO DAS

    POLTICAS PBLICAS

    De acordo com a teoria gramsciana, nas sociedades de tipo ocidental, como a

    brasileira, a hegemonia (que se realiza nas diversas instncias da sociedade civil)

    no pode ser negligenciada pelos grupos sociais dominados, que pretendem

    modificar sua condio e a assumir o comando do conjunto da sociedade.

    importante para as classes subalternas construir uma contra hegemonia,

    articulando-se para interferir nos sindicatos, partidos polticos, meios de

    comunicao, escolas e demais instituies que constroem a hegemonia tica e

    poltica. neste processo que as polticas educacionais so produzidas.

    As polticas educacionais situam-se no mbito das polticas pblicas 8 de

    carter social e, como tal, no so estticas, mas dinmicas, ou seja, esto em

    7 Sociedade poltica consiste no Estado-coero, formado pelos mecanismos que asseguram o monoplio da

    fora pela classe dominante, como a burocracia executiva e policial-militar.

    Sociedade civil composta pelo conjunto das organizaes responsveis pela elaborao e difuso das

    ideologias: o sistema escolar, a Igreja, os sindicatos, os partidos polticos, as organizaes profissionais, as

    organizaes culturais e os meios de comunicao e de massa.

    Resumindo: o Estado seria a sociedade poltica gramsciana. A sociedade civil representa a nova determinao

    apresentada por Gramsci, que no comeo do Sculo XX, assume crescente grandeza com os partidos de massa,

    sindicatos de trabalhadores e outras formas de organizaes sociais. aps sua evoluo histrica que a

    sociedade civil pde ser capturada teoricamente. Antes disso, o Estado-coero era muito superior em sua base

    material para se permitir tal percepo.

  • 39

    constante transformao. Para compreend-las, necessrio entender o projeto

    poltico do Estado, em seu conjunto, e as contradies do momento histrico em

    questo.

    Se compreendermos a poltica como a arte de administrar o bem pblico, toda

    poltica deveria ser considrada pblica ou social. Entretanto, nas sociedades em que

    os meios de produo so apropriados por uma determinada classe social, o Estado

    acaba por ser apropriado, tambm, por esta classe, a fim de gerir seus interesse

    econmicos.

    Deste modo, na sociedade capitalista, o Estado assume a funo de

    impulsionar a poltica econmica, tendo em vista a consolidao e a expanso do

    capital, favorecendo, assim, interesses privados, em detrimento dos interesses da

    coletividade, o que carateriza a poltica econmica pelo seu carater anti-social

    (Saviani, 2007).

    Os efeitos gerados por esta poltca econmica concentradora de riqueza,

    contraditoriamente, ameam a continuidade do sitema econmico capitalista. Para

    contrabalancear estes efeitos, o Estado precisa promover polticas pblicas ou

    polticas sociais, nas reas de sade, habitao, assitncia e previdncia social,

    cultura e educao.

    Embora, nas sociedades capitalistas, o

    Estado esteja submetido aos interesses gerais

    do capital na organizao e na administrao

    do pblico, as polticas pblicas,

    especialmente, as de cunho social, so

    produto das lutas, presses e conflitos entre

    os grupos e classes que constituem a

    sociedade. Em sntese, as polticas pblicas

    so o resultado de barganhas e conflitos,

    consensos e embates entre os diferentes

    grupos ou classes que compem determinada

    sociedade.

    8 Polticas pblicas - Este um conceito que comporta vrias significaes. Para alguns, pode parecer uma

    redundncia, visto que toda poltica, pela prrpia natureza etmolgica da palavra essencialmente pblica. Este

    termo pode referir-se a diferentes reas ou campos de atuao governamental, por exemplo poltica econmica,

    polticas sociais, ou ainda, ambientais. Pode remeter aos processos prprios da ao poltica, no que diz respeito

    aos instrumentos, regras e organizao das foras que se enfrentam ou se articulam no espao dos embates. Pode

    significar, ainda, as instituies polticas, como o Estado e suas normas, regras e marcos jurdicos.

  • 40

    As polticas educacionais emanadas do Estado, como qualquer outra poltica

    pblica, implicam em escolhas e decises, que envolvem indivduos, grupos e

    instituies e, portanto, no so fruto de iniciativas abstratas, mas constroem-se na

    correlao entre as foras sociais, que se articulam para defender seus interesses.

    Deste modo, para entender como se elaboram as polticas pblicas, em uma

    determinada sociedade, preciso analisar seus significados histricos.

    Ao longo da Histria do Brasil, a educao redefiniu seu perfil, ao mesmo

    tempo reprodutor e inovador da estrutura social, ou seja, ela consiste em uma das

    maneiras que a sociedade estabelece para produzir e reproduzir suas formas de

    organizao do trabalho e da vida. A educao modela aptides, comportamentos,

    atitudes, valores, conceitos e preconceitos, que so necessrios a cada forma de

    organizao social e a escola um dos locais privilegiados para sua realizao. Por

    isso, o Estado brasileiro, medida que foi, gradualmente, se organizando e se

    fortalecendo, tomou para si a tarefa de instituir as bases da educao escolar

    nacional.

    As aes e orientaes do

    Estado interferem no cotidiano de

    cada instituio educativa e dos

    sujeitos que a constroem. Desde a

    quantidade de dias letivos ao

    contedo e metodologia trabalhada

    no interior de cada sala de aula

    sofrem as determinaes das

    polticas pblicas para a educao.

    Compreender estas determinaes e

    como elas se construram

    fundamental para que o professor

    possa se posicionar criticamente

    diante delas e participar efetivamente na construo de polticas educacionais que

    sirvam para contribuir na superao das injustias e a excluso social a que est

    submetida grande parte da populao brasileira.

    Se compreendermos que as polticas educacionais so construdas nos

    embates da sociedade civil, conclumos que impossvel o professor se manter

    neutro diante das lutas das entidades nas quais seus pares se articulam a fim de

  • 41

    conquistar melhores condies para a educao nacional, pois quem no se

    posiciona a favor das foras de mudanas est contribuindo para a permanncia da

    situao injustia e de desigualdade social, que marca a nossa sociedade e nossa

    educao. Como ningum capaz de transformar o que no conhece, torna-se

    fundamental o estudo das polticas educacionais, nos cursos de formao de

    professores, que pretendem contribuir na preparao de profissionais crticos, que

    sejam capazes de se posicionar diante das exigncias da realidade social e

    educacional.

    A importncia deste campo de conhecimento deve-se ao fato de contribuir

    para a compreenso da vida educacional alicerada nas dinmicas sociais, polticas

    e legais. Contempla temas como globalizao, Estado, sociedade e educao;

    legislao educacional, estrutura e funcionamento do ensino; polticas de

    incluso/excluso; financiamento da educao; formao e profissionalizao

    docente; expanso e qualidade do ensino, dentre outros que afetam a vida cotidiana

    das instituies educativas escolares e no escolares. essencial para a formao

    de um professor que saiba refletir e agir de forma coerente com suas opes ticas,

    tericas e polticas.

    O ATO DE EDUCAR

    Para o professor J. Carlos Libneo, educar (em latim, educare) conduzir de

    um estado a outro, modificar numa certa direo o que suscetvel de educao.

  • 42

    O ato pedaggico pode, ento, ser definido como uma atividade sistemtica de

    interao entre seres sociais, tanto no nvel do intrapessoal como no nvel da

    influncia do meio, interao essa que se configura numa ao exercida sobre

    sujeitos ou grupos de sujeitos visando provocar neles mudanas to eficazes que os

    tornem elementos ativos desta prpria ao exercida. Presume-se, ai, a interligao

    no ato pedaggico de trs componentes: um agente (algum, um grupo, um meio

    social etc.), uma mensagem transmitida (contedos, mtodos, automatismos,

    habilidades etc.) e um educando (aluno, grupos de alunos, uma gerao etc.)

    Diz ainda o professor Libneo que o especificamente pedaggico est na

    imbricao entre a mensagem e o educando, propiciada pelo agente. Como

    instncia mediadora, a ao pedaggica torna possvel a relao de reciprocidade

    entre indivduo e sociedade. Conclui-se, ento, que a educao no pode ser

    compreendida fora de um contexto histrico-social concreto, sendo a prtica social o

    ponto de partida e o ponto de chegada da ao pedaggica.

    No incio do processo, o educando tem uma experincia social confusa e

    fragmentada, que deve ser levada a um estdio de organizao. Nesse sentido, o

    professor Dermeval Saviani define educao como um processo que se caracteriza

    por uma atividade mediadora no seio da prtica social global.

    A fim de no confundir conceitos, convm estabelecer algumas nuana entre

    educao, ensino e doutrinao.

    Educao um conceito genrico, mais amplo, que supe o processo de

    desenvolvimento integral do homem, isto , de sua capacidade fsica,

    intelectual e moral, visando no s a formao de habilidades, mas tambm

    do carter e da personalidade social.

    O ensino consiste na transmisso de conhecimentos, enquanto a doutrinao

    uma pseudo-educao que no respeita a liberdade do educando, impondo-

    lhe conhecimentos e valores. Nesse processo, todos so submetidos a uma

    s maneira de pensar e agir, destruindo-se o pensamento divergente e

    mantendo-se a tutela e a hierarquia.

    Ao contrrio da doutrinao, a verdadeira educao tende a dissolver a

    assimetria entre educador e educando, pois, se h inicialmente uma

    desigualdade, esta deve desaparecer medida que se torna eficaz a ao do

    agente da educao. O bom educador , portanto, aquele que vai morrendo

    durante o processo.

  • 43

    Quanto aos dois primeiros conceitos, educao e ensino, no h como

    separar nitidamente esses dois plos que se completam. Como se poderia educar

    algum sem inform-lo sobre o mundo em que vive? a partir da conscincia de

    sua prpria experincia e da experincia da humanidade que o homem tem

    condies de se formar como um ser moral e poltico. Da mesma maneira, toda

    informao, mesmo que fornecida sem a aparente inteno de formao, ao ser

    assimilada pelo educando, interfere na sua concepo de mundo. Com freqncia, a

    informao pretensamente neutra est, na verdade, carregada de valores.

  • 44

    BIBLIOGRAFIA

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