Ana Falcato - O Paradoxo de Moore

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Investigao Filosfica: vol. 2, n. 2, artigo digital 3, 2011.

O PARADOXO DE MOOREAna Falcato IFL Universidade Nova Lisboa

Resumo: O famigerado Paradoxo de Moore foi frequentemente interpretado na tradio analtica como um tpico mais das Investigaes Filosficas de Wittgenstein ou como um pseudo-argumento, cujo fito fosse provar a irracionalidade contida em afirmaes em primeira-pessoa que contradizem estados de coisas actuais. Neste artigo defendo a construo de um argumento a partir da Frase de Moore e apresento quatro modelos de interpretao do Paradoxo: a afirmao da Frase de Moore como uma forma de irracionalidade terica ou de irracionalidade prtica e o mero juzo da Frase de Moore enquanto forma de irracionalidade terica ou prtica. Para sustentar qualquer um dos modelos de interpretao, defendo, uma noo forte de assero requerida. Palavras-chave: Frase de Moore. Paradoxo de Moore. Afirmao em Primeira-pessoa. Juzo em Primeira-pessoa. Absurdidade.

Abstract: The so-called Moores Paradox has been sometimes misconstrued as a topic more of Wittgensteins Philosophical Investigations, sometimes as a pseudo-argument that aims to prove the irrationality enclosed in first-person statements of belief contradicting current states of affairs. In the present paper, I argue both for the construal of an argument out of Moores sentence and present four models to approach the paradox: the assertion of Moores sentence as a form of theoretical irrationality or practical irrationality and the bare judgment of the sentence as theoretical or practical irrationality. As a means of supporting each 1

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approach a strong notion of assertion will be required. Keywords: Moores sentence. Moores Paradox. First Person assertion. First Person judgment. Absurdity.

Introduo Neste artigo ser apresentado e discutido um argumento exposto por G.E.Moore pela primeira vez em 1944 numa sesso do Clube de Cincias Morais de Cambridge. Wittgenstein estava presente nessa sesso e a partir das suas reflexes e discusses sobre o argumento a apresentado por Moore que, na literatura subsequente, este passa a ser identificado como o Paradoxo de Moore [vide: Investigaes Filosficas, II Parte, seco X]. O Paradoxo analisado a partir do sem-sentido encerrado em elocues de frases como: O Joo abandonou a sala mas eu no acredito nisso (ou, no exemplo mais debatido: Chove e eu no acredito que chove). Se reduzirmos estes exemplos a uma frmula proposicional p, que represente o contedo de Chove, obteremos a frmula complexa: p e eu no acredito que p. Esta a chamada verso omissiva do Paradoxo de Moore. Uma outra verso discutida paralelamente a verso comissiva, que faculta, no respectivo contedo proposicional, a afirmao de uma crena com contedo negativo. A verso comissiva tem a seguinte forma: p e eu acredito que no-p. A presente exposio discute simultaneamente o absurdo patenteado por qualquer das duas verses do Paradoxo de Moore e a ausncia de contradio lgica da prpria formulao. Tambm ser apresentada a assimetria entre asseres em primeira e em terceira pessoas, explorada por Wittgenstein nos seus escritos sobre o paradoxo. A discusso dos aspectos de irracionalidade presentes em vrias sub-formulaes das duas verses do paradoxo ser suportada por uma teoria da pressuposio, segundo a qual, dada uma elocuo assertiva de uma frase de crena, o respectivo falante pressupe a verdade 2

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do contedo proposicional a que a atitude se prefixa. Definio de paradoxo: como o argumento de Moore corresponde definio A primeira etapa da exposio crtica de um argumento que, como o de Moore, se analisa como paradoxal, deve explicitar de que forma o argumento instancia uma definio de paradoxo. Autores como Sainsbury (Sainsbury, 1995) ou Roy Sorensen (Sorensen, 2003) definem paradoxo como uma concluso aparentemente inaceitvel (nos termos de Moore, absurda), derivada de um conjunto de inferncias aparentemente vlidas, aplicadas a um conjunto aparentemente consistente de premissas. Ou seja, esta definio aplica-se a argumentos com uma consistncia formal e uma estrutura dedutiva no questionveis, malgrado o resultado paradoxal das respectivas concluses. A anlise de um argumento paradoxal, que visa explorar o aspecto problemtico da respectiva concluso, pode centrar-se na implausibilidade do esquema dedutivo que estrutura o argumento ou na deteco da falsidade de uma das suas premissas (uma vez que o conjunto de todas elas pode ser consistente e uma ser claramente falsa, o que contribuiria para o carcter paradoxal da frmula argumentativa). Ao longo da seguinte apresentao da frase de Moore e da explorao do seu carcter absurdo, constataremos que nenhuma das duas verses mais discutidas do paradoxo tem propriamente a forma de um argumento: so as interpretaes dos aspectos paradoxais da frase que lhe emprestam uma forma argumentativa, para justificar o carcter absurdo de asseverar ou julgar verdadeiras conjunes proferidas na primeira pessoa, com a forma p e eu no acredito que p ou p e eu acredito que no-p. Na exposio de 1944, Moore insiste que uma frase como: (A)Ainda que eu no acredite que est a chover, de facto, est a chover no encerra, em si mesma, nenhuma contradio. Para descartar a hiptese de que frases 3

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como (A) sejam contraditrias, Moore encontra dois tipos de contra-exemplos em frases com a mesma forma lgica de (A), mas nas quais o carcter absurdo de (A) desaparece. Em verses de (A) na terceira pessoa do singular ou com uma conjugao pretrita dos verbos, o carcter absurdo que caracteriza uma elocuo de (A) desaparece. No h nenhum problema com frases como: Ainda que Moore no acredite que est a chover, est, de facto, a chover ou Eu no acreditava que estivesse a chover e, de facto, estava a chover. Como a frase (A) contm uma expresso de atitude proposicional, Moore defende que o contedo semntico de (A) tem de ser analisado em termos da atitude do falante 1. Frases de crena como: (B) Eu no acredito que p, cujo significado numa lngua como o Portugus explicado em termos da relao de um falante que profira (B) com o contedo proposicional de qualquer pensamento abreviado pela letra p, s podem ser verdadeiras na condio de que o conjunto de crenas do falante que profere (B) no inclua [a crena em] p. As propostas de anlise da frase de Moore que pretendem justificar o seu carcter paradoxal so construdas a partir da deteco das diferenas de contedo proposicional e de condies de verdade entre duas elocues de (1) e (1): (1). Eu acredito que est a chover. (1). Est a chover. Se um mesmo falante F1 proferir ambas as frases, s para a verdade de (1) que o contedo 1 The words I dont believe its raining, when said by a particular person have a definite meaning: we can say that what they mean is something about his state of mind what they mean cant be true unless his state of mind is one which can be properly described by saying he doesnt believe that; and also with as a matter of fact it is raining. [Moore, 1993:210] 4

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das suas crenas ou, como diz Moore, o seu estado mental ser relevante. Uma elocuo de (1) no faria mais do que reportar um determinado facto extra-lingustico e, por isso, seria verdadeira apenas no caso de, no tempo t em que F1 profere (1) estar, de facto, a chover no local l (o local em que F1 se encontra em t) e falsa se no tempo t no estiver a chover em l. Mas, conforme veremos na anlise subsequente das verses omissiva e comissiva da frase de Moore e sendo esse o princpio explicativo que confere frase de Moore o estatuto de um paradoxo, pela definio anterior , dado um conjunto de regras que asseguram a consistncia entre as crenas de F1 e a sua racionalidade judicativa, uma elocuo sria de (1) compromete F1 com a crena em (1). Mutatis mutandis, Moore justifica este compromisso como uma implicao (no sentido de consequncia lgica) de que, se F1 profere (1), ento porque atribui verdade ao contedo de (1), mesmo se a ltima no explicitamente proferida. A verdade da elocuo de F1 fica comprometida com a crena do falante na verdade de (1). O carcter absurdo de frases como (A) sobrevm-lhes numa utilizao assertiva, na primeira pessoa e no presente do indicativo. O que torna (A) num paradoxo que o absurdo que decorre da sua utilizao assertiva no pode ser explicado em termos de uma contradio lgica entre os dois membros da conjuno em (A) ou seja, que no exista incompatibilidade lgica entre os dois segmentos da conjuno: Est a chover e Eu no acredito que est a chover [p e eu no acredito que p]. Assim, a concluso de que utilizar assertivamente (A) absurdo (uma concluso aparentemente inaceitvel) segue-se de uma no-contradio entre os membros da conjuno em (A). Quer dizer, uma afirmao conjunta de ((1) e no-(1)) podem fazer-se sem incorrer em contradio nem sequer em inconsistncia, uma vez que, prescindindo da tese da implicao de Moore, (1) e (1) podiam ser verdadeiras conjuntamente (um conjunto de inferncias aparentemente vlidas, aplicadas a um conjunto aparentemente consistente de premissas). esta a razo por que a frase de Moore se adequa definio de Paradoxo de que se partiu.

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Crenas contraditrias e afirmaes contraditrias Aquilo que a frase de Moore, em qualquer das duas verses, evidencia, a diferena entre a forma lgica da conjuno, por um lado, e o respectivo contedo cognitivo, por outro. A primeira coisa para que Moore chama a ateno que apenas a verdade de (1) depende do contedo mental do falante. Ainda que este aspecto parea trivial, veremos que ele o eixo das principais discusses tericas sobre o paradoxo, desde as Investigaes Filosficas at trabalhos muito recentes. Em Investigaes Filosficas II, X, Wittgenstein